|

digitação
utilizada para inclusão no site:
04/07/2006
Discurso proferido no
Obelisco, em cerimônia dedicada aos colonizadores germânicos:
16/03/1998 |
Petrópolis Cidade de Koeler e de
todos nós!
Fernando Costa
Benditas sejam as mãos do Criador ao
encrustar esta jóia em meio às colinas! Creio, sobretudo, não caia uma folha
sequer que não esteja pré-determinado, por isso providencial que o Senhor de
todas as coisas e pessoas conduzisse até nós a sensibilidade, arte e a
competência dos empreendedores, talentosos, dedicados e queridos colonos
alemães, dos quais esta Imperial Cidade se ufana. Não desejo aprofundar-me
quanto ao aspecto meramente histórico, mas dar voz e vez ao coração. Em rápido
lampejo pincei de Gênesis, Capítulo 12 Versículos 1-3, quando Deus fala a Abrãao:
“deixe sua terra, sua família e casa de seus pais e vá para onde eu lhe mostrar,
farei de você uma grande nação...”.
Parafraseando este belo enunciado bíblico,
penso tenha ocorrido o mesmo, reservando-nos a sorte de podermos ser
presenteados com a primeira leva de imigrantes que estiveram trabalhando na
abertura da estrada do meio da Serra, a seguir vieram para a Fazenda do Córrego
Seco, em 1837. O destino destes pioneiros era Sidney, na Austrália, mas devido
às péssimas condições de viagem interromperam o trajeto e resolveram permanecer
no Rio de Janeiro.
Ali, foram recrutados pelo engenheiro Köeler "para trabalhar
nos melhoramentos da Serra da Estrela”, assim relatou o insigne Professor Rabaço
às fls. 78 – História de Petrópolis e ainda nos dão conta os arquivos históricos
do nosso Instituto, a imprensa, arquivo Nacional e historiadores: A Fazenda do
Córrego Seco, atual cidade de Petrópolis, foi adquirida em 1830, por Dom Pedro
I, do sargento-mor José Vieira Afonso, com a intenção de mandar construir um
palácio que, nos meses de verão, abrigaria a Família Imperial. Contudo, o
projeto de construção do palácio só se realizaria anos depois, no reinado de D.
Pedro II. O início da obras exigia o uso de mão-de-obra em grandes escalas.
Resolver esta questão implicava em decidir entre a contratação de trabalhadores
livres, ou a utilização do trabalho escravo, predominante no Brasil. A decisão
do Imperador recaiu sobre a contratação de mão-de-obra livre. Para tanto, foi
assinado, em 16 de Março de 1843, um decreto-lei através do qual D. Pedro II
autorizava ao “Mordomo Paulo Barbosa da Silva” a arrendar a fazenda do Córrego
Seco ao Major dos Engenheiros Júlio Frederico Köeler, pela quantia de um conto
de réis anual. Através dessa legislação D. Pedro II determinava o assentamento
de uma povoação, a construção de um palácio imperial e um programa de
arrendamento e colonização das terras da Fazenda, nomeando o engenheiro Júlio
Frederico Köeler para a direção da colônia agrícola e superintendência da
fazenda imperial.
Criaram-se, assim, as condições necessárias à fundação da
cidade de Petrópolis. De origem germânica, o Major Köeler apresentou ao
Imperador um plano de povoamento baseado na contratação de imigrantes alemães.
Este segundo grupo migratório foi trazido em navios, de Dunquerque para o
Brasil, através de Charles François Joseph Delrue. Em 1845, as famílias
compostas por imigrantes alemães aportaram no Rio de Janeiro. Eram mais de 2000
pessoas, entre adultos e crianças. Do Rio de Janeiro os colonos alemães vieram
para a Fazenda do Córrego Seco, onde chegaram no dia 29 de Junho de 1845, data
em que se comemora o Dia do Colono e o começo de povoamento de Petrópolis, a
primeira cidade planejada do Brasil. Na verdade, a área não era pródiga à
agricultura, motivo maior, creio eu, a que pudessem deixar fluir o dom e o
talento de cada qual ao construírem um povoado próspero, que desenvolvendo-se
com rapidez, já em 1846 era elevado de Curato à freguesia de São Pedro de
Alcântara de Petrópolis e apenas 11 anos mais tarde tornava-se Município, sem
passar pela categoria de Vila, o que era até àquela data fato inédito no país.
Recebendo o nome de Petrópolis, (“Cidade de Pedro” em grego), a cidade já nascia
diferente pois ao mesmo tempo era imperial e européia e continua sendo assim até
os dias de hoje. A herança alemã está em todos os setores, e o da Família
Imperial também, como em nomes de ruas, monumentos, construções, Palácio de
Cristal, e descendentes diretos que são a Família Orléans e Bragança, conhecida
e querida dos petropolitanos. Da descendência alemã, um exemplo é a Avenida
Köeler, a mais bonita de toda a cidade e com certeza está entre os mais
esplêndidos monumentos arquitetônicos e urbanísticos do mundo. Temos toda a
tradição da família imperial e a descendência germânica que os alemães
imprimiram em nossa cultura.
Ressalte-se a grande obra realizada pela comunidade
evangélica luterana a qual sempre manteve laços fraternais com os cristãos
católicos petropolitanos, pilares do pontificado de Cristo na formação do
caráter e preservação da cultura e raízes deixando perpetuado nas sandálias de
cada colono, descendentes e demais conterrâneos as marcas do amor e fidelidade à
terra que ao seu regaço os acolheu.
Petrópolis não parou de crescer, progredir,
modernizar-se, em exuberância, eloqüência, beleza, civilidade e cultura. Vir à
Petrópolis àquela época significava uma viagem de barca, através da travessia da
baía até o porto Mauá, trem até Raiz da Serra, finalmente diligência puxada a
cavalos por entre o verde e a serra. Se por um lado era uma façanha e maratona
até aqui chegar, posso imaginar o tom romântico, indelével e repleto de
surpresas. Ora relva, ora o canto dos pássaros, bromélias, orquídeas, hortênsias
e frutos tropicais que o viajante iria descobrir a cada passo... Era, certamente
o mesmo encantamento que fascinou D. Pedro I nos idos de 1822, em seu percurso
ao caminho do ouro em Minas Gerais, chamando a atenção da Corte para o excelente
clima e natureza privilegiados.
Petrópolis contava com a presença do Imperador
Dom Pedro II durante 6 meses ao ano, por isso Capital administrativa do Império,
onde os nobres, políticos e intelectuais transitavam, em convívio com nosso
Monarca, intelectual respeitado em todo o mundo, tanto que enquanto no Rio
grassava a febre amarela e o intenso calor da capital, a vida social da serra
era intensa e alegre, quer pelos bailes, saraus, espetáculos competindo com a
animação e fausto carioca já que era elegante a alta sociedade da corte,
delegações estrangeiras e diplomacia rumarem montanha acima.
Revivendo ainda
nossos Colonos Alemães é de bom alvitre recordarmos que quando eles chegaram a
Petrópolis em 1845 o centro da cidade era pouco mais que um brejo,
constantemente invadido pelas cheias dos rios Piabanha, Palatinado e
Quitandinha. De suas mãos surgiram canais que vieram conter tais enchentes,
construíram pontes, os prédios mais antigos, o Palácio de verão de Sua
Majestade, hoje Museu Imperial.
Os colonos nos legaram um senso de unidade,
deixando fortes sinais na preservação dos costumes e culto à língua. Homens,
mulheres e crianças, deram a nossa terra a fisionomia primeira. Petrópolis de Westfália, Mosela, Renânia, Darmstadt, Wormstadt, Ingelhein, Nassau, Bingen,
Siméria, Castelânea e Palatinados Central e Inferior, notadamente porque de
várias dessas regiões originaram essa brava gente, que não obstante prestarem
homenagens à Cidade, também o fizeram em honra à Família Imperial criando a Vila
Imperial e Vila Teresa, e o mesmo ocorrendo com relação aos grupos nacionais
integrantes da população petropolitana, incluindo por isso aos Quarteirões, além
das reverências à região dos colonizadores, ao Governo das províncias, e tributo
ao país através dos nomes Quarteirão Brasileiro, Mineiro, Presidência, Princesa
Isabel, e ainda ao povo italiano, francês, inglês, suíço, juntando-se à Renância
Superior, Worns, dentre outros.
Köeler era um ecologista por natureza,
preservando os vales, qualidade de vida de seus moradores, respeitando a
natureza, caminhos de acesso mais suaves, ao lado dos cursos d’água. Era
idealista, mecenas e um espírito franciscano por excelência, bastando-se como
exemplo o fato de doar sua Fazenda, situada em Quitandinha para ser incorporada
à criação e ampliação da Cidade de Petrópolis. Em cada canto uma lembrança quer
no Valparaíso, Morin e arredores. Revivendo o tempo, resgatando a cultura,
história, os fatos, as coisas, praxes e tradições, lutemos a que permaneça acesa
a chama do existir, jamais se arrefeça da história e das memórias atuais e das
gerações do porvir o grande legado de nossos colonos alemães cujos nomes estão
perpetuados neste obelisco e no coração de nosso povo.
Há séculos mandavam-se
erigir obeliscos, marco da fundação de uma Cidade; assim, no Cairo, Atenas,
Roma, Paris, Rio, São Paulo, Moscou, Jerusalém, Nova York, Madri, Tóquio,
Petrópolis e etc. possuem belos e imponentes monumentos simbolizando a pedra
fundamental do Município.
E o obelisco é o ápice da emancipação desta terra e da
presença viva da colonização germânica. São 361 nomes desde Adams até Zoebus.
Petrópolis de descendentes notáveis como os historiadores Guilherme Martinez
Auler, Gustavo Ernesto Bauer, Hugo José Kling, Manoel Walter Bechtlufft,
Guilherme Pedro Eppinghaus (engenheiro responsável quando da edificação de nossa
Catedral), Jacob Müller – regente do 1º coral de Petrópolis, Aluízia Maria
Gabrich, pianista, Carlos Kling Sobrinho – fundador do Harmonie Moselthal, Pedro
Hees, fotógrafo, Guttmann Bicho, artista pintor. Colonos com habilidades manuais
e artesanais, como ferreiros: Jacob Monken, Ludwig Echternacht, funileiro: Adams
Boller, marceneiros: Jacob Nicolai Heinrich Brahm, Heinrich Ludwig Jaeger,
Theodor Eppinghaus, os Shaefer e os Reith. Os Noel (descendência também do
Historiador Paulo Roberto Martins Oliveira, a quem, desde já agradeço a presença
a esta cerimônia) no ramo de carvoaria e materiais de construção, os primeiros
professores colonos católicos Friedrich Husch, Martin Dupont, Heinrich Monken
Heirich Rablais, e os professores evangélicos Peter Jacob, August Moebus e
Johann Wilhelm Scmidt., assim como os Berner, os Kapps (um deles músico
internacional da Família do Promotor de Justiça Sérgio Carvalho), e a Família
Haack no comércio e medicina.
Embora não colonos prestaram relevantes serviços à
Comunidade Walter João Bretz, Carlos Grandmasson Rheingantz, os professores
evangélicos Friedrich Stroell e Eintracht (Coral Concórdia), e os professores
católicos Theodor Pausacker, Karl Lager, o escultor Carlos Spangenberg, Heinrich
Sieber, lapidário de vidros e Ernest Papf, fotógrafo, artista e grande pintor.
Os Maiworm notadamente na fabricação de vinho. Os Gehren, os Kreischer e os
Hoelz, todos pioneiros no setor coletivo de ônibus.
Caríssimos, são apenas tênue
mostra; quisera declinar nome a nome, descendente por descendente, desde os mais
célebres aos mais simples, na verdade todos merecedores de galardões e aplausos.
Aqui estamos, para glorificar, exaltar, agradecer e rezar. É tempo de bênçãos e
reconhecimento, de homenagens aos bravos colonizadores em preces e louvores a
tantos quantos descansam junto ao regaço do Pai e aos descendentes a
prosseguirem ajudando a escrever tão belas páginas da história pontilhada em
carinho, abnegação e arte. Confesso-lhes constituir-se em subida honra e emoção
o sentimento que invade-me nesta hora, não apenas na condição de Membro de
diversos Cenáculos Culturais desta comunidade, notadamente do Instituto
Histórico de Petrópolis e ainda, pela deferência conferida através do Clube 29
de Junho, Instituições e Municipalidade, a que os representasse neste momento
tão solene à Imperial Cidade, mas especialmente pelo amor devotado a esta terra
e a seu povo, porque Petrópolis é na verdade, “o altar que Deus quis construir
na natureza”.
Petrópolis vive hoje mais uma Bauernfest. Gosto de apreciar as
avenidas repletas de galhardetes, flâmulas, símbolo de nosso preito aos Colonos
Alemães, em meio aos palcos preparados para as danças, amplos, iluminados e
bonitos.. . Por duas vezes estive na Alemanha, aprendi a admirar e a contemplar
sua paisagem, cultura, arquitetura, beleza e civilização. O passeio pelo Reno
foi inesquecível. A música, o folclore, a alegria. Têm muito de brasileiros ou
temos muito de alemães, sobretudo no bom humor e simpatia. Seus pratos -
deliciosos – desde o eisbein, choucroute, purê de maçã, strudel, salsichas e
tantos mais. E a cerveja? As casas, cada qual mais bela, desde os cortinados, à
higiene, arquitetura, pintura ou esculturas fascinantes!. Por diversas vezes nos
desfiles de abertura e encerramento da Bauernfest passei horas a ajudar a
enfeitar charretes e carruagens. Sabemos que esta festa nasceu graças ao Clube
29 de Junho, entidade que tem em sua Presidência a Sra. Emygdia Hoelz Lyrio e
dileta Diretoria. Para mim, mais que Clube, é uma Casa de Cultura. Sinto-me
feliz. Feliz por conhecer um pouco do muito que realizam. Nossos colonos e
descendentes são os principais responsáveis hoje e sempre a que Petrópolis:
“Altiora Semper Petens”, mantenha-se sempre nas alturas!
Devo concluir, na
certeza de que em cada flor que margeia nossos rios, em cada fragmento de nossas
ruas, casarões, templos e palácios centenários, reflete-se a alma germânica, a
sensibilidade e arte sob o clima ameno embalado pela doce brisa e serração
inconfundíveis. Petrópolis, esteja certa de que se as pantufas contassem, um
pouco de sua história, encheriam mil canteiros, com flores de tuas glórias!
Glórias aos céus e a nossos Colonos, seus grandes arquitetos. E unindo-me a seus
colonizadores e descendentes, mais uma vez acariciamos sua fronte ao dizer-lhe
que é eterna poesia e nossa rainha, a quem prometemos ser fiéis e amá-la ainda
que nos faltem todas as forças, porque possui a pureza de mãe, o ombro amigo se
choramos, os braços estendidos se sorrimos, adotou-nos como se filhos fôssemos,
Petrópolis de onde não sairemos jamais, pois seguiremos os mesmos passos de Sipião, o Centurião Romano. Deus assim há de querer, e Ele quer, disso temos
certeza.
|