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Tribuna de
Petrópolis: 06/05/2001 |
O
VERDADEIRO CONSOLIDADOR DA REPÚBLICA
Francisco de Vasconcellos
A ala do "Ordem e Progresso", a turma do golpe que derribou a
Monarquia e instaurou a República entre nós, o grupo dos radicais seguidores
de Benjamin Constant, a facção histérica e jacobina que secundava o sanguinário
caudilhete Moreira César, os paranóicos que em cada atitude, movimento ou
manifestação, enxergavam o espectro do então chamado sebastianismo, alçaram
Floriano Peixoto aos cornos da lua, proclamando-o consolidador da República.
Nunca estive e sigo não estando de acordo com esse entendimento.
A Revolta de 6 de Setembro de 1893, dita da Armada, foi palanque e vitrine do
"Marechal de Ferro" e a guerra no sul que fez o pano de fundo de quase
todo o seu período governamental, não foi liquidada por ele. De resto Floriano
foi um sargentão medíocre e mesquinho, sem qualquer visão de estadista, que a
pena sublime de Lima Barreto caricaturou no "Triste Fim de Policarpo
Quaresma".
Quem realmente consolidou a República, foi Prudente José de Moares Barros, com
sua capacidade de resistência, com seu estoicismo, com sua paciência, com sua
vontade consciente de colimar objetivos condoreiros, com sua índole
pacificadora, com sua compreensão, com sua coragem de arrostar qualquer
dificuldade em benefício de sua pátria e de seu povo.
E não lhe faltaram obstáculos, crises, problemas aquém e alem fronteiras,
traições e atentados. E como condimento necessário, uma tremenda luta entre
facções políticas que provocou o racha no Partido Republicano Federal.
De um lado os florianistas inconformados a contarem com o apoio, no âmbito
nacional, do Vice-Presidente Manoel Victorino Pereira e no fluminense, de Nilo
Peçanha; de outro, os prudentistas, prestigiados pelos cafeicultores paulistas
e no Estado do Rio de Janeiro, pelo líder José Thomaz da Porciúncula.
Foi a 15 de novembro de 1894 que Prudente de Moares tomou posse de seu cargo de
Presidente dos Estados Unidos do Brasil. Ia cumprir o primeiro quatriênio
regular da história republicana do país.
Mas o clima tenso que dominara o seu mandato, já se fazia sentir desde o
primeiro momento, dado que o Marechal Floriano se negara a transmitir-lhe o
cargo, abandonando precipitadamente o Palácio Itamarati, então sede da Presidência
da República.
Sete meses depois, morria o Marechal, mas o seu cadáver, como ocorreria mais
tarde com o de Getúlio Vargas, serviu de bandeira para os oportunistas e
ressentidos de plantão, na busca desesperada pelo poder.
O fantasma de Floriano perturbou a difícil jornada de Prudente na condução
dos destinos da Pátria.
As tribunas da Câmara e do Senado e as colunas dos jornais foram as
trincheiras preferidas dos mesquinhos cáftens da desgraça pública, dos
eternos partidários do quanto pior, melhor.
A oposição feroz obstruía, embaraçando os passos do governo e forçando cada
vez mais o mergulho do país no caos.
O Presidente, porém, sobranceiro a tudo, com a sua "firmeza heróica",
na expressão feliz de um representante diplomático do Chile, resistiu,
vencendo cada desafio, para escrever seu nome com letras de ouro na História
brasileira.
Ao mesmo tempo em que recebeu o difícil e trabalhoso encargo de liquidar a
guerra no sul, fazendo o rescaldo dos ressentimentos e das paixões, teve que
enfrentar o rumoroso caso da invasão da Ilha da Trindade pelos ingleses.
Como a Revolta de 6 de setembro de 1893 e as diatribes nos estados sulinos
haviam provocado danos e prejuízos, quer ao patrimônio de súditos de potências
estrangeiras, quer às populações lindeiras da República Oriental do Uruguai,
vieram as reclamações dos prejudicados, das quais avultaram, em número e em
importância pecuniária, as dos italianos, que se resolveram num rumoroso
protocolo, provocador de badernas e morticínios em vários estados brasileiros,
com a eterna caixa de ressonância no Rio de Janeiro, então Capital da República.
Esse foi o indigesto cardápio do governo Prudente de Moares no ano de 1896, ano
em que o Presidente, atormentado por séria enfermidade teve que licenciar-se
para submeter-se a delicada cirurgia.
Era Vice-Presidente o baiano Manoel Victorino Pereira, que já havia sido banido
do governo de seu Estado, no tempo de Deodoro.
Não era figura que se recomendasse e disso deu provas enquanto esteve no exercício
da presidência.
Sem qualquer escrúpulo de ordem ética, conspirou o quanto pôde contra
Prudente. Ligado aos florianistas, autorizou a intervenção federal no Estado
do Rio de Janeiro, quando em fins de dezembro de 1896 deram-se as eleições
para Senador por esta unidade da Federação, da qual saiu vitorioso José Thomaz da Porciúncula, fiel ao prudentismo. A crise ensejou a renúncia do
Ministro da Justiça, Alberto de Seixas Martins Torres, homem de confiança de
Prudente e figura de proa do Partido comandado por Porciúncula, o PRF.
Foi também de Manoel Victorino e de seus apaniguados a idéia de mandar o
Coronel Moreira César para dar combate aos jagunços do Conselheiro, em
Canudos.
Afirmam abalizados pesquisadores que se Moreira César triunfasse, ganharia
enorme força e Victorino dificilmente cederia seu posto ao Presidente
licenciado. Seria o fim de Prudente de Moares e o início de uma catástrofe
institucional.
A morte do sanguinário Coronel na caatinga do nordeste baiano, foi a salvação
da lavoura.
O desastre providencial não podia passar desapercebido àqueles eternos
agitadores, que nos grandes centros, desconhecendo tudo sobre o Brasil do chapéu
de couro, guarda-peito e gibão, metem-se a dar regras e a fazer conjecturas
sobre um mundo fora de sua compreensão.
No Rio de Janeiro, ao som das trombetas desvairadas da imprensa panfletária, os
que viam nos reiterados sucessos dos jagunços a vergonha maior da República,
lançaram-se contra tudo e contra todos.
Foi nessa onda que sucumbiu o Coronel Gentil de Castro e que se deram inúmeros
atentados contra pessoas e propriedades particulares.
No olho desse furacão, Prudente de Moares retomou as rédeas do poder, para
jogar a cartada definitiva em Canudos.
E como se não fora bastante, ao mesmo tempo em que a guerra no sertão baiano
polarizava todas as atenções do governo e do país, enfim, ainda havia o caso
da Guiana Francesa a ser decidido, a preocupação dos meios diplomáticos com
os rumores de uma anexação da República Oriental do Uruguai, pela Argentina,
o que o Brasil não admitiria em hipótese alguma e o tratado de comércio com o
Chile, emperrado no Congresso pela obstinada obstrução dos que se opunham a
Prudente de Moraes.
Antes que o ano de 1897 terminasse, deu-se a derrocada de Canudos e no Rio de
janeiro, iníqua e covarde conspiração quase deu cabo do Presidente. Morreu em
seu lugar o Ministro da Guerra Machado Bittencourt.
Enquanto Francisco Glicério e Nilo Peçanha infernizavam a vida de Prudente na
Câmara Federal, no Senado, Ruy Barbosa passaria a hostilizar o Presidente,
quando fora preterido na corrida sucessória que apontou o nome de Campos Sales.
E como desgraça pouca sempre foi bobagem, além das sucessivas crises políticas,
diplomáticas e institucionais, viveu o Brasil verdadeiro inferno astral no
campo econômico-financeiro com a acentuada baixa do café no mercado
internacional.
Enfim não houve um desafio que não tivesse recebido por parte do Chefe do
Governo uma resposta à altura.
E quando no dia 16 de novembro de 1898 ele deixou o modesto hotel na Glória
para tomar o trem para São Paulo, seus colaboradores e o próprio povo
fizeram-lhe retumbante homenagem, conduzindo-o em triunfo à estação da
Central do Brasil.
Prudente de Moares, um perfeito estadista, voltava ao seu torrão de origem com
a consciência do dever cumprido.
Deixou o Brasil pacificado e a casa arrumada, para que Campos Sales fizesse os
dolorosos mas necessários ajustes econômicos, preparando o terreno para o
dadivoso quatriênio Rodrigues Alves.
Dentre os que nunca faltaram com o seu apoio a Prudente, destaca-se a figura de
José Thomaz da Porciúncula, que, já fora do governo fluminense, prestou
relevantes serviços ao Brasil, como Ministro Plenipotenciário no Uruguai, onde
foi apagar os incêndios causados pela revolução riograndense, como Senador,
como chefe do Partido Republicano Fluminense, como fiel de balança nas mais
intrincadas questões nacionais.
Bem significativo o trecho abaixo transcrito, colhido na circular do PRF na
oportunidade da eleição do Presidente do Estado para o triênio 1898/1900,
publicada na Gazeta de Petrópolis de 26 de junho de 1897. Ali estava o
pensamento vivo de Porciúncula:
"Por tão superiores motivos e tão altos interesses, dada a cisão no
Partido Republicano Federal, que se dividiu em dois lados - um que rompeu em
despejada oposição ao snr. Presidente da República, outro que entendeu dever
apoiar o benemérito Magistrado - o Partido Republicano Fluminense, por seus
representantes nas duas Casas do Congresso tomou posição no segundo
grupo". "Aliás, a nossa atitude estava de antemão determinada pelos
nossos princípios e pelos nossos precedentes; somos pela legalidade contra a
violência, seja que esta propenda para a ditadura, como no golpe de estado de 3
de novembro, seja que se encaminhe para a anarquia, como na revolta de 6 de
setembro; somos pelo direito contra o arbítrio; somos pelos cidadãos de boa
vontade, honestos na sua fé republicana, modestos no seu merecimento real,
contra os proselitismos proscritores, as adesões interesseiras, as indicações
espetaculosas; somos pela ordem contra a arruaça; somos pela autoridade
constituída da nação, enquanto cumpre a lei, quer se chame Floriano Peixoto,
quer se chame Prudente de Moares, contra os ambiciosos de mando, apareçam estes
armados de canhões, ou armados de sofismas, falem a linguagem do crime, ou a
linguagem do vício, revistam a figura de declarados revoltosos, ou a figura de
conspiradores hipócritas".
Com essa fé de ofício, o PRF e seu timoneiro só podiam estar do lado de
Prudente de Moares, empenhados na luta da reconstrução nacional e da consolidação
da República, como autêntica expressão democrática.
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