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09/08/2010

texto básico do discurso de posse na cadeira nº 37 do IHP, na reunião de
09/08/2010

POSSE DE VERA LÚCIA SALAMONI ABAD

Vera Abad

Sinto-me muito honrada e feliz de hoje fazer parte do Instituto Histórico de Petrópolis como associada efetiva. Perguntaram-me se viria fazer parte do acervo. . ainda não.

Ser aceita no Instituto Histórico, como fui aceita na Academia Brasileira de Poesia, representa para mim, não um prêmio ou um coroamento de carreira, mas uma oportunidade única de aprendizado. A oportunidade de poder crescer em meu trabalho através do convívio com aqueles que, por experiência e sabedoria, detêm os meios próprios para nos desenvolver, e a chance de assim poder oferecer o trabalho que puder produzir para o crescimento desta instituição. Este é meu propósito. É, portanto, como aprendiz que aqui me coloco e neste primeiro momento. Obrigada.

E o aprendizado começa logo ao conhecer mais a fundo o trabalho da pessoa que me coube como patrono e sobre quem devo discorrer neste momento.

Patronos são escolhidos pelas academias por serem figuras históricas, homens de letras, (mulheres, também!), pessoas que se destacam nos âmbitos relacionados com os propósitos acadêmicos.

Intitulam os acadêmicos (pelo menos os da ABL) imortais. Claro, ninguém é imortal. Mas a dita humana imortalidade existe em uma obra, em certos feitos, e mesmo assim, não prescinde do relato passado de geração para geração para que se perpetue e, se tal relato não for por escrito, periga de ser deturpado ou esquecido para sempre. Falo de matéria prima com a qual lido há bastante tempo: a palavra, a palavra escrita - a memória, cerne do conhecimento histórico. O relato da história tem a ver com a memória, informação e preservação.

Assim, mesmo sem citar o seu nome, meu patrono já está presente em dois aspectos importantes do conhecimento histórico: relacionar-se com os que detêm os mesmos propósitos e raízes para promoção do próprio crescimento e a memória, fator essencial à preservação da identidade para que o desenvolvimento se faça a partir do conhecimento.

Foi através da excelente pesquisa realizada pela professora Priscila Ribeiro Dorella da Universidade Federal de Minas Gerais (1), que travei conhecimento da obra de Silvio Júlio Albuquerque Lima.

(1) DORELLA, Priscila. Silvio Júlio de Albuquerque Lima: um precursor dos estudos acadêmicos sobre a América Hispânica no Brasil. Belo Horizonte. UFMG, 2006. Dissertação apresentada ao curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.
 


Lamenta ela, em sua dissertação, que os livros e demais trabalhos escritos por Silvio Júlio não tenham sido reeditados e sejam hoje difíceis de serem encontrados. Lamentamos todos, pois se não cuidamos de nossa memória, não cuidamos de nosso desenvolvimento.

Dr. Silvio Júlio Albuquerque Lima. Pernambucano, nascido em 19 de novembro de 1895, filho do General Melquisedeque de Albuquerque Lima e Júlia Jardim Spíndola de Albuquerque Lima. Ferrenho defensor da cultura hispano-americana e da inclusão do Brasil numa América ibero-americana.

Viveu em Petrópolis uma parte de sua vida e aqui faleceu em 1984.

Orgulhava-se de ser Albuquerque Lima por ter essa família uma forte tradição republicana.

Estudou no colégio Militar no Rio de Janeiro onde publicou seus primeiros trabalhos na revista Aspiração. Ele mesmo descreve sua formação no Colégio Militar como a verdadeira base de toda sua trajetória intelectual:

“Nossos inesquecíveis professores nos ensinaram a morrer pelo Brasil, sem cometer a estupidez de julgar crime ou infelicidade ser francês, italiano, espanhol, chileno, paraguaio, colombiano. Além desta norma ecumênica e cristã, com eles soubemos que nossa pátria se situa no Novo-Mundo e é a nação ibero-americana”. (2)

(2) JULIO, Silvio. Sobre História, Arqueologia e Lingüística. Rio de Janeiro. Revista Continente Editorial, 1983, p.16
 


Assim, cedo despertou seu interesse pela cultura hispânica e, em particular, americana. Já em 1913, trouxe ao Brasil o poeta Salvador Rueda, apresentando-o a poetas brasileiros com Olavo Bilac, Carlos Maul e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa.

Ao mesmo tempo em que se desenvolvia esse interesse ibero-americanista, Silvio Julio dirigiu seus estudos para a área jurídica. Matriculou-se em 1914 na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro, mas veio a terminar seu curso de direito no Rio Grande do Sul por influência de Oswaldo Aranha, seu amigo desde o Colégio Militar. Viveu em diversas cidades no estado e de lá, visitou o Uruguai e a Argentina, conhecendo aqueles que viriam a ser alvo de sua grande admiração: os uruguaios Rodó e San Martin, e os argentinos Ingenieros e Ugarte.

É de autoria de Rodó, “Ariel”, famoso ensaio publicado em 1900, um clássico do pensamento latino-americano, que questiona o processo de aceleração capitalista e o american way of life, em detrimento da herança greco-latina e católica da América ibérica. Por ocasião do cinqüentenário de sua publicação, Sílvio Júlio escreveu: José Henrique Rodó e o cinqüentenário de seu livro Ariel (1954).

Para ele, Ariel significava “um programa de educação social, uma regra de moral coletiva, um guia de fé otimista, uma síntese hispano-americana de ações e anseios, (...)". (3)

Cada vez mais envolvido na literatura hispano-americana, ao longo de seus estudos da literatura americana, chega a afirmar:

“As literaturas americanas não pregam o ódio; não adoram déspotas; não criam místicas individuais; não se conformam com a estupidez futurista. Quem as conhece e cultiva, sabe que elas constituem uma só orientação e que enviam ao futuro uma só mensagem: unionismo, solidariedade, confraternização pela beleza.” (4)

(3) JULIO, Silvio. José Enrique Rodó e o cinqüentenário do seu livro “Ariel”, Rio de Janeiro. MEC, 1954, p. 60
(4) JULIO, Silvio. Escritores antilhanos. Rio de Janeiro. H. Antunes, 1944, p. 55
 


Embora formado, nunca chegou a advogar. Dedicou-se à pesquisa, ao ensino, à política e ao jornalismo.

Do Rio Grande do Sul, já casado com Carmem Lemos Bastos, mudou-se para o Ceará como catedrático do Colégio Militar e depois voltou ao Rio de Janeiro onde dedicou-se ao jornalismo, principalmente. Escrevia sobre diversos temas, políticos, geralmente, sempre defendendo suas idéias, sem se abater por críticas e isolamentos. Na Gazeta de Notícias criou a primeira seção ibero-americanista da imprensa brasileira.

Em 1925 participou da criação do Grêmio de Intercâmbio Casa de Cervantes que procurava divulgar a cultura hispânica no Brasil. Seu livro “Apostolicamente” foi publicado por essa instituição no ano seguinte.

Ocupou a cátedra de História da América, da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, (precursora da UFRJ), por concurso em 1947.

Fez várias viagens pela América hispânica, visitando vários países como representante do Brasil em congressos e dando conferências sobre literatura, história e folclore. Durante essas viagens tornou-se membro honorário de muitas universidades e instituições. Em uma delas, conheceu sua segunda mulher, a chilena Lastênia Seno.

Entre 1940 e 1960, publicou várias obras, versando sobre temas brasileiros e hispano-americanos: Escritores da Colômbia e Venezuela, e Projeção Universal de Eça de Queiroz são de 1943; História, Literatura e Folclore da América Espanhola (1945), Fósseis no Frigorífico (1954), Artigas (1960).

Em 1960, a Universidade Federal do Rio de Janeiro enviou-o para uma missão cultural em Lima, com o objetivo de promover um intercâmbio cultural entre o Brasil e o Peru. Silvio Júlio atuou como professor convidado de História dos Povos Americanos na Universidade Mayor de San Marcos até o ano de 1973, quando as mudanças políticas ocorridas no país, tornaram seu trabalho indesejado. Lá, admirava-se do bom trato dado à produção intelectual dos países ibero-americanos, justificado pelo fato de que tiveram universidades muito antes do Brasil. Queixava-se sempre do pouco apoio que lhe fora dado pelo governo brasileiro, mas de resto, reconhecia a dificuldade de muitos intelectuais brasileiros de obterem incentivo e reconhecimento da sociedade e do governo pelos seus trabalhos.

Voltou ao Brasil desgostoso, visto que, depois de doar todos os seus livros, cerca de 12 mil, à biblioteca da universidade, lá deixara o fruto de sessenta anos de pesquisa e trabalho ininterruptos sem saber que uso o novo regime lhes daria.

Embora tenha se dedicado principalmente aos temas hispano-americanos, em suas pesquisas, não se descuidou dos assuntos brasileiros. Era criticado por sua obsessão ibero-americana, e retrucava:

"(...) eu nasci mais ou menos um D. Quixote. Toda nossa longa, agitada e pelejadora vida confirma esta confissão. Sozinho, incompreendido, aqui e ali ironizado por cronistas mimosos e mundanos, fomos o único ibero-americanista do Brasil. Passamos, para a maioria, como um espécie de monomaníaco. (...) (5)

(5) JULIO, Silvio. História, Arqueologia e Lingüística. Rio de Janeiro. Revista Continente Editorial, 1983, p.15
 


E cita então, em contrapartida, sua produção dedicada às coisas brasileiras: “Pampa” (1915), “Fundamentos da Poesia Brasileira”, “Penhascos”,”Relações da Língua Portuguesa com a Literatura Brasileira”, “Terra e Povo do Ceará”, “Estudos Gauchescos de Literatura e Folclore”,”Literatura, Folclore e Lingüística na Área Gauchesca do Brasil”... e mais.

Um aspecto interessante de Silvio Júlio como historiador é sua visão da necessidade do conhecimento das outras historias.

Ressaltou o problema de privilegiar excessivamente a produção de uma história nacional brasileira em detrimento de outras histórias, pois acreditava que isso impediria o país de conhecer proficuamente o “outro”. Pois ao depararmos com o outro, o maravilhoso, o terrível, o diferente, incognoscível. É na presença do outro que construímos aquilo que somos e o que não somos – a nossa identidade.

Para a integração dos países que constituem o que chamamos de América Latina, afirmava que só o conhecimento do que existia em comum nas nossas raízes ibéricas, em oposição às nossas diferenças em relação aos “outros”, nos traria a consciência de sermos todos ibero-americanos. Que deveríamos nos ver como irmãos gêmeos, por termos a mesma origem, a mesma religião e línguas bastante parecidas. É o que sempre afirma, desde “Estudos Hispano-Americanos” de 1924 até “Aproximações Folclóricas em Português e Espanhol”, publicado aqui em Petrópolis em 1975. Entretanto, a aproximação dos povos latino-americanos não se faria pelas semelhanças, mas pela oposição ao “outro”, em situação geográfica oposta, cuja religião e língua diferem totalmente.

Quanto à história, diz ele:

“A historiografia, ou se estuda com elevação, crítica científica e verdadeiro senso de justiça ou não passa de romance aviltado pelo interesse dos partidos e dos indivíduos sem moral. Nacionalismo furente, raivosa patriotaría não é luz, mas trevas e negação da inteligência, que pertence a humanidade e nunca viveu cercada dentro de um quintal, de uma fazenda, de um município. Meter a liberdade de pensar num uniforme e acorrentá-la à delegacia de polícia do bairro não nos parece que seja prestar serviços à sociedade em que vivemos, porque isto representa atraso, retrogradação, inferioridade.” (6)

Seus métodos de estudos históricos, no entanto, não podem ser considerados isentos. “A história produzida por Silvio Júlio, diz sua aluna Eulália Lobo, era em grande parte uma história exemplar e heróica. Esse foi o caminho da narrativa encontrado, diversas vezes, pelo autor para chamar a atenção sobre significativas figuras hispano-americanas, como Bolívar, Rodó, José Martí, Manuel Ugarte e sobre sua crença no Ibero-americanismo bolivariano”. (7)

(6) JULIO, Silvio. Escritores Antilhanos. Rio de Janeiro. H. Antunes, 1944, p. 20
 (7) DORELLA, Priscila. Silvio Júlio de Albuquerque Lima: um precursor dos estudos acadêmicos sobre a América Hispânica no Brasil. Belo Horizonte. UFMG, 2006.
 


Sobre seu ídolo, Simon Bolívar, escreveu o tratado biográfico “Cérebro e Coração de Bolívar” em 1931, com enorme paixão. Ardoroso defensor do pensamento bolivariano, pregava a imagem do herói como modelo, sem mencionar as dúvidas e arrependimentos narrados pelo próprio Bolívar.

A questão fundamental do autor não era a luta pelo discurso mais autêntico, mas contra o nacionalismo estreito que impede o intelectual de se ligar a uma visão transnacional de cultura.

Era uma postura para a época um tanto radical, e incomum, posto que a idéia em voga era justamente a procura das coisas essencialmente brasileiras para que se traçasse o perfil histórico brasileiro dissociado do colonizador. Criava-se na ocasião o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Nascido da preocupação do registro da identidade brasileira.

Silvio Julio repudia o Instituto, o considera um atraso intelectual. Principalmente porque acredita que seus membros prezam a monarquia.

Em várias ocasiões apresenta em seus trabalhos os escritores da América Latina em: “Escritores da Colômbia e Venezuela”,1942; “Escritores Antilhanos”, 1944, e já em 1983 “Achegas Peruanas à Literatura de Ibero-América".

Mas, desiludido, afirma:

“Vindo da América Espanhola, o Brasil não aceita nada. Repudia tudo com hierática indiferença”. (8)

Crítico e sempre convicto de suas afirmações, defendia que o fato do Brasil possuir dimensões continentais não justificava uma postura de superioridade. Além disso, observava que, em sua época, os políticos escolhidos para a tarefa de aproximação eram extremamente despreparados.

Trabalhava em prol do mútuo desenvolvimento dos povos latino-americanos através da cultura, na tentativa de instruir e transcender a desunião econômica e a fragmentação política.

Em 1961, no Ensaio sobre a História dos Povos Americanos diz:

“Não pode haver dúvida que a História dos Povos americanos é aspiração de unidade ideológica, porém nunca realizará, dentro dela, se não reconhecermos nações, grupos de países que ao mesmo tempo apresentem elementos de aproximação e elementos de singularização. (...) A combinação de uns e de outros harmonizados, não paralelos apenas, produz aquela sonhada síntese: A História dos Povos Americanos.” (9)

(8) JULIO, Silvio. Escritores Antilhanos. Rio de Janeiro. H. Antunes, 1944, p. 24
 (9) JULIO, Silvio. Ensaios sobre a História dos Povos Americanos. Rio de Janeiro.  Nepec. 1961
 


Mas o esforço de Silvio Júlio em conhecer, estabelecer contatos e realizar intercâmbios para a consolidação da integração intelectual dos países latino-americanos foi recebido com certa resistência devido ao fato de, não só no Brasil, mas também nos países hispano-americanos, nos anos 1930, 40 e 50, haver ênfase em outros debates, como nacionalismo, comunismo e desenvolvimentismo.

Se seus estudos sobre fatos e personagens históricos careciam de método, entende-se como decorrentes das dificuldades e pioneirismo da época. A veemência era necessária. Hoje diversos ramos da ciência se entrelaçam, entre ciências sociais, antropologia, geografia política e tantos, e mesmo assim, o puro conhecimento não atinge os objetivos traçados por Silvio Júlio.

A transformação do mundo em aldeia global vai apagando fronteiras e contornos.

As dificuldades relacionadas à integração entre os países sempre foram, ao longo da história, uma constância. Motivos econômicos, sociais, políticos e históricos resultaram em atitudes mútuas de indiferença e preconceito. “Una historia conjunta que se niega”, segundo Canclini. (10)

Defender essa “historia que se niega” foi o recorrente discurso de Silvio Julio de Albuquerque Lima. Para tanto, legou-nos uma extensa obra. Conta-se a sua história, guarda-se a sua memória e aprende-se com ela.

(10) GARCIA, Canclini Néstor. Latinoamericanos Buscando Lugar en Este Siglo. Buenos Aires. Paidós, 2002, p. 34

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