Tribuna de Petrópolis: 21/01/2001

REGISTROS SOBRE KOELER (2)

Thalita de Oliveira Casadei

Parte 1

A PASSAGEM DO RIO PARAÍBA DO SUL

O rio caudaloso na época das chuvas, e mais seco e portanto mais estreito, na época da estiagem, ora dificultava, ora permitia a passagem dos viajantes e tropeiros que do porto da Estrela buscavam a Paraíba, ou de Minas que demandavam aquele movimentado porto.

No começo, essa travessia era feita por meio de barcas movidas a remo por exímios remadores e também por meio de pranchas. As dificuldades apresentadas com remadores livres e um cativo, acrescidas com as canoas, como a grande que precisava de reparos, e também as duas outras que necessitavam de consertos. Por isso precisava-se de madeira o que se arrasta até 1837 e sente-se dificuldade de se consegui-la "na vizinhança da Paraíba". O ilustre historiador José Antonio Soares de Sousa, assim nos falou em trabalho publicado na Revista do IHGB:1 "a passagem fazia-se então por uma velha barca ou uma grande balsa que comportava 15 mulas carregadas", e isso baseado em Gardner e nos Relatórios de Koeler.

Essa passagem era muito freqüentada por tropas com animais carregados e, como exemplo, destacamos o mês de fevereiro de 1838 que apresentou um movimento de 3.509 animais carregados para o porto da Estrela e, para a Província de Minas, 3.272 muares. No Relatório de Koeler, de 1835 e dirigido ao Presidente da Província, há uma referência à estrada da Estrela que é a "mais freqüentada da Província de maneira que nela só transitam mais viandantes que nas outras todas do centro reunidas".

Ainda utilizando o Relatório de Koeler do ano de 1838, vemos um interessante episódio: "aconteceu que carregando o Patrão a canoa grande com os efeitos do tropeiro Cordeiro, este exigiu que a enchesse com as cargas de 3 lotes de animais. O Patrão fez-lhe observações a que o tropeiro não atendeu e o resultado foi submergir-se a canoa no meio da correnteza e perderem-se as cargas e quase a canoa, que arrebatada pelas águas, desapareceu em um momento. Aí o administrador da obra da ponte prometeu 10$000 de gratificação a 2 particulares se salvassem a canoa e a gente embarcada na barca submergida. Marcelino Idálicio Cordeiro e Prodêncio J. de Camargo, não só salvaram primeiramente 7 pessoas que tinham caído no rio e, depois, com risco de suas vidas, foram buscar a canoa encalhada nas cachoeiras e conseguiram salvá-la e maior parte das cargas".

Datado da Vila da Paraíba do Sul, em 3 de julho de 1837, Koeler enviou um ofício ao Vice-Presidente da Província, José Inácio Vaz Vieira, traçando considerações sobre o rio Paraíba do Sul e em geral todos os rios de serra acima, cheios pelas chuvas constantes. Já fora estabelecido o que ganhariam os remadores da barca e seu Patrão com forte gratificação, enquanto o rio não baixasse. O ilustre engenheiro diz que, proponho o seguinte:

"Art. I - A gratificação diária de 280rs. que vencem o Patrão e mais remadores da Barca da Paraíba do Sul, em tempo de enchentes não lhe será mais apontada nos meses de maio até outubro, inclusivamente, ainda que haja enchentes.

Art. II - Se o rio neste tempo encher e a passagem ficar mais difícil, será esta dificuldade sanada por meio de maior número de empregados do que o estado ordinário, que o Patrão da Barca poderá imediatamente alugar.

Art. III - Estes remadores extraordinários não poderão vencer maior jornal do que o dos ordinários e serão demitidos assim que se tornará desnecessário".

Nessa ocasião já se cuidava da construção da ponte que fora pedida e sugerida antes e disseram que ainda que não houvesse o motivo que se levou a pensar em ponte, pela grande freqüência desta passagem, e a ponte teria 23 palmos de abertura, a altura que for justa, sendo feita de madeira e o orçamento é de 40:000$000. Julio Frederico Koeler falou ao Presidente sobre a despesa de 200$000 mensais ou 2:400$000 anuais, além de apresentar muito pouco cômodo e daí o pensamento de se construir a ponte.

Koeler chamou os trabalhadores açorianos para ajudá-lo, mas teve preocupações pois um ou outro se embriagava e era preciso afastá-lo, e principalmente os desobedientes, e um castigo que daria certo era afastar o viciado de um canto a outro da seção, por maior ou menor tempo, mas esse castigo só alcançava os casados, porque os solteiros não o sentiam. Pede ainda Koeler que o Presidente da Província não faça opinião desfavorável ao resto dos ilhéus da Paraíba que se comportam bem e alguns otimamente. Continua Koeler "o meu fim é o único de alcançar os meios de torná-los bons quando maus e de conservá-los bons quando bons".

Os ilhéus foram engajados pelo Governo que lhe pagou a passagem e, em poucos meses, amortizaram essa dívida com exceção de dois que fugiram e de alguns, cuja dívida fora muito grande em conseqüência da grande família que traziam.

Koeler destacou o trabalho dos de ofício e, quanto aos serventes, diz que eram relaxados e desobedientes e isso "vem da facilidade que têm estes de trocar a foice ou a enxada com o balcão ou de entrar de feitor a um sítio aonde com maior comodidade sua, vivem enquanto os outros não têm recurso melhor no lugar nem mais lucrativo do que seu ofício". Foi por ele apontado o "escandaloso procedimento de um ilhéu chamado Antonio da Silva que provocou, desde o princípio, as desordens que surgiram ali. Deixou a obra e foi pedir esmolas dizendo que era para pagar a dívida para com a Província, mas embriaga-se com o que recebe. "Uma interessante observação de Koeler é quando diz "Vossa Excelência não ignora que não é difícil é recorrer aos meios judiciários em uma Vila como da Paraíba, onde formigam gente mal intencionada, rábulas e maus conselheiros".

O irmão do ilhéu desobediente é Manoel Raposo e outros que são canteiros dos mais hábeis e muitos zelosos e bem comportados, e largaram a obra por não aturarem as desordens dele. É preciso remover o desordeiro para a obra da Estrela porque lá não acham tanto quem os apóie em suas desordens.

No Relatório de 1837 aparece uma tabela demonstrativa das despesas com empregados, canteiros, ferreiros, cavouqueiros, serventes, aluguel de casas, condução de materiais, compra de carvão, mantimentos, curativos nos ilhéus doentes.

Os Relatórios do Major Koeler se sucedem e, em junho de 1838, ele diz que o "trabalho acumulou porque em maio ele foi ajudar ao Coronel Conrado Jacob Niemeyer na Comissão de levantar a planta e organizar o orçamento de uma ponte sobre o Paraíba, no porto de Sapucaia".

A ponte da Paraíba tem "uma comissão de 3 membros formada pelo Capitão Hilário Joaquim de Andrade, os Majores Antonio Barroso Pereira e João Gomes Ribeiro de Avelar que eram incumbidos de receber consignações e pagá-las". Destacou-se o Capitão Hilário que não tem poupado sacrifício algum para sustentar o crédito pecuniário da obra.

Nos fins de fevereiro de 1841 a obra da ponte foi suspensa e a guarda dos seus pertences foi confiada ao mestre pedreiro da obra, e depois ao escrivão, com gratificação de 25$000 por mês. Em janeiro e fevereiro já se tinha aprontado 24 pedras de cantaria do valor cúbico de 715 palmos e tinha sido concluído a 7ª fiada do 1º pilar e quase a 8ª e outros serviços acessórios, e a despesa foi de 2:587$100. No final do ano Koeler recebeu ordem para apresentar com urgência o orçamento da despesa a fazer com a construção total da obra. Acreditava ele que ficaria em 90:725$667.

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