Tribuna de Petrópolis:
02/09/2001

Texto básico de palestra na sessão solene da Câmara Municipal de Petrópolis de
 28/06/2001

RELEMBRANDO ALGUNS COLONOS E OS ESQUECIDOS QUARTEIRÕES

Parte 3

Paulo Roberto Martins de Oliveira

A seguir teremos o QUARTEIRÃO CASTELÂNEA, onde está situada a Casa "Museu do Colono", embora esta casa tenha sido construída após o início da Imperial Colônia pelo alemão (não colono) imigrante militar Johann Gotlieb Kaiser.

Receberam prazos de terras neste quarteirão 41 colonos; entre eles podemos relacionar alguns dos quais tenho mais notícias: Franz Hoelz, Adam Hoffmann, Peter Tesch, Christoph Hoelz, Anton Ternes, Heinrich Peter Auler, Paul Roux, Adam Bauer e Georg Zillig. Dentre eles temos uma breve descrição do colono Christoph Hoelz que era filho do também colono Johann Adam Hoelz. Christoph era o bisavô da Ilma Sra. Emygdia Hoelz Magalhães Lyrio (atual presidenta do Clube 29 de Junho, de Tradições Germânicas). Este colono recebeu o prazo de terras n.º 1615 e mais tarde adquiriu neste mesmo quarteirão o prazo n.º 1602 com frente para o Caminho Colonial (hoje Rua Saldanha Marinho). Vale ressaltar que parte destas terras, ainda pertencem aos seus descendentes (bisnetos e trinetos) o que cada dia torna-se mais raro entre as famílias dos colonizadores.

O colono Heinrich Peter Auler chegou à Petrópolis em agosto de 1845 com a esposa Marie Margareth Ulrich e 3 filhos. Eram naturais da Aldeia de Laudert -Distrito de Stº Goar - Alemanha e receberam um prazo de terras no Quarteirão Castelânea.

O colono Auler teve um ilustre descendente que foi o seu bisneto, o saudoso Dr. Guilherme Martinez Auler, que além de médico, foi o principal historiador e pesquisador da Imperial Colônia Germânica de Petrópolis. Deixou inúmeros trabalhos publicados em livros, revistas e jornais diversos.

Entre as inúmeras iniciativas de valorização e resgate histórico da nossa colonização, foi Guilherme M. Auler o principal fundador e 1º presidente do nosso Clube 29 de Junho. Fundado em 29/06/1959. Portanto no dia 29 de junho p. p. comemoravam-se os 156 anos da Imperial Colônia e os 42 anos deste prestimoso clube de tradições germânicas de Petrópolis.

A seguir teremos um breve Histórico do QUARTEIRÃO PALATINATO SUPERIOR. Este é um dos quarteirões que merece ser visitado, pois ainda guarda muito da histórica Colônia. Além de algumas construções antigas, tipos chalés com seus tradicionais telhados de zinco, lá ainda resistem algumas casas de colonos, construídas há mais de 150 anos.

No alto deste quarteirão, localizado na zona Sul de Petrópolis, predomina o Morro do Cobiçado que é o ponto culminante do centro urbano de Petrópolis. No belo manto verde do alto de suas matas, nascem dois pequenos riachos, o da Pedra Oca e o Bonito que juntam-se para formarem o antigo Córrego Seco, sendo este posteriormente, pela planta de 1846 de Koeler, denominado de Rio Palatino.

Este quarteirão foi um dos primeiros que foram demarcados e como resultado teve 29 prazos de terras designados aos colonos que tomaram assentamento dos seus terrenos a partir do mês de agosto de 1845.

A seguir teremos a descrição de alguns colonos e suas famílias que habitavam o Quarteirão Palatinato Superior. Foram eles:

O colono Heinrich Reith chegou à Petrópolis em agosto de 1845 com a esposa Christine Anspach, a filha Helene e o filho Johann Reith. Em Petrópolis nasceram mais 2 filhos - Philipp, em 1850 e Marie, em 1853. Receberam o prazo de terras n.º 2006, registro 1036 com testada para o Rio Palatino e o Caminho Colonial, mais tarde Rua Morin. Este prazo de terras hoje está com frente para o lado par da Rua Gal. Marciano Magalhães. Neste prazo estão construídos os prédios do n.º 634 ao 704, sendo que neste último número está situada a casa construída pelo colono Reith. Embora com poucas modificações, esta casa ainda serve como residência e acomoda também uma indústria de mármores.

O filho Johann Reith, que herdou do pai a profissão de segeiro, mantinha na antiga Rua dos Mineiros (atual Rua Souza Franco n.º 1) uma oficina de carpintaria e ferraria para manutenção e construção de veículos de tração animal e durante muitos anos prestou diversos serviços para a Superintendência da Imperial Fazenda de Petrópolis.

O colono Johann Peter Jacoby chegou à Petrópolis em agosto de 1845 com a esposa e 2 filhos e recebeu o prazo de terras n.º 2648. Este colono se destacou na Imperial Colônia como professor e diretor de uma escola pública de língua alemã e também como Guia Evangélico da Comunidade Luterana, durante o tempo em que os colonos aguardavam a vinda de um pastor.

O colono Martin Maul chegou à Petrópolis no mês de agosto de 1845 com a esposa e 4 filhos, fixou-se no prazo de terras n.º 2601 e construiu a sua humilde casa, que ficava localizada na entrada do quarteirão, com testada para os rios Palatino e Gusmão. Mais tarde, com inúmeras benfeitorias, transformou o seu terreno numa bela propriedade. Este colono dedicou-se durante muitos anos ao transporte de mercadorias entre o Porto da Estrela e Petrópolis. Faleceu em 1868, deixando a viúva com 8 filhos. Este colono teve um ilustre descendente que foi o poeta e escritor Carlos Maul com mais de uma centena de livros publicados.

Além das famílias mencionadas, temos notícias de outras que habitavam este quarteirão e saíram de Petrópolis. Foram eles: o colono Johann Korndörfer que foi para o Rio Grande do Sul, Philipp Dietz que foi com parte da família, foi para Minas Gerais e Johann Surerus que com parte da família foi para a Colônia D. Pedro II em Juiz de Fora - MG.

A seguir teremos alguns dados sobre o QUARTEIRÃO PALATINATO INFERIOR. Receberam prazos de terras neste quarteirão 16 colonos e entre eles podemos relacionar alguns dos quais tenho mais notícias: Jacob Kappler, Georg Heinrich Raeder, Georg Christian Webler, Conrad Klippel e Johann Kraus.

Com um breve histórico, darei como exemplo apenas um dos moradores deste quarteirão que foi o colono Georg Christian Webler que, com a esposa e 8 filhos, chegou à Petrópolis em julho de 1845 e recebeu o prazo de terras n.º 2213. Este colono destacou-se pelo bom aproveitamento de suas terras, progredindo na agricultura. Com bons resultados, plantava centeio, aveia, batata, hortaliças, flores e árvores frutíferas e entre estas predominavam os pessegueiros e as macieiras.

Um dos filhos do colono, o Killian Webler, também tornou-se conhecido na Colônia pela sua habilidade e bons conhecimentos de vidraçaria, pois foi um dos bons cobridores em vidros dos telhados das casas da Imperial Colônia.

A seguir teremos uma breve descrição da VILA TERESA e alguns dados dos primeiros colonos que a habitavam.

Vila "Teresa" surgiu da homenagem à Imperatriz do Brasil e vale ressaltar que este foi um dos nomes monárquicos, que passou despercebido no advento da república em 1889, quando nesta época, trocaram todos os nomes de logradouros que representavam a família Imperial.

Era pela Vila Teresa o caminho / estrada principal de entrada e acesso para o centro de Petrópolis.

Receberam prazos de terras nesta Vila 18 colonos germânicos e entre eles o colono Philipp Faulhaber, carpinteiro que chegou à Petrópolis em 1846 com a esposa Barbara Weidmann, 5 filhos - Philipp, Marie, Heinrich, Charlotte e Johann, e a sogra - a viúva Christine Weidmann. Receberam o prazo de terras n.º 2445, com testada para a Estrada Normal da Estrela (hoje Rua Teresa). Neste terreno, além de sua residência, construiu também a sua oficina e a fábrica de carroças.

Após o falecimento do colono Faulhaber ocorrido em 03/03/1857, os seus filhos seguiram com os negócios do pai até por volta do início do século XX.

Na Vila Teresa, houve outros colonos e descendentes que também deixaram boas lembranças. Como os das famílias de Jacob Braun, Johann Hang, Peter Klein, Johann Peter Karl e Daniel Theissen (esse foi um dos ferreiros que trabalhou nas obras de construção do Imperial Palácio de Petrópolis).

Portanto, chegamos à principal Vila da planta de Koeler, ou seja à VILA IMPERIAL, sendo esta denominação por ser a área central da Imperial Fazenda de Petrópolis.

Esta Vila é a que tem o maior numero de prazos de terras em relação aos quarteirões, justamente por serem prazos de 1ª classe e com menor número de braças quadradas (ou seja menor metragem). Um grande número de prazos desta Vila, por época da demarcação, foram reservados para atender à família Imperial, autoridades da corte, bens públicos e para alguns colonos que não eram agricultores e que tinham profissões que julgavam industriais e comerciais. Para estes colonos foram designados aproximadamente 40 prazos, distribuídos pelas Ruas: do Imperador, adjacentes e periféricas da Vila para abrirem os seus próprios negócios como por exemplo: carpintarias, marcenarias, funilarias, serralherias, fábricas de seges e outros ramos.

Além dos colonos contratados pelo Governo da Província do Rio de Janeiro, houve outros do povo germânico que chegaram espontaneamente ao longo do ano de 1846 e a maioria deles integrou-se na Colônia. Estes tinham melhores condições de vida, pois vieram com seus próprios recursos, além de fixarem-se nos demais quarteirões. Também adquiriram terras na Vila Imperial para melhor atender aos seus negócios - pois eram ourives, relojoeiros, hoteleiros, artistas e inúmeras outras atividades e profissões.

Entre os vários colonos desta Vila, podemos citar o colono Joachim Glassow que com a esposa e 3 filhas chegou à Petrópolis em agosto de 1845 e recebeu o prazo n.º 220, com testada para a primitiva Rua de Bourbon n.º 19 (atual Rua Dr. Nelson de Sá Earp).

O colono Glassow, entre várias habilidades que tinha, era carpinteiro e foi um dos colonos que trabalhou nas obras da construção do Imperial Palácio desde 1845 até 1862. Na sua propriedade este criativo colono mantinha, além de sua carpintaria, uma pequena fábrica de máquinas para engomar roupa lisa. O seu terreno era bem aproveitado e bem construído, pois além de sua casa, construiu mais 4 para as filhas que iam casando.

Vale mencionar que do casal nasceram mais duas filhas em Petrópolis e, como não teve filho homem, o nome Glassow desapareceu.

Além do colono Glassow com descrição dos seus valores profissionais em atividades na Vila Imperial, podemos citar outros colonos que trabalharam nas obras da construção do Imperial Palácio e que também dedicaram-se ao comércio e educação no centro da Vila: Peter Wagner foi o ferrador oficial dos cavalos que atendiam ao palácio, Jacob Nicolai (pai e filho), Theodor Eppinghaus e Heinrich Ludwig Jaeger eram marceneiros e este último foi quem confeccionou algumas janelas e portas, e construiu a imponente escada de madeira que dá acesso ao 2º pavimento do Imperial Palácio e que até hoje é muito apreciada, Martin Dupont foi um dos primeiros professores de uma das 6 primeiras escolas, a que funcionava numa das salas do barracão de obras públicas e Nicolaus Engelmann que foi o primeiro com o ramo de padaria na Rua do Imperador.

Para finalizar, rendo as minhas homenagens a todos os descendentes dos nossos colonizadores germânicos".

DADOS BIBLIOGRÁFICOS

- SCHIERHOLT, José Alfredo. Lajeado I - Povoamento, Colonização e História Política de Lajeado - RS - 1ª Edição, 1992.

- AULER, Guilherme Martinez - Cadernos do Córrego Seco - Petrópolis - RJ.

- RHEINGANTZ, Carlos G. - "Quem Povoou Petrópolis" - várias publicações na Tribuna de Petrópolis entre os anos de 1981 e 1983.

PESQUISAS ESPECÍFICAS

- Arquivo da Cia. Imobiliária de Petrópolis (títulos de aforamentos, quarteirões e vilas) - por gentileza de D. Pedro de Orleans e Bragança.

- Arquivo Grão Pará (Museu Imperial) - (relatórios da Imperial Colônia) - por gentileza de D. Pedro Carlos de Orleans e Bragança.

- Arquivo do saudoso Historiador e Pesquisador Gustavo Ernesto Bauer - por gentileza de sua filha a Sra. Vera Eliane Bauer Castor.

- Inúmeras pesquisas feitas pelo autor desta matéria nos antigos jornais de Petrópolis, arquivos particulares dos descendentes dos colonos e nos arquivos eclesiásticos de Petrópolis: Cúria Diocesana, Igreja Matriz de São Pedro de Alcântara e Igreja Luterana.

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