Tribuna de Petrópolis:
26/08/2001

Texto básico de palestra na sessão solene da Câmara Municipal de Petrópolis de
 28/06/2001


RELEMBRANDO ALGUNS COLONOS E OS ESQUECIDOS QUARTEIRÕES

Parte 2

Paulo Roberto Martins de Oliveira

A seguir, teremos o QUARTEIRÃO INGELHEIM, cujo nome complicado para muitos, tem uma bela pronúncia germânica. Foi o único com nome germânico precedido por quarteirão que não caiu em desuso popular.

Receberam prazos de terras e foram moradores deste quarteirão 42 colonos. Entre eles podemos relacionar alguns dos quais tenho mais notícias: Andreas Justen, Adams Stützel, Jacob Mundstein, Mathias Weiand, Jacob Wendling e Nicolau Kapps.

Com um breve histórico, darei como exemplo apenas um dos moradores deste quarteirão que foi o colono Nicolau Kapps - com a esposa Catharine Gorgen e 6 filhos - naturais de Grewderich - Prússia - Koblenz - Alemanha, chegaram à Petrópolis em 1845 e receberam o prazo de terras n.º 1027. Este prazo de terras a partir de 1949 foi desmembrado em muitas partes e atualmente pertence a diversos proprietários sem grau de parentesco com a família Kapps.

Do colono Kapps, temos a ressaltar dois ilustres descendentes. Um é o seu trineto Jorge Antônio de Sá Kapps (cujo nome artístico é Jorge Kaiser) - famoso musicista, "Showman" internacional, que desde 1964 atua fora do Brasil e atualmente reside na capital do México. Este famoso acordionista já produziu vários discos e CDs.

Vale mencionar que na sua última visita aos parentes e amigos em Petrópolis, tive o privilégio de, em 14/04/2000, recebe-lo em minha casa. Nesta oportunidade, reunimos alguns amigos descendentes de vários colonos e Jorge "Kaiser", com o meu velho acordeon, executou belíssimas melodias da terra de "Goethe" e todos felizes relembramos os bons tempos de Petrópolis.

Outro ilustre descendente do colono Nicolau Kapps é o seu tetraneto Dr. Sérgio Carvalho - Procurador de Justiça, Presidente do Movimento Sociedade Viva e há 5 anos mantém na Rádio Imperial de Petrópolis o programa "Espaço Cidadão". Além de ter uma coluna semanal na Tribuna de Petrópolis com o título "Uma Questão de Justiça".

Subindo a Rua Bingen, na altura da conhecida Curva do Jóia, alcança-se o QUARTEIRÃO BINGEN, local tradicional da Imperial Colônia, onde muitos dos moradores são descendentes dos nossos colonizadores germânicos.

Receberam prazos de terras e habitaram este quarteirão 37 colonos, entre eles: Andreas Schweickardt, Johann Straub, Johann Kreischer, Jacob Beck, Bernard Pitzer e Paul Stumpf. Dentre estes, destacaremos uma descendente do colono Stumpf. Trata-se da Ilma. Sra. Clara Stumpf Pitzer, bisneta do colono Paul Stumpf e de Eleonore Charlotte Bauer.

Esta senhora é uma historiadora nata (auto-didata) que aos 90 anos de idade escreve para o jornal da comunidade, o Via Bingen, relatando fatos inéditos que compõem parte da história deste e de outros quarteirões de Petrópolis. Tia Clara, como carinhosamente gosta de ser chamada pelos seus inúmeros admiradores, guarda em sua excelente memória dados específicos como as datas, nomes e detalhes dos acontecimentos, dando um brilho especial às suas narrativas históricas.

No final do Quarteirão Bingen, pela atual Rua Duarte da Silveira, acessa-se o QUARTEIRÃO WOERSTADT, que embora já houvesse alguns prazos de terras distribuídos aos colonos pelo Major Koeler em 1846, esse quarteirão somente aparece em 1854 na planta do Engenheiro Otto Reimarus. Entre os colonos que habitavam este quarteirão a partir de 1846, temos: Christian Lahr, Georg Sixel, Jacob Reuther, Karl Kopp e Wilhelm Zimmler. Dentre estes podemos destacar os colonos Kopp e Lahr.

O colono Karl Kopp chegou à Petrópolis em 1846 com a esposa e uma filha e recebeu seu primitivo prazo de terras no Quarteirão Woerstadt. Este colono foi considerado pela Diretoria da Colônia como operoso e industrioso, justamente pelo bom desenvolvimento e aproveitamento de sua colônia de terras. Em 13/03/1859, foi contemplado com mais um prazo de terras pela Superintendência da Imperial Fazenda de Petrópolis - por ordem do Mordomo da Casa Imperial, o Ilmo. Sr. Paulo Barbosa da Silva, e como prêmio foi isento dos pagamentos de qualquer tributo como jóias e foros - por tempo não inferior a 10 anos ou enquanto a propriedade estivesse em suas mãos ou de seus descendentes.

Ainda sobre os moradores do Quarteirão Woerstadt, temos uma nota no jornal "O Paraíba" - Quinta-feira, 11/02/1858 - dando conta que "o colono Christian Lahr dirigiu-se por intermédio do Dr. Thouzet ao ministro francês, que atualmente reside nesta cidade, afim de obter a medalha de Santa Helena que ultimamente o Imperador Napoleão III mandou distribuir aos veteranos do velho Exército Imperial.

Este colono conta hoje com 72 anos de idade. Entrou no exército em 1806 e foi mutilado em 1809 num ataque perto de Resensburg no qual recebeu não menos de vinte e seis ferimentos.

O governo de Darmstadt de onde é natural, lhe concedeu a pequena pensão anual de 182 francos ou 60$000 (sessenta mil réis) mais ou menos do nosso dinheiro". Vale ressaltar que este colono faleceu 6 meses após em 01/08/1858.

A seguir teremos o QUARTEIRÃO RENÂNIA INFERIOR com algumas lembranças históricas acontecidas por época da Imperial Colônia. Receberam terras neste quarteirão 17 colonos, entre eles: Johann Christ, Michael Sixel, Peter Dahlen, Mathias e Johann Goettnnauer, Nicolaus Echternacht e Johann Adams Hoelz. Dentre estes podemos destacar alguns colonos, cujas descrições teremos a seguir:

O colono Michael Sixel, que chegou à Petrópolis em agosto de 1845 com a esposa e 6 filhos e instalou-se no prazo de terras n.º 1403, progrediu como segeiro e alguns dos seus filhos e descendentes deram continuidade à profissão do colono e durante alguns anos, até meados do século XX, foram os principais fabricantes de seges, carruagens e outros veículos muares em Petrópolis.

O colono Mathias Goettnnauer chegou à Petrópolis em setembro de 1845 com a esposa e 3 filhos e instalou-se no prazo de terras n.º 1414. Em 30/11/1851 nasceu a sua filha Maria Eva Goettnnauer que mais tarde destacou-se como a primeira dentista em Petrópolis.

Embora não sendo de origem deste Quarteirão Renânia Inferior, vale mencionar o nome de João Christovão Gabrich (neto do colono Georg Gabrich), pois este em 1930, comprou um terreno neste quarteirão, próximo ao local conhecido como Duas Pontes na Rua Gonçalves Dias n.º 34 e aí construiu uma casa para morar com sua família. Porém neste endereço não permaneceu por muito tempo e em 1933 vendeu o prédio. Mais tarde o 3º proprietário desta casa foi o ilustre escritor Stefan Zweig.

Teremos a seguir alguns dados relativos ao QUARTEIRÃO RENÂNIA CENTRAL. Receberam terras neste quarteirão 26 colonos, entre eles destacou-se o colono Karl Kober que chegou à Petrópolis em 1845 com a esposa e 1 filho e recebeu o prazo de terras n.º 1806. Este colono era prático em confecção de tabuinhas para revestimento externo das paredes e cobertura das casas. Segundo consta no livro n.º 4 (Ofícios da Mordomia), este colono prestou serviços para as obras de construção das dependências do Imperial Palácio de Petrópolis.

Houve outros colonos neste Quarteirão Renânia Central que também destacaram-se na Colônia. Foram eles: Johann Peter e Lourenço Hammes, Peter Theodor Forster, Jacob Schmitz e Philipp Castor.

Vale lembrar que o nome Renânia caiu em desuso após 1939 com o término da linha de bondes.

A seguir teremos o QUARTEIRÃO SIMÉRIA, cujo nome em alemão lê-se Simmern. Esta foi uma das homenagens de Koeler a muitos do povo germânico que vieram desta Aldeia localizada na parte central da Região do Hunsrück - Alemanha para este quarteirão na Imperial Colônia de Petrópolis.

Receberam prazos de terras neste quarteirão Siméria 20 colonos. Porém, dentre eles, farei apenas a descrição do colono Johann Adam Beuren e de sua família, simplesmente para servir como exemplo a muitas famílias que trocaram Petrópolis por outras colônias. Geralmente, colonos saíam de Petrópolis para conseguirem melhores condições de vida em outros lugares. Este colono agricultor chegou em Petrópolis entre outubro de 1845 e janeiro de 1846 com a esposa Elisabeth Moritz e o filho Joseph Beuren com 2 anos de idade. Eram naturais de Burgen - Mosel - Alemanha.

Os Beuren, receberam o prazo de terras n.º 2003 com testada para o Caminho Colonial (hoje Rua Olavo Bilac), e mais tarde adquiriram o prazo de terras n.º 240 na Vila Imperial. Nasceram em Petrópolis mais 3 filhos: os gêmeos Augusto e Carlota em 1848 e Martin Beuren em 11/05/1852.

Corria o ano de 1853, época em que acontecia na Capital da Província do Rio de Janeiro a febre amarela. Alguns colonos de Petrópolis também contraíram a doença e algumas famílias perderam os seus entes queridos. Foi justamente o que aconteceu com o colono Johann Adam Beuren que faleceu em 14/05/1853 com apenas 37 anos de idade, deixando viúva a colona Elisabeth e seus 4 filhos menores, sendo José o mais velho com 10 anos e Martin o mais novo com 1 ano de idade. Nesta época ainda moravam no seu prazo de terras no Quarteirão Siméria.

A viúva colona Elisabeth Moritz com suas poucas economias e mais o que resultou da venda do prazo n.º 240 da Vila Imperial (vendido em 01/03/1854) e após assinar o título de aforamento deste prazo em 01/09/1854 (última data de que se tem conhecimento da presença da colona e sua família em Petrópolis) foi, junto com os seus filhos e mais 7 famílias de colonos, embora da Imperial Colônia de Petrópolis seguindo para o Rio Grande do Sul, onde esperavam encontrar melhores meios para sobreviverem como agricultores.

Primeiramente foram para a Estância Mariante (na época era uma colônia recente). Porém esta localidade devido à proximidade com o Rio Taquari, era constantemente inundada e mais uma vez a corajosa colona Elisabeth, seus filhos e outras famílias transferiram-se para a Colônia de São José dos Conventos (Colônia fundada em 20/03/1855). Atualmente constitui esta Colônia as cidades de Estrela e Lajeado - RS.

No cemitério da cidade de Lajeado - RS, encontra-se a lápide de Elisabeth Moritz Beuren - nascida em 18/08/1819 e falecida aos 85 anos em 08/04/1907..

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