Tribuna de Petrópolis: 19/08/2001

Texto básico de palestra na sessão solene da Câmara Municipal de Petrópolis de
 28/06/2001

RELEMBRANDO ALGUNS COLONOS E OS ESQUECIDOS QUARTEIRÕES

Parte 1

Paulo Roberto Martins de Oliveira

Estes estudos e ensaios que ora apresento, fizeram parte do tema proferido pelo autor em 28 de junho deste ano no salão nobre da Câmara Municipal de Petrópolis, representando o Clube 29 de Junho nas comemorações dos 156 anos da chegada dos colonos germânicos à Petrópolis, em 29 de junho de 1845.

"Convidado pelo Clube 29 de Junho, de Tradições Germânicas, tenho o prazer de estar presente e participar desta magnânima solenidade, que esta casa oferece todos os anos na época das comemorações do dia 29 de junho, data da chegada à Petrópolis dos primeiros colonos germânicos, ao povo petropolitano.

Neste momento poderemos lembrar parte da história da nossa colonização, falar sobre os quarteirões da Imperial Colônia e homenagear os colonizadores, trazendo a todos, informações, tradições e lembranças do nosso glorioso e belo passado histórico.

Este momento, geralmente, torna-se oportuno para reiterarmos e resgatarmos o que muitos em várias épocas tentaram. Porém a falta de interesse pelas causas nobres de Petrópolis, permitiu a consumação de partes da nossa história.

Justamente relembrando alguns colonos em seus prazos de terras, estaremos também lembrando os esquecidos "Quarteirões".

Quarteirões que praticamente não ouvimos mais os seus nomes serem pronunciados, como também as duas vilas que nunca deixaram de existir, pois todos estão presentes em qualquer negociação imobiliária no 1º e parte do 2º Distrito de Petrópolis.

Vale sempre lembrar que pela planta de 1846 do Major Engenheiro Júlio Frederico Koeler, Petrópolis foi dividida em 11 quarteirões e 2 vilas: Renânia Central e Inferior, Siméria, Castelânea, Palatinato Inferior e Superior, Nassau, Westfália, Mosela, Ingelheim, Bingen e as Vilas Imperial e Teresa.

Os quarteirões e as vilas foram subdivididos em prazos de terras e classificados em 4 classes: 1ª classe constituíam os terrenos destinados à povoação próximos ao Imperial Palácio, os de 2ª classe eram os terrenos próximos à povoação, os de 3ª classe englobavam os terrenos colaterais à calçada que parte existia na Vila Teresa (Alto da Serra) e os de 4ª classe constituíam toda a parte restante da Imperial Fazenda e foram designados para a maioria dos colonos.

A alguns anos a maioria dos quarteirões e vilas caíram no esquecimento, não sendo mais usados popularmente, tendo como causa principal o poder público municipal, dando a entender nomes de novos logradouros, sem indicar a sua localização correta, gerando a grande falta de reconhecimento dos nossos valores históricos.

Para que possamos reparar tantos erros e termos a reconstituição dos nomes dos esquecidos quarteirões e vilas, basta que seja posta em prática a lei 5699, publicada no final do ano passado no Diário Oficial do Município que estabelece a retomada do uso da denominação dos "Quarteirões e Vilas" da 1ª divisão territorial de Petrópolis. Esta vitória foi conseguida depois de um documento do Instituto Histórico de Petrópolis, entregue nesta casa em gestão anterior - por época das comemorações do dia 29 de junho do ano passado.

Antigamente, no início e até meados do século XX, a principal rua de cada quarteirão era denominada pelo seu próprio nome. Ainda mantém-se, por exemplo, as Ruas Bingen, Mosela e Ingelheim. Porém, outras perderam o nome original como a Rua Nassau que passou a denominar-se Piabanha, resultando no esquecimento do Quarteirão Nassau. O mesmo aconteceu com a Rua Westfália que passou para Av. Barão do Rio Branco que, atualmente, é referencia para a localização de outros logradouros nela iniciados ou adjacentes. O certo seria referir-se ao verdadeiro nome que é "Quarteirão Westfália".

Seguem-se outros esquecidos quarteirões: Palatinato Superior e não Morin, Palatinato Inferior e não Dr. Sá Earp, o Woerstadt por Duarte da Silveira, Renânia Inferior por Washington Luiz, Renânia Central por Cel. Veiga, Vila Teresa por Alto da Serra e Vila Imperial por Centro Histórico.

Os erros citados vêm sendo praticados desde o final do século XIX. Porém, além dos quarteirões e vilas, houve também ao longo dos anos a troca dos nomes de muitas ruas e rios. Por exemplo, o rio que nasce no Quarteirão Palatinato Superior (outrora conhecido como Córrego Seco) e que também banha o Quarteirão Palatinato Inferior e no centro da Vila Imperial une-se ao Rio Quitandinha, está na planta de 1846 e Koeler o denominou de "Rio Palatino" e não de Palatinato como a Empresa "Águas do Imperador" resolveu batizá-lo.

Outros erros cometidos são os relacionados às praças. Algumas realmente ficaram apenas nos projetos. Outras tiveram seus nomes trocados e outras simplesmente deixaram de existir, surgindo até edificações - como é o caso da Pça. Ingelheim no Quarteirão do mesmo nome ( localizada entre as Ruas Bingen e Duque de Caxias). Neste local, há muitos anos, havia as oficinas de carpintaria e ferragens, além de uma cocheira onde ficavam os muares e as carroças que eram usadas para a limpeza urbana e neste mesmo local a alguns anos foi construído o almoxarifado da Prefeitura Municipal de Petrópolis.

Os assuntos citados, embora sejam importantíssimos para tentarmos devolver à Petrópolis a sua verdadeira identidade urbanística, requerem muito mais tempo do que temos para o momento. Porém, com certeza e melhor estudados, voltaremos a mencioná-los em outras oportunidades.

A seguir teremos uma resenha de dados e fatos, relacionados a algumas profissões, atividades sócio-econômicas, além de outras notícias como a origem e o destino de algumas famílias de colonos, distribuídas pelos quarteirões e vilas, cujos alguns descendentes ainda habitam parte das terras dos seus ancestrais.

Iniciaremos pelo QUARTEIRÃO WESTFÁLIA

Este "Quarteirão", dividido pelo principal rio de Petrópolis, o "Piabanha", seguia pela sua margem esquerda o Caminho Colonial. Mais tarde foi denominado Rua Westfália, sendo que a parte inicial foi batizada com o nome "Estrada União e Indústria". Porém com data mais recente passou a denominar-se Av. Barão do Rio Branco.

26 colonos germânicos receberam terras neste quarteirão, entre eles: Theodor Nienhaus, Valentin Scheid, Johann Zacher e Peter Maiworm. Dentre estes temos que destacar o colono Peter Maiworm.

Este colono chegou à Petrópolis em 29/06/1845 com a esposa e 5 filhos, sendo que o filho mais velho, Johann, com a esposa e 4 filhos, chegaram ao Brasil em 1855 e em Petrópolis se estabeleceram nas terras do pai, o colono Maiworm.

O colono Peter Maiworm, além de agricultor, era enfermeiro diplomado e também conhecido na Colônia como veterinário. Foi um dos colonos mais bem admirados pelo Imperador D. Pedro II, principalmente pelos seus serviços solidários a todo e qualquer cidadão que o procurava para atendimentos de cura, o que geralmente fazia, atendendo-os gratuitamente com as ervas que plantava em suas terras.

Várias vezes este colono deixava os seus afazeres para atender as pessoas que não podiam se locomover e ia até às suas casas em outros quarteirões. Por exemplo, por algum tempo atendeu a um funcionário da Casa Imperial.

O Imperador reconhecendo a sua caridade, lhe ofereceu como recompensa escolher entre dois terrenos, um onde hoje é a Casa D'Angelo na Rua do Imperador e o outro no alto do Quarteirão Brasileiro. Escolheu o último e em parte deste o seu 5º filho, Franz Maiworm, e sua esposa Marie Noel, construiram em 1869 a sua casa na parte montanhosa deste "Quarteirão", e até hoje a casa ainda existe.

A seguir teremos o QUARTEIRÃO NASSAU que numa das vias públicas, limita-se com o Quarteirão Westfália na confluência dos Rios Piabanha e Quitandinha. Neste local temos a Pça. de Koblenz, onde geralmente os colonos se reuniam.

48 colonos germânicos receberam terras neste quarteirão, entre eles: 4 irmãos Monken, Philipp e Friedrich Erbes, Friedrich Kuhn e Martin Deister. Dentre estes podemos destacar os colonos Monken e Kuhn.

A família Monken pertencia ao 1º grupo de colonos que chegaram em 29/06/1845. Eram 4 irmãos: Wilhelm Joseph, Joseph, Jacob e Heinrich Joseph. Estabeleceram-se neste quarteirão, ocuparam um lado e outro do Rio Piabanha os prazos de terras, desde a ponte da Rua Montecaseros até quase a curva das "Duchas" (Centro Hidroterápico).

Heinrich Joseph Monken, pelas suas aptidões, ocupou o cargo de professor de uma das escolas criadas pela Diretoria da Colônia. Teve aos seus cuidados 77 alunos, segundo consta no Relatório de 1848 da Imperial Colônia.

Quanto ao colono Friedrich Kuhn, este chegou à Petrópolis em 29/06/1845. Viúvo e acompanhado de 4 filhos se estabeleceu no Quarteirão Nassau. Dos 4 filhos, havia duas filhas das quais não temos os nomes. Sabe-se apenas que uma foi para a corte (RJ) e a outra saiu do país e foi para a Austrália.

Em relação aos filhos do colono - Johann seguiu para o Rio Grande do Sul e Georg permaneceu em Petrópolis.

Após a morte do colono Friedrich Kuhn, em 1852 e com apenas 15 anos de idade, o filho Georg Heinrich Kuhn, que ficou sozinho na Colônia, teve de arcar com o trabalho para o seu próprio sustento, apesar de ter iniciado o labor desde os 13 anos de idade no Hospital da Colônia, na época instalado nos anexos do barracão das obras públicas, no local onde hoje está o prédio do Fórum.

Seguindo a carreira de prático enfermeiro na Colônia, Georg também trabalhou a partir de 1876 no Hospital Santa Teresa e neste estabelecimento foi considerado como farmacêutico e dentista até aposentar-se. Faleceu aos 60 anos de idade em 14/04/1898.

Vale ressaltar que em 1957 quando houve a realização da 1ª grande exposição dos colonos de Petrópolis, os descendentes de Georg exibiram as sete ferramentas que usava como dentista.

A seguir teremos o QUARTEIRÃO MOSELA, sendo um dos quarteirões que ainda mantêm um número expressivo de descendentes dos colonizadores. 46 colonos receberam prazos de terras neste quarteirão, entre eles: Christian Hees, Peter Kronenberger, Peter Lorang, Georg Magnus Kling e Johann Noel. Dentre estes destacaremos o colono Johann Noel. Este colono chegou à Petrópolis em agosto de 1845 com a esposa e 6 filhos - eram naturais da Aldeia de Neuhüten - Bispado de Trier - Região do Hunsrück - Alemanha.

Em Petrópolis tiveram mais uma filha, nascida em 1847 na sua humilde casa, no prazo de terras n.º 807 que situava-se onde hoje estão os prédios de n.º 455, 511, 555 e 557 da Rua Mosela.

A princípio o colono e seus filhos maiores foram trabalhar nas obras de construção do Imperial Palácio e também nas obras públicas da Colônia. Mais tarde com a escassez da obras, o colono Noel lançou mão de sua antiga profissão de carvoeiro e foi extrair madeiras no seu próprio terreno e nas matas vizinhas para com este trabalho melhorar a subsistência da família, pois a Colônia passava por uma época muito difícil.

O 4º filho do colono, Nicolaus Noel, seguiu a profissão do pai e por volta de 1873/74 mantinha uma grande estância de lenha e carvão. Vale mencionar que por época da construção da "Capela dos Alemães" (hoje Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus), foi Nicolaus quem, em suas pranchas e carroções, transportou solidariamente grande parte das pedras extraídas do Quarteirão Mosela para a dita construção.

Este Quarteirão Mosela já foi protagonista de muitas histórias da época da Colônia. Consta num artigo do jornal "O Paraíba" de 1857 que, no princípio da Imperial Colônia, os africanos que habitavam os quilombos da Fazenda Inglesa (próximo deste quarteirão), volta e meia, visitavam ilicitamente, geralmente à noite, as casas dos colonos para saciarem a fome e também para levarem os apreciáveis produtos dos alemães como lingüiças, carnes suínas e outras iguarias da cozinha germânica.

topo da página

índice de trabalhos

índice de autores