digitação original: 11/01/1996

texto básico de palestra no IHP a 11/12/1995

Relembrando amigos... e fatos

Paulo Machado da Costa e Silva

Difícil a tarefa que aceitei de, em muito breve espaço e tempo, fazer o elogio de três pessoas tão ilustres, quanto foram, o Dr. Jorge Bouças, o Dr. Arthur de Sá Earp Netto e o nosso inesquecível Lourenço Luiz Lacombe.

Jorge Bouças foi meu sucessor na presidência deste Instituto Histórico. Lembro-me das agradáveis reuniões que, em continuação, ele presidia em torno da grande mesa, na sala do Arquivo do Museu Imperial, nossa acolhedora sede, por muitos e muitos anos. Eram reuniões da Diretoria e, ao mesmo tempo, reuniões abertas à participação dos demais sócios, que podiam e faziam provocar debate em torno dos mais variados temas, ligados à cultura histórica em torno de Petrópolis. Deliciosas tardes de sábado, que, muitas vezes, no verão, se prolongavam ao sabor de um chopps, no D’ Angelo.

A presidência de Jorge Bouças teve o mérito de manter acesa a chama do entusiasmo pelo estudo das coisas de Petrópolis. Tinham a presença brilhante personalidades como Américo Jacobina Lacombe, Arthur Cezar Ferreira Reis, Pedro Calmon, Gustavo Ernesto Bauer, Luiz de  Oliveira, Lourenço Luiz Lacombe, Carlos Rheingantz, Arthur de Sá Earp Netto e muitos outros com sugestões, propostas, pequenos ensaios, mas, sobretudo, com suas reflexões e achegas, sempre enriquiecedoras. Pena é que, de tudo isso, não haja registros para melhor aproveitamentos pósteros.

A passagem de Jorge Bouças pelo Instituto Histórico de Petrópolis deixou, assim, as suas marcas e, em sinal de respeito e gratidão, ele merece ser lembrado nesta oportunidade.

Arthur de Sá Earp Netto era para a maioria, simplesmente, o Dr. Arthur. Como costumava dizer, tinha um bom arquivo sobre Petrópolis e sobre algumas de suas personalidades, familiares seus. Acreditamos que tal arquivo não se dispersou e esteja guardado em boas mãos, no interesse de nossa cultura histórica. para mim, se o Dr. Arthur não produziu obra de vulto sobre a história local, ele era, indubitavelmente, um debatedor  de boa memória e de amplos conhecimentos, que enriquecia qualquer debate com a variedade e a minudência de suas recordações. Aliás, ele foi personagem importante, em determinado momento da história de Petrópolis, porque mais do que escrever a história da cidade, ele fez essa história como protagonista dela.

Homem de convicções profundas e permanentes, cônscio das responsabilidades, que lhe adviam de suas crenças e de uma ascendência de glórias, o Dr. Arthur foi sempre uma personalidade íntegra e preocupada com a preservação dos grandes valores morais e com o bem comum de sua Comunidade e da Pátria.

A Universidade Católica de Petrópolis, florão das Faculdades Católicas Petropolitanas e a Fundação Otacílio Gualberto com sua Faculdade de Medicina de Petrópolis são o reflexo de uma personalidade forte e decidida, capaz da maior pertinácia e dos maiores sacrifícios para realizar os ideais de que estava convicto. Sua efetivação dependeu, em grande parte, de seu trabalho e da sua capacidade de realização.

Arthur de Sá Earp Netto, como todo realizador, foi um homem polêmico. Ao mesmo tempo, era respeitado pela inteireza de suas atitudes e de sua conduta. Viveu cônscio da verdade de suas crenças, não obstante a fraqueza e as falhas de seus correligionários. Foi homem de uma só palavra, de “sim”, “sim”; “não”, “não”. As decepções, que teve, não o esmoreceram. Ao contrário, acenderam-lhe a vontade de ser melhor, ainda que o coração sangrasse, porque era homem de delicada sensibilidade, não obstante sua aparência enérgica e resoluta.

Foi um grande coração, um grande homem, a quem Petrópolis deve reconhecimento público, que já tarda em se concretizar.

Lourenço Luiz Lacombe foi tipicamente um homem voltado para as coisas do espírito, um intelectual e um homem de vida social, sobretudo, em sua juventude, quando praticou também o colunismo social.

O trabalho no Museu Imperial com Alcindo Sodré e os Diretores, que lhe sucederam, tornaram-no um apaixonado pela história do 2º Reinado, em particular, de sua nobreza e, por via de conseqüência, um estudioso da história de Petrópolis. O Museu era seu habitat. Nele vivia como peixe em seu elemento aquático. Ele respirava e transpirava a restauração viva da época imperial. Para ele, o Museu não era apenas acervo, porque isso seria uma preciosidade e uma inutilidade, ao mesmo tempo. Era o que expressava em muitas de nossas fraternais conversas, em seu gabinete de trabalho de Diretor da Casa, que para ele era como um filho e um prolongamento do seu lar.

Mas, não é sobre o Diretor do Museu Imperial, que eu devo falar. Aliás, para alegria sua o Museu continua muito bem dirigido por sua sucessora, a museóloga Maria de Lourdes Parreiras Horta, a Lurdinha. Ela tem tornado o Museu cada vez mais aberto e integrado na vida da Comunidade petropolitana.

No entanto, devo falar de Lourenço Lacombe como  homem do Instituto Histórico. Lembro-me dos primeiros contactos com o Instituto, quando conheci meu fraternal amigo. As reuniões eram celebradas no auditório do Grupo Escolar D. Pedro II, presididas por Henrique Carneiro Leão Teixeira Filho, nos idos de 1938/39, quando vários sócios esboçavam uma reação à perpetuidade de Carneiro Leão na presidência do Instituto, entre eles, o jovem e impetuoso Lourenço Lacombe. Seis anos depois, definitivamente de volta a Petrópolis, passei a freqüentar as reuniões do Instituto, realizadas, já então, onde hoje está a Sala de Música do Museu. Memoráveis reuniões sobretudo no verão, quando era grande a presença de consócios, em boa parte, também membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Palestras brilhantes e esclarecedoras sobre muitos pontos da historiografia petropolitana, ainda incipiente. Pena que os registros dessa época sejam praticamente inexistentes. Mas, foi uma época brilhante.

Depois que entrei para o Instituto pela mão de Alcindo Sodré, em 1952, pude apreciar melhor o trabalho por Lourenço Lacombe em favor do Instituto Histórico de Petrópolis, tornando-me um dos seus mais íntimos e constantes colaboradores. Durante seus seis anos na Presidência do Instituto, Lourenço realizou dois eventos de magna importância: O I Congresso de História Fluminense e o curso sobre História de Petrópolis. Ambos tiveram extraordinária repercussão e deixaram assinalada sua gestão a frente do Instituto. Porém ele fez muito mais. Colocou toda relevância de seu cargo, como Diretor do Museu Imperial, a favor do Instituto Histórico, dando-lhe, além do apoio pessoal incondicional, o apoio técnico e logístico da destacada Instituição da República. Ao Instituto dedicava uma afeição muito especial e quando as coisas, por vezes, não iam bem, preocupava-se e com os amigos se punha em busca de soluções.

Maior elogio, para terminar, não lhe poderia fazer, do que afirmar que Lourenço Lacombe tinha pelo Instituto Histórico de Petrópolis, cujos primeiros passos acompanhara, o mesmo acendrado amor, que devotava ao Museu Imperial, pois entendia que ambas as Instituições, em sua trajetória, se completavam, por perseguirem finalidades quase congênitas.

Honra, pois, Lourenço Luiz Lacombe.

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