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03/12/2011

 

CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX

CONTRIBUÍÇÃO À HISTÓRIA SOCIAL PETROPOLITANA:
SUBSIDIOS PARA UMA HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PETRÓPOLIS NO SÉCULO XIX (1)

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

“E o povo? Esse, também, se divertia.
Logo às primeiras horas da manhã, os escravos iniciavam, barulhentamente, o entrudo, pelas senzalas e pelos logradouros da cidade.
O Rio de Janeiro acordava em alvoroço, ouvindo os ambulantes que já apregoavam as mercadorias da ocasião:
- Porvio! Limão de chêro, de toda cô. Bom chêro. Bom chêro.
Um pacote de polvilho custava, no começo da passada centúria, cinco réis e uma dúzia de limões d’água, cheirando a canela, dois tostões. O limão vinha no tabuleiro da preta e o pacote de pó de goma no cesto ou no samburá.
- Porvio! Limão de chêro!
As crianças saltavam da cama, gritando: Entrudo! Entrudo! Entrudo!
E iam provocar a vizinhança, bombardeando as urupemas e grades de pau com bolas de cera cheias de água, que lhes davam as famílias, atrás das rótulas, a cocar a cabeça do primeiro que surgisse para responder ao desafio. Dentro em pouco generalizava-se o combate. A labareda de alegria pegava fogo em todo o Rio de Janeiro. E os limões de cheiro a cruzar!
Entrudo! Entrudo! Entrudo!”
(in, EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio antigo)

(1) Extraído do nosso ensaio, “Subsídios para a História: O Carnaval de Ontem”, publicado em caderno especial da Tribuna de Petrópolis em 04/03/1984.
 


O texto acima que bem caracteriza o “carnaval” carioca, popular, genuinamente brasileiro em pleno século XIX, de nada teria a ver com o carnaval que se desenvolveu em Petrópolis a partir dos registros impressos da década de 50 do mesmo século. Embora do carnaval petropolitano nada de novo possuiu-se para se acrescentar à história desta festividade folclórica de herança portuguesa tão presente em nossa sociedade. Todos os elementos que no município encontramos foram transferidos da Corte e das demais regiões e adaptados ao cenário local, principalmente a partir da presença dos “veranistas”.

A “Petrópolis colônia”, possuía em sua constituição demográfica uma grande massa de colonos alemães, vindos de províncias “esquecidas” da Alemanha, campesinos em sua maioria, ignorantes, e cujo germe de festividade não passava de seu próprio folclore e costumes, comemorações camponesas às épocas de plantio e colheita, tão comuns herdadas do cotidiano feudal europeu.

Por outro lado o contexto dominante entre os colonos era de protestantes, com um perfil tão alto que desestimularia toda e qualquer outra forma de diversão que a própria moralidade religiosa condenasse por princípios. E os alemães e seus descendentes por sua formação aceitavam sem contestação tendo por base seu limitado universo cultural.

Outro fato que poderia ser constatado era o de que os prazos coloniais ficavam distantes do centro, isto é, das terras de reserva imperial onde se situava o sítio do município. Só com o passar das décadas e a falência da colônia agrícola é que por sobrevivência os mesmos tornam com maior freqüência ao centro da cidade para a prestação de serviços diversos como os domésticos e outros, aos hotéis, legações, casarões e à Corte.


Emilio Willems (2), em seu trabalho sobre cultura alemã no Brasil, acrescenta não haver encontrado até a data do término de sua obra, em suas pesquisas, quaisquer indícios sobre se ocorreram influências alemães no carnaval carioca, e, caso tenham ocorrido, foram imperceptíveis. O único dado ressaltado por Willems, foi o de que já na primeira metade do século passado, haver constituído entre os alemães na cidade do Rio de Janeiro uma sociedade que, procurou transferir a “tradição carnavalesca” alemã, se assim puder ser considerada, mas de seus resultados nada foi divulgado, ou observado sociologicamente ou historicamente pudesse ser considerado.

(2) Willems, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.
 


Petrópolis possuía equilibradamente, por deliberações políticas quando da organização política da Colônia, uma divisão nos componentes da população nacionais e coloniais, o que determina que, a principio, ocorra um afastamento cultural entre ambas, pelo anacronismo de seus costumes e idiomas. Notamos pelo decorrer de nossas pesquisas que também o pequeno número de escravos, que perfazia a população petropolitana de então, não era um número suficiente para poder deixar patente seus costumes, restando-nos somente os nacionais, aos quais se deve a entrada, ora popularmente com o “entrudo”, ora aristocraticamente com os carnavais de máscara e salão, o privilégio de transplantarem tal modelo de festividade tão presentes na Corte e nas demais capitais de províncias.

Mais tarde, talvez, os demais tenham produzido efeitos introdutórios nos hábitos de festividade, com o advento das sociedades e grêmios fundados em nossa comunidade assim como outras nacionalidades que adicionaram ao carnaval brasileiro alguns de seus elementos.

Em nossa volta às origens do carnaval petropolitano, fundamentamos nossos registros em 1858, com os informes da imprensa local, onde em edições de fevereiro, como ocorreu o mesmo em nosso município (3) . 

Ocorreram bailes mascarados (4) concorridos nos três dias de festa no Hotel Bragança, e na terça-feira, dia “em que não choveu”, muitos máscaras passearam à cavalo e de carro pelas principais ruas da cidade, acompanhados ao largo pelo povo. Nos bailes muito se dançou “e apareceram alguns máscaras curiosos e outros provocadores”.
 

(3) in, O PARAÍBA
(4) Os bailes carnavalescos iniciados em 1860 no Rio não estavam ao alcance de todos, nem de acordo com a moral de muitos, assim os policiais passaram a distribuir gratuitamente máscaras a quem quisesse brincar o carnaval ou seja "os mascarados avulsos" (in, Luis da Câmara Cascudo)
 


A primeira crítica política também aqui foi encenada. No domingo, “dois máscaras andaram medindo a distância nas ruas para a colocação dos lampiões”, em uma nítida alusão à falta de iluminação na cidade. A municipalidade já nem mesmo completara um ano de vida, e os problemas que a esta época tornavam-se comuns, não deixavam de estar presentes em nossa cidade. E uma crítica social presente na ousadia feminina de uma veranista, na terça-feira, não se podia deixar de notar “uma senhora com uma saia balão desconforme que provocara risos e atenções de todos”.

O mesmo jornal também nos oferece a informação de que os festejos desta época foram uma iniciativa do Sr. Augusto da Rocha, comerciante vindo da Corte e estabelecido no município. Que talvez tenha patrocinado alguns máscaras de ruas ou baile nos salões do Hotel.

Em uma crônica da época, assinada pelo pseudônimo de Hudibras, nos fornece uma análise do requinte aristocrático, elitista e preconceituoso do carnaval local. Em suas passagens podemos notar que no Hotel Bragança e nos passeios das ruas, era a elite que predominava. E quando ele assinala que seu criado estava com uma “alemasita gelada” ao braço, observa-se ainda o preconceito contra os colonos por parte da sociedade nacional, principalmente a aristocrática veranista. Narra o cronista ainda sobre o consumo da cachaça e do champanhe, além de frisar que lá se vão os antigos tempos da seringa de limões de cera, em uma alusão de que o “entrudo” já houvera ocorrido em Petrópolis, e entrara em uma fase de recesso ou mesmo opressão.

Já nos registros do mesmo jornal em 1859, encontramos “não foi assim um carnaval tão emocionante e competitivo”, relata, “pois é o ano das eleições, e esta, sim, é o maior carnaval”, os jornais do período em Petrópolis sofriam uma “certa” condição de repressão, não somente pela presença da Corte em seu longo veraneio, como por sobrevivência ao público que se destinava na Colônia. Por tal, criticas como a analogia presente acima, eram raras.

De 1860 a 1874, ficamos sem qualquer relato histórico pois não possuímos qualquer documento impresso comprobatório nos arquivos. É o tão “decretado” fim de 14 anos de nossa história, que jamais poderão ser reabilitados pelas páginas da imprensa. Ressalva se faça a uma fotografia de um grupo carnavalesco, pertencente ao Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” e que havia sido construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligências no município, era a sensação da época visto pelo inúmero grupo de populares presentes nas proximidades do mesmo. Talvez neste período possam ser estabelecidas até informações sobre o aparecimento do “Zé Pereira” em Petrópolis, já que este surge em 1846, em um acontecimento que segundo muitos estudiosos revoluciona o carnaval carioca. Zé Pereira, o tocador de bumbo, que para alguns era o nome ou apelido dado ao cidadão português Jose Nogueira de Azevedo (5).

Nossas pesquisas prosseguem pelo jornal O MERCANTIL, em 1875, que inicia seus relatos afirmando haver sido o carnaval deste ano “chuvoso e fracamente concorrido, não possuindo a mesma animação dos anos anteriores”. Afirma haver sido diminuto o número de máscaras, e, assim mesmo, desprovidas de qualquer espírito. Quanto aos bailes de carnaval, ou de salão como se afirmava, como os do Teatro Bragança (6) , foram muito fracos, sem maiores descrições quanto ao mesmo. Assinalando também que somente cinco carros com máscaras haviam aparecido pelas ruas. É aqui onde o jornal oferece um dado importantíssimo, uma referência à crise econômica da nação que acometia a população na época, o que para o editor está comprovado pelo pequeno número de veículos a desfilar, porém adicionaremos um dado também importantíssimo a constância das chuvas no verão petropolitano, que tornavam vez por outra intransitáveis as ruas do centro, transformando-as em “rios de barro”.

(5) in, Luiz da Câmara Cascudo
(6) Muitos hotéis no período aproveitavam para adaptar seus salões e depois denominá-los por teatros para a apresentação de grupos que vinham da Corte.
 


O mesmo jornal inicia suas edições de 1876, lamentando não haver tido grande influência as festividades dos anos anteriores, e que o fracasso se repete. Uma ressalva se faz ao domingo e à terça-feira por haverem os artistas da Cia. Casali, uma companhia circense (7), percorrido as ruas “ricamente fantasiados, ao som de música italiano”, sendo que na terça-feira voltam a desfilar em carros e promovem à noite um “baile mascarado” no circo.

“Muito povo nas ruas e poucas máscaras, os divertimentos vão caindo em desuso”, é o comentário presente no mesmo jornal, porém releve-se que máscaras e fantasia pelos seus preços não estavam à altura do poder aquisitivo da população, sendo objeto ao alcance dos veranistas. Outra observação a ser produzida, é o de que quando D. Pedro e sua família viajavam ou não subiam a serra, o movimento da cidade tornava-se muito fraco.

Já em 1879, segundo o jornal (8), o carnaval volta à sua habitual alegria. O “entrudo” se faz presente relembrando os tempos antigos, e muitos mascarados desfilam. Nos salões do Hotel de Bragança e Rougemont, os bailes são concorridos e nas ruas aparece “um navio” – carro alegórico de espírito critico, em alusão aos banhos de água do “entrudo” – que não percorre todas as ruas por causa da chuva, isto ocorreu na terça-feira à tarde. Ainda a mesma edição aproveita para acrescentar que os festejos transcorrem na maior “moralidade”, só ocorrendo “um pequeno incidente”, alguns máscaras do alto de um carro jogaram pedras em alguns senhores, o que provocou um “bate-boca” sem maiores conseqüências.

(7) De propriedade de um italiano da Corte.
(8) O Mercantil
 


Podemos também observar nesta edição, um anúncio comercial, o primeiro caracteristicamente carnavalesco, o de uma costureira da Corte, que geralmente estabeleciam-se no centro do Rio de Janeiro, Mme. L. Niobey, que se oferece para confeccionar fantasias, e fornece como endereço curiosamente o número de um tradicional hotel, onde talvez estivesse hospedada. Este fato demonstra a realidade do carnaval da época ainda em pleno veraneio. Um carnaval para poucos dentro do que a imprensa caracterizava à época os folguedos, excessivamente caros, presente aos bailes dos Hotéis e aos desfiles dos carros de ruas. Preconceituosamente o “entrudo” era observado como o carnaval do “populacho” e por tal criticado por longo tempo pelas suas extravagâncias e excrescências, até que poucos da elite também venham a aderir.

A data de 1880, torna-se marcante. Petrópolis encontra-se lotada com a epidemia de febre amarela que acomete o Rio de Janeiro, e proporcionando como alternativa a fuga, o que acaba tornando o carnaval petropolitano na visão dos jornais locais, competitivo, principalmente nos aristocráticos salões como o do Rougemont.

Um cronista da época que se autodenominava “Dominó cinzento”, em uma alusão a mesma fantasia na quarta-feira-de-cinzas, e possivelmente uma pessoa com grande acesso à Corte, para gozar de intimidades, tecia longas “fofocas” a respeito das ditas personalidades que por aqui se encontravam a “brincar”, “O Braz Mimoso com Dna. Del Lago, o P. com a G. para desgosto da I., que vingava-se requebrando nos braços do pateta C...”, cita também que grande número de políticos do Rio aqui se achava presente nos salões.

Porém duas referências em sua crônica nos chamam a atenção. A primeira é ainda o forte sentimento preconceituoso ao descendente alemão, e o segundo à cidade, “... que me cobrirão de apupos ao verem que eu deixava a Corte para vir brincar na roça...”. Como bem observado “uma roça” que se prestava a refúgio dos que fugiam da “peste-amarela”. Outra informação importante que se segue relacionada pelo cronista são os denominados atos de “moralidade” de então, era a de um “gracioso da Corte” que, irritado com os perfumes e bisnagas, apedrejava os mascarados, tanto senhoras, cavalheiros e crianças que passavam de carro.

Porém marcante mesmo foi a passagem de “um carro-bomba..., a maior pilhéria do ano”, e o das decorações dos salões, que neste período eram pomposas e requintadas para os bailes carnavalescos. Segundo observamos a necessidade do mesmo carro existia porquanto ocorriam reclamações quanto a constante poeira nas ruas centrais, e por outro lado os incêndios que ocorriam nas velhas casas construídas de madeiras que se faziam presentes desde a época colonial e vez por outra uma pegava fogo, não havendo serviço de “bombeiros” na cidade. Quando de grandes incêndios como os que ocorreram na primeira década do século XX, a ajuda do serviço de bombeiros das fábricas era de grande préstimo ao serviço público municipal.

Como podemos observar até aqui, o carnaval petropolitano se fazia mais presente pela presença da elite da Corte na cidade. Com o desfile dos mascarados em sua maioria oriundo de famílias que se destacavam, econômica ou politicamente na Corte, que desfilavam suas brincadeiras ante uma população nativa completamente extasiada, já que o “entrudo” sofria forte repressão, e era um costume popular mais presente na sociedade carioca. Petrópolis por sua formação caracteristicamente alemã à época, observava a presença dos foliões veranistas, que se enclausuravam nos bailes promovidos nos ricos palacetes e hotéis, além dos desfiles de carros que evoluem para a “batalha de flores” e finalmente para o “corso”, ricamente ornamentados com grupos familiares aristocráticos lançando seus limões de cheiro, e flores sobre a população que maravilhada os apreciava.

Como vemos, não notamos até então qualquer indicação de que o carnaval toma em qualquer época, em Petrópolis, a conotação de uma festa popular, apesar dos anúncios dos bailes nos salões serem observados nos programas como “populares”.

Como pode ser observado nos primórdios da cidade o “entrudo” se fez presente, mas a elitização da festa e a forma opressiva como o “entrudo” era condenado (9) , quase fizeram com que desaparecesse em nome de uma “festa de moralidade” como seria a dos “máscaras”, salão e batalhas de carros.

(9) Festa popular que possui suas origens na festa portuguesa introduzida no Brasil desde o período colonial.
 


ENTRUDO: UM RETORNO QUE ASSINALA O FIM

O ano de 1881, em Petrópolis pode ser considerado o marco do retorno às tradições, como o reaparecimento do “entrudo” e a presença do povo nas comemorações carnavalescas. Porém sem que as demais características elitistas até então presentes fenecessem. E o revigoramento, até passageiro neste período do “entrudo”, fornece uma nova possibilidade de análise sobre a participação popular nas festividades locais.

Transcreveremos textos de noticias e crônicas do jornal O MERCANTIL, para melhor ilustrar o exposto acompanhado por alguns comentários e análises.

Como o jornal se apresentava publicado duas vezes por semanas, coincidentemente suas edições geralmente surgiam após os folguedos. “...que o carnaval em Petrópolis este ano esteve desanimado e quase passou desapercebido...”, o comentário nos remete a uma reflexão ante as demais descrições. Desapercebido por parte de quem? Da elite veranista!

“No primeiro dia à tarde, percorreram as principais ruas da cidade os grupos musicais das sociedades, Filarmônica e da Carlos Gomes e poucos máscaras avulsos, em sua maior parte crianças...”

“Quanto aos bailes noturnos nos salões Floresta e Bragança foram muito concorridos...”

“A ordem pública manteve-se na altura da índole pacifica de nossa população, pois não houve de registrar nenhum só ato de desordem ou desacato aos foliões...”

“No mais, noticia-se que o Club dos Terríveis saíra de sua caverna para os bailes, protestando contra o entrudo...”

“Em compensação tivemos um entrudo furioso, porém que não divertiu o povo...”

A imprensa como já dito anteriormente representava a minoria da sociedade local, e tornava-se porta-voz da mesma em sua luta contra o costume do “entrudo”. Quando o redator assinala que os bailes noturnos foram muito concorridos, foi pelo fato de não estarem presentes elementos da população, e os bailes distarem dos folguedos de rua, um ambiente que apesar de sempre anunciar que era popular, restringia a presença da população. Era onde a aristocracia veranista se sentia à salvo do “entrudo”, e porque o mesmo à noite não acontecia, já que a ordem pública das ruas se fazia mais opressiva.

Apresenta duas novidades, um grupo de foliões caracterizados dentro dos salões protestando contra o “entrudo” e crianças divertindo-se com máscaras e grupos musicais nas ruas.

De um curioso “folhetim” publicado no O MERCANTIL, podemos destacar algumas informações relevantes assim como uma parodia:

“Além das noventa e oito fábricas que trabalharam dia e noite na manufatura de limões-de-cheiro, foram importados da Corte para esta cidade 225 mil dúzias de balões de borracha, contendo cada um litro e meio de água, os quais contribuíram em grande parte para aumentar o volume das águas do canal, como se não fosse suficiente a chuva que há quinze dias, nos tem molhado a paciência...”

Apesar do exagero, do cronista, podemos observar que se comercializara um grande número de bisnagas, o que mais uma vez comprova que o “entrudo” se revitalizara por intermédio dos populares. E continua a pilheria além de denunciar o fracasso no comércio das tradicionais máscaras. Por outro lado o texto do folhetim, ainda indica os comerciantes locais, descendentes de alemães ou industriais que se aproveitaram para fabricar as bisnagas.

“Dizem mais, que os srs. Kallembach, Boller, Peifer e Guilherme fizeram um convênio e transformaram em seringas todas as folhas que tinham em seus estabelecimentos, porém não achando os entusiastas do entrudo que esta medida aquática era o suficiente para produzir um dilúvio artificial, pediram por empréstimo a bomba municipal contra incêndios e revertido em arma de combate”

“As máscaras apodrecem nas prateleiras das lojas, os costumes de fantasia aí estão dependurados às portas dos armarinhos, coberto de pó e traça... mr. Chiezzi, laborioso artista levou semana e semanas... trabalhando para surtir a sua loja com todos os artigos preciosos para o carnaval.”

“Pobre artista! Não se lembrou do entrudo...”

Devemos ainda considerar o que já foi mencionado da carestia das fantasias ou máscaras, em comparação com os “limões-de-cheiro”

O “entrudo” era não somente uma festa “barata”, como ao alcance do “populacho”. Não respeitava sexos, idades ou posições, e além disto não havia legislação vigente que o proibisse, não possuindo a cidade nem um código de posturas que previsse os efeitos. Tanto semelhante era uma verdade para a época que até a bomba municipal chegou em verdade a ser utilizada com o consentimento e alegria do fiscal, assim podemos observar que muitos membros da elite acabaram por juntar-se aos populares no festejo, pois o fiscal não se atreveria a consentir na utilização da mesma se não fosse do consenso de seus superiores.

O jornal ainda afirmava com um certo exagero, que eram milhares de esguichos de seringas, bisnagas, baldes, tinas, panelas, bacias ou mesmo qualquer outro recipiente que acomodasse o precioso líquido. Existindo até bombas fabricadas caseiramente com taquarussu (10), onde se forjava um orifício de um lado, e na extremidade uma vara com uma bucha de papel ou pano, servindo para aspirar e jorrar água, como descrito em noticiário.

(10) O famoso bambu.

 


Para o mesmo jornal a população mesmo ao som dos “Zé Pereiras”, das zabumbas, das buzinas ou músicas, preferia o entrudo.

“Na rua Dona Januária, travou-se um ferino combate entre dois grupos...”, e continua afirmando que o vitorioso junto ao derrotado passavam por todas as ruas infundindo o medo, e que as vezes os mesmos eram interrompidos por gritos alarmantes e jocosos “Aí, vem a bomba municipal, era para os presentes o mesmo que dizer aí vem o diabo”.

Janelas e portas fechavam-se, só as moças saiam para enfrentar, sendo assistidas por uma multidão ao largo e longe dos jatos. Nas ruas também transportava-se em carros ou carroças, tinas e outros recipientes repletos de água.

O “entrudo” também se realizava nos interiores dos lares, verdadeiras “ciladas e traições” eram preparadas com requintes de detalhes, “um verdadeiro troca-roupas para determinados infelizes...”.

Os participantes do “entrudo” não satisfeitos com o material utilizado, adicionavam também outros elementos ao material, tais como: talco, farinha de trigo, e “...até urina e fezes...”

Porém o pior do “entrudo” era reservado pelos membros da elite veranista que aderia às pessoas negras. Muitos indivíduos de cor eram vitimas de efeitos imediatos, tornando-se figuras grotescas e de total deboche em mãos dos mesmos “pseudo- foliões”.

O “entrudo” nestes anos sinaliza com o seu desuso, pois nos anos seguintes seu registro é mínimo, ocasional, e reservado às regiões mais afastadas do centro e ao fim do século XIX se extingue. Os costumes carnavalescos se transformam, assim como a moralidade religiosa na cidade que com a predominância católica avança cada vez mais procurando homogeneizar a população.

O CORSO

Muitos estudiosos situam que a moda do Corso havia sido lançada em fins da primeira década do século XX no Rio de Janeiro, e que o mesmo sobreviveu até 1930, quando do aparecimento das primeiras sociedades carnavalescas de rua. Porém o fato de que passeata de carros, sejam estes de qualquer espécie, já não consistia, como anteriormente observado em novidade para Petrópolis, e talvez até possamos dizer que o Corso teve sua origem nos desfiles do domingo de carnaval petropolitano.

Para a comunidade petropolitana esta passeata sempre se constituiu em uma das partes mais brilhantes dos folguedos petropolitanos, isto podemos considerar pela presença da tradicional “Batalha das Flores” que se realizava na rua à frente do Hotel Bragança, atual Monsenhor Bacelar, seguindo em direção à Praça da Liberdade, atual Rui Barbosa. Apresentando inúmeros carros, em sua maioria carruagens e cabriolets. Completamente ornamentados, com seus condutores e famílias ora fantasiados ou não, jogando em sua maioria pétalas de rosas em direção ao público que assistia das laterais, guardados por uma espécie de varais e divisórias com tapetes ou lençóis bordados, ou aos outros carros. Ao que tudo indica, a comitiva imperial vez por outra freqüentava os desfiles.

Uma foto presente no Arquivo do Museu Imperial, datada de 1880, fornece estas impressões, tão comuns na “belle époque” parisiense, com o mesmo desfile transposto para o Rio e para Petrópolis pela aristocracia veranista.

Porém se pudermos recuaremos no tempo para buscarmos antecedentes do Corso, até a anteriormente citada fotografia do Arquivo do Museu Imperial, e datada de 1868, onde um carro alegórico denominado de “encouraçado” construído por Antonio Brandão, famoso cocheiro de diligência, desfilava pelas ruas da cidade. Mas alguns estudiosos da colônia alemã em Petrópolis indicam que os alemães, proprietários da maioria dos carros de carga da cidade, já passeavam pelas ruas da cidade com seus veículos completamente ornamentados até os muares.

O Corso continuou com o advento dos autos e dos lança-perfumes de então, até que findou como o do Rio de Janeiro, com o advento dos carros de capota inteiriça, e coincidentemente o inicio das Grandes Sociedades Carnavalescas do Rio.

Bibliografia

Fontes Primárias:

• Jornais da Hemeroteca Pública Municipal, Arquivo Histórico Municipal, Biblioteca Municipal de Petrópolis, O Mercantil; O Paraíba.

Fontes Secundárias:

• CASCUDO, Luiz da Câmara, Folclore do Brasil (pesquisas e notas). Rio de Janeiro, São Paulo, Fundo de Cultura, 1967
• EDMUNDO, Luiz, Recordações do Rio Antigo,
• WILLEMS, Emilio, A Aculturação dos Alemães no Brasil, CEN/INL/MEC, Coleção Brasiliana, 1980.

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