digitação utilizada para inclusão no site:
28/05/2008

Tribuna de Petrópolis:
24/05/2008

CASA DO JARDIM DAS PEDRAS BRANCAS (A)

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

Quando adentrei pela primeira vez pelo casarão destinado a abrigar o Centro de Capacitação Frei Memória, para ministrar minhas aulas, a sensação que me abordou foi a de retornar ao tempo onde o prédio construído fronteiriço ao Palácio de Veraneio abrigou como morador o então Barão de Mauá, que adquirira em 1850 aquela casa que era de pedra e cal para nela residir por alguns anos até que o seu palacete estivesse concluído defronte da Praça da Confluência (Ferreira Alves, J.).

Assim, Mauá conseguia monitorar as audiências de D. Pedro II em seu veraneio, principalmente dos políticos opositores ao industrialismo, assim como comparecer às missas na Matriz, estabelecida ao seu lado, sempre quando o Imperador e sua família, se faziam presentes.

Arquitetonicamente a casa mesmo sendo alçada a um centro de capacitação nos conduz a observação que não comporta na atualidade o volume de alunos que comparecem para prover seus cursos, assim como também de suportar o imponderável administrativo que hoje o habita. Um prédio que já ao tempo dos anos 80 não suportava a Secretaria de Obras que ali se apresentava (Iliescu M.). Fato que nos conduz a corroboração de que os prédios centenários podem abrigar centros culturais, com volumes de trânsito coordenados em sua permanência e visitação, objetivando sua conservação e preservação temporal, mas que os mesmos não são mais destinados a suportar um volume excessivo e cotidiano de trânsito, que pelas perspectivas demográficas das sociedades atuais encontram-se muito aquém do da época em que foram elaborados, segundo os especialistas. Este fato nos conduz à preocupação sobre o conjunto 801 da Rua do Imperador nesta sua transição.

Retornando ao velho casarão da Rua da Imperatriz, Jerônimo Ferreira Alves acrescenta que posteriormente quando ampliada, a "casa do jardim das pedras brancas", como era denominada, serviu de moradia ao filho do Barão, Henrique, passando posteriormente ao final do século XIX à propriedade do Dr. Antônio Moreira da Fonseca (1864-1940), que nesta residiu por décadas seguidas até seu falecimento.

A curiosidade sempre nos incomodou, principalmente sobre a denominação do Centro. Por que Frei Memória? Que vinculação possuía com o casarão? Por que não Moreira da Fonseca que se destacou como um cientista preocupado com a população petropolitana e era proprietário do mesmo.

Segundo palavras de Gabriel Fróes, "Moreira da Fonseca formou-se em 1888 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, não tardou a seguir a doutrina de Hahnemann de medicina homeopática. Vindo para Petrópolis, sua clínica se expandiu grandemente, breve sua reputação de médico notável correu grande parte do país, vindo consultá-lo em Petrópolis doentes dos mais diversos lugares. Era consultório sempre cheio, atendia invariavelmente a todos os clientes que o procuravam, lá permanecendo até depois da meia noite. E no lar ainda prosseguia na observação aos microscópios.

Chegou a possuir em sua residência a Av. 7 de setembro nº 193, cerca de 800 cobras para extração do veneno com que preparava medicamentos. Ali possui também rica e variada coleção plantas exóticas.

Seus métodos chegaram a ser conhecidos na própria Alemanha, chegando nos seus últimos meses de vida, a ser procurado por cientista Alemão que desejou conhecê-lo pessoalmente.

Exerceu em certa época, a função de fiscal do governo junto ao Colégio São Vicente de Paulo, honrando sua condição de homem culto e cumpridor dos seus deveres.

Faleceu em Petrópolis, em sua residência aos 76 anos de idade, na manhã de 23 de março de 1940, sendo seu corpo transportado pela Leopoldina para o Rio de Janeiro, onde foi enterrado no Cemitério São João Batista." 

Outros dados foram reunidos mais tarde tanto por depoimentos de sua filha Marilda Léa Moreira da Fonseca (quadro afixado), que foi professora pública e Luiza Helena Alves, que, funcionária, realizou outros levantamentos.

Além de homeopata era microbiologista e normalmente não receitava na primeira consulta, sem que se completassem os exames de urina e fezes. Estes exames eram feitos durante a própria consulta num pequeno laboratório continuo para que o diagnóstico fosse completo. Durante muitos anos seu dia de trabalho era dividido em atendimentos domiciliares e no consultório no sobrado da Farmácia Homeopática à av. XV de Novembro 870.

Foi casado com a primogênita filha do primeiro barão de Oliveira Castro, Sra. Carlota Mendes de Oliveira Castro Fonseca; pai de três filhos, sendo que um destes, Irene faleceu com 19 anos de tifo; alegre nas consultas; asmático, mas fumante de charuto indiano.

Segundo Nelson de Sá Earp em sua história da medicina em Petrópolis, Moreira da Fonseca foi um dos fundadores da Sociedade Médica Petropolitana.

Quando faleceu aos 76 anos na residência, populares que com este por sua vida haviam se consultado, compareceram numerosamente à porta do casarão para externar suas condolências e ansiando por velá-lo.

As fotos antigas do casarão em exposição no respectivo Centro, não somente apresentam suas linhas originais com seus avarandados que foram destruídos nos anos 70, assim como a presença constante de uma moça que posa na maioria das fotos e cujo nome não é revelado, mas que pela presença do carro nos conduz a dedução de ser uma de suas filhas.

Os populares também chamaram por algum tempo a casa como "casa das cobras".

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