Tribuna de Petrópolis:
22/09/2007

Guaraná foi Cascata! (II)

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

Vamos a um pouco de história: a Cervejaria Mora, foi originalmente fundada em 1903, quando organizou-se como pequena indústria. Mas somente quando tomou a denominação de Fábrica de Bebidas Cascata, transformada de Sociedade Coletiva Mora & Cia., para Fabrica de Bebidas Cascata S/A. (1946), ganhou importância no mercado cervejeiro fluminense com a produção das cervejas Cascata Preta e Cascata Branca.

Em 1928, ao analisarmos sua publicidade, observamos que era distribuidora oficial dos produtos da Cia. Cervejaria Hanseática do Rio de Janeiro, em Petrópolis. Mas em 1942, a Cervejaria Hanseática foi adquirida pela Brahma, o que conduz ao fim do contrato de distribuição dos produtos na região serrana.

O anúncio da Cervejaria Cascata em 1928 também era especifico quanto a seus produtos. Produção das famosas cervejas Branca e Preta, sendo que a preta era vendida em todos os pontos da baixada fluminense onde houvesse um ponto dos ônibus da Única e Útil em direção à Petrópolis e concorria com a famosa cerveja preta da "Americana" ainda de rolha.

Os demais produtos segundo o citado anúncio eram, licores finos; águas gasosas, um glamour entre as damas; os famosos xaropes para refrescos, que dominavam o comercio popular nos quarteirões, e servindo também às cozinhas para fazer iguarias de primeira qualidade, sendo algumas, alemães; finalmente a bebida em que os Mora eram considerados experts na fabricação, assim como todos os italianos tradicionalmente de origem, o Fernet chamado aqui por Fernet-Mora.

Ainda nos recordamos com constância que nos anos 70 o mesmo Fernet era o hábito tradicional nos quarteirões e distritos de Petrópolis, onde nos bares, desde o começo do século 20, era costume servir "uma patrícia com botões dourados", ou seja, "uma parati" ou ainda se quiserem a famosa "mineira", com gotas de Fernet.

O Fernet era uma bebida da linha dos "aperitivos amargos" como o bitter, o absinto, entre outros. O fernet é originário da mistura de álcool de indústria diluído com princípios amargos de origem vegetal, ervas tais como a genciana, camomila, noz-vômica, quássia, safrão, mirra, entre outras. Em alguns casos encontra-se a presença de até 40 ervas, sendo a receita original da Fratelli, um segredo.

Estas bebidas são geralmente consideradas mais nocivas, porque eram preparadas no passado com álcool de indústria, muito mais impuro. O álcool de indústria ou retificado contém, além de álcool etílico, aldeídos (acético, furfúrico ou furfural), éteres (acético, butírio), álcoois superiores (amílico, butílico, propílico, etc.). Na Argentina, onde possui consumidores radicais, as ervas são maceradas em álcool de uva. Muitos produtores deixam fermentar por até doze meses. O fernet possui uma cor escura e um aroma intenso, seu teor alcoólico é de 45o a 52o G.L.

O aperitivo é de todas as bebidas alcoólicas a mais prejudicial à saúde por que: em primeiro lugar é ingerido com o estômago vazio; e em segundo lugar, contém certas tinturas ou essências tóxicas, como o absinto.

A fórmula foi criada em Milão por um farmacêutico chamado Bernardino Branca em 1836, que criou em 1845 a empresa Fratelli Branca para produção comercial do produto. Tornou-se uma bebida de grande consumo dos italianos, principalmente para os trabalhadores e operários que o saboreavam com a "barriga vazia" antes das refeições, outros as sorviam com fins medicinais para o aparelho digestivo.

Imigrantes italianos passaram a produzi-la em outras regiões, como na Argentina pela própria Fratelli e no mesmo período pelos Mora no Brasil.

Na Argentina existe o hábito de servir com água mineral ou qualquer outra bebida gaseificada. A Fratelli chegou a produzir uma versão com sabor de menta.

O consumo da Fernet em nossos dias, pela elite, levou a produção da chamada Fernet Branca que é servido geralmente como um digestivo após uma refeição, mas pode também ser apreciado com café-expresso, ou ser misturado em bebidas. Pode ser puro apreciado na temperatura de quarto ou com gelo. Uma versão "flavored mint" do Fernet Branca, o Branca Menta, estava também disponível.

Como já dito, seu consumo entre os petropolitanos pobres era tradicional, existem registros locais (jornais) de que durante a epidemia de Gripe Espanhola em 1918, seu consumo foi exagerado, pois consideravam popularmente que quem consumisse diariamente a bebida ficaria imune a própria gripe, pois as ervas presentes na bebida lhe dariam essa imunidade.

Outra característica era a presença da propaganda deste produto dos Mora nos bares e "botecos" próximos aos estabelecimentos industriais como os da Cascatinha, da São Pedro de Alcântara, ou Santa Irene, entre outros. Os descendentes de italianos corriam com sofreguidão para a bebida antes de suas refeições.

Na atualidade poucos são os consumidores desta bebida ante a explosão das Cias. Cervejeiras brasileiras e de sua luta pelo mercado consumidor.

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