Tribuna de Petrópolis:
11/09/2007

Guaraná foi Cascata! (I)

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

Como diabético fui surpreendido por um refrigerante de guaraná de uma multinacional do tipo "zero". Seu sabor lembrou-me não somente algo de minha infância como também de minha juventude. Conduziu-me ao passado, a minhas lembranças.

Peter Burke considerado atualmente um dos maiores historiados do mundo e também o pai da nova história cultural (NHC), o fato de se relevar uma "história dos odores e sabores", essencial para o registro da memória das comunidades.

Para reforçar esta dinâmica processual histórica ele recorre com grande prazer a literatura pesquisando cenas, narrações, onde os grande escritores recorreram a este fenômeno como expediente para reforçar característica de regiões ou de momentos da sociedade humana.

Discussão à parte sobre os defensores da História das Mentalidades nos restringirá, teoricamente a esta citação, já que nosso ensaio destina-se em sua maioria a leigos.

Petrópolis, como não poderia deixar de ser, também possuiu recentemente esta memória dos odores. Desde a era Koeler com a preocupação da construção das casas, nossos "rios", acabaram se transformando em esgotos a céu aberto, não importando a área ou quarteirão próximo onde estiverem após vários dias sem uma manifestação pluviométrica somos abordados pelo "cheirinho" tradicional. Cheiro este que já nos acompanha a quase quatro décadas seguidas, basta que se consultem os jornais e colunistas dos períodos citados. Nos primórdios da organização urbana da era Koeler, os moradores próximos à área onde se encontra hoje a Catedral, reclamavam do abatedouro de gado a céu aberto, que impunha aos nobres moradores da região não somente o cheiro fétido das carcaças jogadas ao rio, assim como a presença dos urubus, o que conduziu a reclamações freqüentes (O MERCANTIL).

Esta linha de odores é tão tradicional, que os jornais petropolitanos já acentuavam outro odor também característico de uma "era", o odor das anilinas químicas que eram lançadas aos rios pelos tintureiros das fábricas, desde a década de 40 (Jornal de Petrópolis & Tribuna de Petrópolis). Odor hoje que só se faz presente por força de uma única fábrica presente na cidade, a Werner. De meus tempos de infância trago o cheiro forte da chuva tocando a terra seca em pleno verão, inconfundível odor prazeroso em algumas ruas do Bingen que não eram calçadas.

Porém outra história que Burke e outros pesquisadores também assinalam seria a dos sabores, desenhado também com grande maestria pelos literatos.

Quanto a este fato, recentemente trouxeram-me um guaraná mineiro, tão saboroso que me lembrou minha infância, quando saboreava com grande sofreguidão o famoso guaraná caçula da Cia. Antártica.

Mas, tornei-me escravo de um sabor mais apurado, lembrado por este refrigerante do tipo "zero", cuja lembrança era incomparável, ao do nosso guaraná da Cascata, da fábrica dos irmãos Mora na Washington Luis. Que tão pouca lembrança os petropolitanos possuem.

Seu sabor era de uma pureza inigualável, assim como a própria fruta do guaraná.

Quando na década de 70 tornei-me funcionário desta empresa, pude satisfazer minha curiosidade com seu processo de fabricação, artesanal, que impressionava, assim como os rótulos das bebidas famosas produzidas pela própria.

Tanto o extrato como a essência eram distribuídos pela C.N., Concentrados Nacionais, que fica localiza-se ainda hoje na rodovia Rio-Petrópolis, na altura de Campos Elíseos em Duque de Caxias, e da qual empresa também me tornei poucos anos depois funcionário.

Nesta, descobri que os citados produtos eram comercializados para três Cias. Brasileiras, desde o fim dos anos 60, no mesmo contexto de sua fórmula para o xarope. Estas eram: a própria Cascata; a Alterosa de Belo Horizonte e a Brahma. Mas mesmo assim, quando saboreávamos havia uma diferença que sempre girava a favor do produto da Cascata. Descobrimos tempos depois que esta diferença se processava motivada pela água, esta se originava de uma fonte próxima à empresa, uma "mina".

Água! Assim como a água que hoje representa a diferença entre a Bohemia que era produzida em Petrópolis e a que atualmente é produzida pela Antártica em suas fabricas de São Paulo e do Rio.

Assim como Bohemia é história para Petrópolis (não em 1953, como assinalado em sua publicidade), a Cascata dos Mora e seu inconfundível guaraná também se tornaram história para nosso contexto memorialístico industrial e como observamos sócio-cultural.

Suas imagens publicitárias se faziam constantes nos jornais petropolitanos após a 2ª guerra. Observamos atentamente a frutinha que consta da mesma, copiada pelo caçula da Cia. Antártica Paulista. Outra publicidade, que é genérica quanto aos produtos, analisada de cópia extraída de publicação de 1928 fornece como endereço original a Rua Bernardo de Vasconcellos na Cascatinha onde a família Mora começou a fabricar seus produtos, mudando-se posteriormente para a Rua Washington Luís onde adquiriram grande terreno, instalando à frente do mesmo sua fabrica e nos fundos uma vila de casas para a própria família, assim como o prédio que foi construído sobre o edifício da fábrica.

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