Instituto Histórico de Petrópolis  24/09/1938
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31/07/2000

 c789172T3170026021

Digitação utilizada para inclusão no site:
19/06/2012  

Ensaio publicado na p.2 da edição da Tribuna de Petrópolis de 06/12/2006

Texto revisto segundo Princípios de Redação, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

Uma Petrópolis Fascista: Camisas Negras, Pardas & "Galinhas Verdes"

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

A notícia da coluna de Ricardo Boechat no jornal O DIA de 09/11/2006, p.5, não surpreenderia aos petropolitanos que conviveram próximos ou vivenciaram o descrito. Ela cita o andamento de uma tese de doutorado de Cléa Shiavo, “Pioneiros alemães de Nova Filadélfia: relatos de mulheres”, sobre uma célula fascista na zona norte do Rio, mais precisamente em Campo Grande, entre os anos 20 e 45. Eu já sabia que a representatividade comunista na mesma área fora muito grande, pois meu pai, oriundo de Bangu pertencera às fileiras do partidão, mas desconhecia esta presença fascista.

No caso de Petrópolis, desde as publicações para o Centenário da Tribuna de Petrópolis, apresentamos descrições desta forte presença. Enquanto na Capital o aliancismo marchava com recrutamentos recordes no interior, principalmente na região serrana, caso petropolitano, a expansão nazifacista se processava abertamente.

Encontramos em 18/07/1933, a notícia de uma festa que foi promovida pela colônia italiana local em homenagem ao agente consular, Sr. Felipe Gelli, e que foi idealizada pelo secretário da célula do "fascio" local, Vicente Marchese. Festa esta idealizada pela secção feminina do mesmo “fascio”.

Já em 17/10 do mesmo ano, os jornais noticiavam, com fotos, a inauguração da nova sede do “fascio” petropolitano que agora se fazia presente na Avenida XV de Novembro n.º 275, e que comportava o “do polavoro” (associação) e um curso de língua italiana anexo ao mesmo conjunto. “O dia de anteontem há de ficar assinado na história da colônia italiana de Petrópolis com letras de ouro” (Tribuna de Petrópolis). O que denunciava que havia uma cumplicidade do redator da época.

Em 01/11/1936, o jornal noticiava com destaque (foto), a ocorrência comemorativa da “Marcha sobre Roma”, e que uma festa patriótica se realizava em Petrópolis convidando o povo, “O Fascio Paolo Diana, desta cidade, celebrando o aniversário da Marcha sobre Roma e da Fundação do novo império realizará hoje, as 15horas, na sede da Sociedade Italiana, uma sessão solene, com a presença de toda a colectividade”. Paralelo ao crescimento do “fascio”, os alemães também se apresentavam com comemorações e palestras que ocorriam no Clube da Rua 13 de Maio, ou com maior envergadura no Teatro Petrópolis onde o símbolo nazista e manifestações se seguiam (foto do Arquivo do Museu Imperial, presente no fascículo do Centenário da Tribuna, reproduzida em nosso blog (http://petropolisnoseculoxx.zip.net).

No septuagésimo aniversário da "Deutsher Sangerbund Eintracht", depois denominada Sociedade Coral Concórdia, em noticiário com foto a Tribuna (23/08/1933) divulgava que a festa comemorativa “excedeu a todas as expectativas quer sob o ponto de vista da influência, quer sob o ponto da afluência de convidados que raramente terão sido excedidas, ou mesmo igualadas. Para que uma desta desse alcance os seus fins, torna-se necessário que da assistência se apodere aquilo que os alemães classificam como "die richtige Stimanung". E esse tom foi completamente alcançado.

Desde os mais insignificantes detalhes aos maiores: "alleshat geklappt", isto é, "tudo deu certo". As manifestações se faziam de forma aberta e presentes por toda a área do Bingen a partir da região do Sagrado Coração, até que a declaração de guerra conduziu a uma situação de belicosidade entre os próprios petropolitanos que apedrejavam o Hotel Maxmeyer levando consequentemente os moradores da Mosela a erguerem barricadas de proteção na época.

Quanto aos integralistas, “galinhas verdes” como eram denominados, seu movimento foi de longe o de maior repercussão no país e com grande número de adeptos em nossa região, desde as áreas rurais à urbana. Chegando inclusive a editar um jornal em Petrópolis, “A Réplica”, que rivalizava com o representante do aliancismo.

Com grande frequência, Plínio Salgado, seu líder, desembarcava da Leopoldina para fazer palestras nos clubes e teatros para as hostes integralistas. Como exemplo, uma publicação da Tribuna noticiava em 06/02/1935, a concorrida recepção ao “orientador desse grande movimento nacional” que realizara uma palestra no Cine Glória (localizava-se onde hoje é o prédio do INSS). Que retorna em 10 de março para a realização do II Congresso Nacional que foi encerrado com grande desfile pela cidade e sessão solene no Cine Capitólio.

Até mesmo Carlos Lacerda, estudante na época e aliancista, junto com seu grupo foi escorraçado de São José do Rio Preto na época (Tribuna e depoimentos). Porém o que realmente ganhou destaque nacional foi o incidente ocorrido em Petrópolis (09/07/1935), com enfrentamentos entre integralistas, sempre paramilitarizados e protegidos pela corporação policial, e os aliancistas. Quando por realização de um comício, dezenas de pessoas se enfrentaram resultando na morte do operário tecelão da Cascatinha, Leonardo Candú, um aliancista. Este fato conduziu a ocorrências semelhantes por várias regiões do país (Tavares, 1985).

O problema atual para documentários ou para a história oral é o de não encontrarmos membros sobreviventes que foram atuantes nas extintas agremiações, isto porque a maioria encontra-se falecida. Os empresários locais dividiam-se apoiando, financiando, tanto o “fascio” como os integralistas, porém, quanto aos associados, observa-se uma diversidade que apresentava também gente humilde e até alguns poucos componentes do operariado.

Os integralistas conseguiram apoio na massa burocrática da cidade, principalmente funcionários públicos além de ruralistas que ainda compunham um segmento importante no município. Comerciantes italianos, espanhóis e portugueses, apoiavam o “fascio”, sendo que quando a guerra começou as orientações tenderam a apoiar o exército brasileiro, já que era grande o número de combatentes descendentes de italianos e operários que partiram para o front, muitos oriundos da Cascatinha (Paladini).

A reação foi tão violenta que a sede do “fascio” foi fechada silenciosamente por seus seguidores, assim como a célula dos integralistas, logo após o levante do Catete, ou a “Revolução dos Covardes” (Nasser, 1947), como ficou conhecida a tentativa fascista tupiniquim.

Bibliografia:
Nasser, David. Revolução dos Covardes, Rio de Janeiro, 1947, Editora Gráfica O Cruzeiro
Tavares, Jose Nilo. Conciliação e Radicalização Política no Brasil: Ensaios de História Política,
Editora Vozes, Petrópolis, 1985
Weyrauch, Cleia Schiavo. Pioneiros alemães de Nova Filadélfia: relatos de mulheres. Caxias do Sul: Ecucs, 1997

Jornais:
Tribuna de Petrópolis, Coleção, Hemeroteca da Biblioteca Municipal de Petrópolis

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