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15/05/2010

Tribuna de Petrópolis:
14/08/1983

CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DA SAÚDE PÚBLICA EM PETRÓPOLIS - A GRIPE ESPANHOLA E A QUESTÃO SANITÁRIA EM PETRÓPOLIS [1].

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho

"O que se está passando na Saúde do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não soffrendo os navios o mais rudimentar expurgo! ( Rio Jornal, 11 de outubro de 1918) [2]

Enquanto o governo faz annunciar que a epidemia declina, o povo soffre as aperturas deste afflictissimo momento - tudo fechado! Não ha pão, não ha remedio, não existem os generos de primeira necessidade. Os donos dos armazens, apavorados com a tranquibernia do Comissariado entendem que o melhor é ter os seus estabelecimentos fechados. (A Razão, 23 de outubro de 1918) [3]

[1] Ensaio publicado na primeira página do segundo caderno da Tribuna de Petrópolis, em 14 de agosto de 1983.
[2] Recorte inserido em 2003

[3]
Idem

 


Nessa hora de incerteza dolorosa, premido pelo grito de piedade que vinha de todos os lados, o presidente da Republica appellou para o Sr. Carlos Chagas e entregou-lhe a organização dos serviços de soccorros hospitalares. Era o gesto que se reclamava; foi o primeiro signal de confiança e de conforto moral. O grande sabio patricio em quem Oswaldo Cruz presentira a capacidade e cuja vida, em um esforço continuo, não tinha servido senão para minorar o soffrimento alheio, iniciou com vigor immediato, proprio á sua natureza activa, a cruzada humanitaria, e sem preoccupações exhibicionista, nem alardes inuteis, começou a luta contra o mal terrificante. (...) A Carlos Chagas nós devemos o jugulamento rapido da "grippe". (UM GRANDE benemérito da cidade. A Rua, Rio de Janeiro, 9 jul. 1919.) [4]

(... algumas dezenas de cadáveres, uns nus, outro embrulhados em lençóis, com a cabeça de fora, outros vestindo roupas de todas as cores e feitios. Os carros transbordavam, e com as trepidações dos motores, todos aqueles corpos inanimados se mexiam, abrindo e fechando os braços, descambando as pernas e a cabeça, em gestos macabros e horripilantes, de quando em quando os empregados do necrotério traziam debaixo de cada braço, o cadáver nu de uma mocinha, de uma criança, de um velho...”(in, Azevedo, J. Soares de, in Espanhola? Não Humana, Revista Vozes, Petrópolis, 1918) [5]

[4] Recorte inserido em 2003
[5] Recorte original de 1983

 


Os primeiros recortes acima evidenciam o lado negro da “espanhola” no Rio de Janeiro, como uma epidemia que se alastrou a principio no centro do Rio nas áreas mais pobres a partir do Cais do Porto, seguindo em direção aos bairros operários, industriais, nos cortiços, onde a população era alvo fácil pela sua situação nas condições de moradia e alimentação, o que conduzia fatalmente a falta de imunidade. Por outro lado os mesmos recortes evidenciam o trabalho de Carlos Chagas, que a exemplo de Oswaldo Cruz, foi um batalhador incansável na luta pela saúde pública. [6]

Petrópolis também teve seus ídolos quanto ao combate a epidemia e desenvolvimento de uma consciência de saúde pública. Aqui, outro discípulo de Oswaldo Cruz se notabilizou de forma incansável, o venerado, Cardoso Fontes. [7]

[6] inserido em 2003
[7] I
dem

 


Já a cena descrita por J. Soares, nos fornece um testemunho vivo e estarrecedor dos efeitos da epidemia em nossa terra. Epidemia que supostamente oriunda de Dakar se propagou rápida e fulminantemente pela Europa, Ásia e América, deixando como saldo aproximadamente 20 milhões de mortes em todo o mundo e afetou cerca de um bilhão de indivíduos. Somente nos EUA morreram 500.000, e, na Índia com suas cidades superpovoadas e população subnutrida, dizimou doze milhões, em cálculos gerais, aproximadamente 4% dos habitantes do país à época. Holocausto superior ao da Primeira Guerra, onde os agentes sub-microscópicos tiveram potencial de destruição superior a toda a munição presente.

A GRIPE

As bibliografias médicas, citam que qualquer gripe, por si, raramente chega a causar a morte, e que seus efeitos letais decorrem muito mais de complicações respiratórias, tais como a bronquite e a pneumonia, e que seu caráter virótico não deve ser desprezado. Pois a “Espanhola”, como gripe, se apresentou como uma anomalia dentre as várias espécies de vírus, o que nos fornece uma possibilidade ínfima de que volte a se repetir, mas que para seu tempo, em uma época de escassos recursos tanto na ciência bacteriológica, como de higiene e saúde para a população mundial, já atordoada pela guerra e pela fome, esta se processa de forma estarrecedora. Sua letalidade atinge geralmente pessoas com idade superior a cinqüenta anos e as de pouca idade, que são caracteristicamente as que possuem pouca resistência orgânica a infecções pulmonares.

Além disso outro fator de vulnerabilidade ante a enfermidade, é a debilidade orgânica, seja esta por doenças ou principalmente por subnutrição, onde as complicações podem ser fatais. Voltamos a alertar para a situação da humanidade neste período, a qual chegava esgotada ao final de uma Grande Guerra, onde a maioria de sua população encontrava-se desempregada e faminta, não importando as regiões, e com um cenário habitacional de extrema insalubridade. Tal fato se confirma se observamos descrições dos nossos centros urbanos de então, onde a maioria da população pobre e operária habitava “cortiços” desprovidos de quaisquer organizações higiênicas ou sanitárias, acusando altos índices de insalubridade, além de serem atingidas também pelas péssimas condições de trabalho nos estabelecimentos industriais de então. Os apontamentos médicos ainda citam que outra categoria de pessoas expostas a perigo maior são as de gestantes e bebês, que na maior incidência da gripe coincide com as de aborto e mortalidade perinatal como constataremos em nossas analises.

PAINEL DE 1918

Eram tempos no Brasil onde se discutia a saúde do Conselheiro Rodrigues Alves, a decisiva derrota alemã. O café seguia em alta, os negócios com minério, uma maravilha, e a exportação abarrotando os cais e armazéns.

Em Petrópolis, como não podia deixar de ser, a Grande Guerra era freqüentemente comentada nos jornais, que abordavam a influência da mesma no destino da sociedade mundial. Os pleitos eleitorais de março eram debatidos salientando-se a derrota do Partido Municipal. Ocorriam festivais artísticos promovidos pela Escola de Musica Santa Cecília, e as conferencias promovidas pelo Círculo de Imprensa, atingiam o clímax intelectual no município. Por outro lado, enquanto as indústrias locais participavam com sucesso na Exposição Industrial da Capital Federal, o que lhes abria grande mercado, se alastravam as greves em seus estabelecimentos mostrando a delicada situação social e trabalhista do operariado petropolitano, ante a exploração e opressão no interior dos estabelecimentos [8], situação que coincidia com a carestia dos gêneros de primeira necessidade.

[8] notas no jornal operário de então, A Ordem, de Bertho Antonino Conde, que abertamente denunciava as condições de opressão em que eram colocadas as operárias petropolitanas nas industrias locais
 


O célebre “31 de agosto”, não distava em muito na lembrança da comunidade petropolitana, quando alimentos escassearam e ocorreram estoques ilícitos por parte de inescrupulosos comerciantes, o que resultou em revolta, invasão e saque dos estabelecimentos por populares. Para agravo ainda maior deste quadro, é nomeado para o recém criado Comissariado Federal para Alimentação, o então presidente da Câmara Municipal de Petrópolis, Dr. Leopoldo Bulhões, personagem exaustivamente criticado pela oposição e acusado de envolvimento com as Associações de Comerciantes.

Neste clima de ebulição, Bertho Conde e Luciano Tapajós, advogado e médico, respectivamente, ambos jornalistas no Diário da Manhã e em O Comercio, escreviam artigos polêmicos em defesa do operariado ao passo que nestes e em outros periódicos locais, caso mais enfático da Tribuna de Petrópolis, se discutia acirradamente o crucial problema do Sistema Sanitário Municipal e o também polêmico Código Sanitário, cuja questão se originara na administração do Prefeito Oswaldo Cruz, herói da luta contra a febre amarela no Rio de Janeiro, e de polêmica postura na famosa “Guerra da Vacina”. Código este que foi posteriormente defendido pelo então Inspetor de Higiene de Petrópolis e também discípulo de Oswaldo Cruz, e autor do Código, o Dr. Antonio Cardoso Fontes, que encontrara inúmeras barreiras na comunidade petropolitana para aprovação deste.

PETRÓPOLIS: A QUESTÃO SANITÁRIA & A GRIPE

Não era a primeira vez que uma epidemia nos atacava, segundo estudos de Walter Bretz; em 1855, em apontamentos da Diretoria da Colônia, Petrópolis foi vitimada pela pandêmica “Cólera Morbus”, trazida ao Brasil pela embarcação portuguesa “Defensor”, que aportou no Ceará lotada de coléricos.

Ao invadir a cidade a pandemia, assolou intensamente o bairro do Bingen, à época o mais pobre de Petrópolis, e com uma população essencialmente de colonos. O número de habitantes então era estimado em aproximadamente cinco mil pessoas, sendo que destas, oficialmente 360 foram dadas como infectadas, alcançando a cinqüenta o número de mortos[9]. Já à época, segundo palavras de Bretz, o aparelho sanitário da então colônia era extremamente deficitário [10]. Quanto a “espanhola”, esta apareceu na primeira quinzena de outubro de 1918, sendo que sua primeira vitima fatal foi o prof. João de Deus Filho, falecido no dia 19. Até então, nosso índice de mortalidade era o de uma média de aproximadamente 260 óbitos por trimestre, sendo detectável nesta, a maioria de ordem de doenças do aparelho respiratório, com grande incidência para a tuberculose, e resultando em uma proporção de 2 a 3 por dia, e atingindo no trágico quarto trimestre de 1918, a média de 12 óbitos diários. Isto, em uma população que era estimada à época em vinte e cinco mil habitantes [11].

[9] Boletim da Diretoria da Colônia.
[10] In, Reminiscências Petropolitanas, Tribuna de Petrópolis, 15-12-1918.
[11] Pesquisa realizadas nos relatórios publicados pela Tribuna de Petrópolis, e confirmados segundo avaliação dos óbitos do período depositados no Arquivo Histórico Municipal.

 


Antevendo-se ao infausto acontecimento, grupos da cidade lutavam pela aprovação do Código Sanitário do Dr. Cardoso Fontes, sendo que em 25 de julho em sessão ordinária na Câmara Municipal, o projeto do código que continha 182 artigos é encaminhado, entrando na pauta de discussões no dia 29. Trava-se então pequena batalha na comunidade por sua aprovação. A Liga do Comércio após uma rápida análise aprova-o e colabora. Na imprensa forma-se um bloco de defesa e apoio, contrapondo-se às críticas que se vinham processando no seio da comunidade, pois muitos dos artigos deste código diziam respeito a um zeloso policiamento sanitário de maneira maliciosa diziam ser um atentado à intimidade do indivíduo e de sua família, propaganda idêntica a realizada contra Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro. Na realidade ele ia de encontro aos interesses de escusos comerciantes, os de caracteres de "fundo de quintal" onde alimentos e até carnes-verdes [12], sem quaisquer processos de fiscalização em seus recursos higiênicos de produção e venda eram comercializados livremente para prejuízo da população. Junte-se a isto o problema dos estábulos o de produção e distribuição de leite, cujas fontes eram vacas doentes e em sua maioria vadias, isto em tempo onde a febre aftosa começava a grassar. E o da fiscalização sanitária nos cortiços que careciam de qualquer organização higiênica. "... apesar das qualidades naturais, nós não possuímos higiene. É dura a verdade. Petrópolis tem-se conservado indene de epidemias por puro milagre..." [13]

[12] Carne-verde, era a denominação para carne-fresca na época, dos Matadouros Municipais brasileiros, o que havia de mais higiênico e sanitário em termos de abate com controle das autoridades públicas.
[13] O COMÉRCIO, 26-09-1918, In, A Junta de Higiene

 


Já surgiam inúmeros casos fatais de "Espanhola" no Rio e em Niterói, e a Tribuna de Petrópolis, em 3 de outubro, como que em tom de alerta publica em sua primeira página longa entrevista com o bacteriologista e sanitarista, Dr. Cardoso Fontes: "... Entre nós não vejo motivos para receios tão grandes... mas nem por isso devemos ser menos cautelosos... - Devemos não descurar o problema da higiene pessoal e domiciliar. Isso é importantíssimo. Nós vemos que a maioria dos casos fatais se têm dado em lugares poucos limpos e onde é grande a aglomeração de pessoas ..." Fala da necessidade de recursos para a organização do serviço municipal de higiene, ressaltando a importância da aprovação do Código para um efetivo combate, e que aprovado, em trinta dias de repartição estaria funcionando com regularidade e em quatro meses de trabalho observaríamos os resultados. Para reforçar a proposta ele acrescenta: "... breve publicaremos o boletim demográfico sanitário cujas cifras são assustadoras, ... inacreditável: em Petrópolis no mês de fevereiro, o índice de mortalidade foi de 30,48 por 1000 habitantes, em março de 25,41. A média costuma variar entre 10 e 14 por 1000. Somente em cidades reconhecidamente insalubres ela atinge os números que aqui se observam". Já seguiam de forma alarmante as informações sobre a epidemia no Rio de Janeiro; em 11 de outubro, se apresenta em Petrópolis o primeiro caso. Um soldado do 5o. Batalhão do Exército, que se encontrava em visita a sua família em Cascatinha, adoece. Os jornais, alertam: “... A ser verdadeira a informação, compete a Inspetoria de Higiene tomar providências a fim de que o mal não se propague..."[14]

[14] DIARIO DA MANHA, 11 de outubro de 1918
 


No dia 12 estende-se a possibilidade de oito casos. Daí em diante, as notícias não são nada agradáveis, pelo contrário elas tornam-se alarmantes. Somente no dia 16 a Inspetoria toma a iniciativa de desinfectar casas onde existiam enfermos. O mal já se alastrava no meio operário, nas fábricas São Pedro de Alcântara e Dona Anna (Morin) alguns já haviam se retirado para suas residências já se calculando em cerca de 200 pessoas atacadas em toda a cidade. Na imprensa dominavam as receitas médicas "caseiras" ou não. Em sua maioria essencialmente de higiene pessoal, além dos de uso medicinal como: gargarejo com solução de ácido tímido ou suco de limão, óleo gomenolado ou vaselina mentolada, sal de quinino ou pastilhas, lavagem intestinal de malva com macela, emplastos de farinha de linhaça com mostarda, camomila, soluções homeopáticas para dores, chá de sabugueiro com caroba e casca de limão galego, entre muitos outros. Republicavam-se também receitas já estampadas em jornais cariocas [15]. Se por um lado alguns jornais impressionavam a população com notícias alarmantes e de influência na opinião pública, outros procuravam amenizar o efeito não acentuando a gravidade: "...o receio que tanto abate o moral predispondo para aumentar as condições de receptibilidade de certos indivíduos, deve se transmudar na sensata resignação de se suportar alguns dias de incômodo"[16] Porém a realidade já ia bem outra, onde os exageros chegavam à estranha profilaxia pelo álcool, - cálices de aguardente com limão, habituais - o que conduzia a uma depressão acentuada, e em uma análise dos óbitos [17] do período encontraremos alguns determinados pela ingestão excessiva de álcool.

[15] como o JORNAL DO COMÉRCIO
[16] in, DIÁRIO DA MANHÃ
[17] atestados de óbito sob guarda do Arquivo Histórico Municipal

 


As medidas tomadas pela administração munícipe em conjunto com a Inspetoria de Higiene foram no sentido de impedir o alastramento da moléstia e fornecer os primeiros socorros a população. A primeira foi a de fechar as escolas municipais e estaduais (estas em telegrama enviado ao Presidente do Estado), a nomeação imediata dos Srs. Hugo Silva e Vital Fontenele para auxílio do Dr. Cardoso Fontes, e reabertura do Hospital de Isolamento e recolhimento para o mesmo dos enfermos mais pobres. No Palácio da Prefeitura é criado um posto de urgência onde além de atuar o Dr. Hugo Silva, auxilia o Dr. Ernesto Tornaghi, onde a prestação de socorros se realizaria, podendo ser tanto na via pública como a domicilio. Porém estas medidas não bastavam, a situação da população era extremamente delicada ante o momento de crise e excessiva carestia, não podendo assim a maioria comprar os medicamentos indispensáveis ao tratamento. A ajuda oficial fez-se então por intermédio do Comissariado para Alimentação, que publicou no Diário Oficial, de 17 de outubro, tabela exclusiva de gêneros de primeira necessidade, mandada executar pelo comissariado em nosso município [18]. Na Delegacia de Polícia vários detentos são vitimados. Em Pedro do Rio e demais distritos, já se acusam diversos casos, o que já demonstrava a extensividade do mal no município. Vários falecimentos já se faziam sentir, inclusive dos que não conseguiam obter assistência médica [19].

[18] DIÁRIO DA MANHÃ, 18-10-1918
[19] DIÁRIO DA MANHÃ, 19-12-1918

 


Insistentemente a Tabela de Preços do Comissariado continua a ser publicada, devido ao seu não cumprimento. E para prejuízo do aparelho sanitário da cidade três médicos contraem gripe: Paulo Figueira Mello, Aroldo Leitão da Cunha e Paula Buarque. Ante esse fato, e o de que outros médicos se encontravam ocupados em suas clínicas particulares, o Prefeito Dr. Oscar Weinschenck, solicita à Diretoria Geral De Saúde Pública Do Rio De Janeiro a vinda de três residentes, o que não se consuma, em virtude dos acontecimentos no Rio de Janeiro serem de maior gravidade e o de que toda classe médica local ser extremamente necessária. Em contrapartida, Weinschenck, chama quatro praticantes de farmácia em Juiz de Fora, e abre outros postos médicos na cidade. Petrópolis começa a parar, suas fabricas se encontram fechadas, inúmeras casas comerciais com suas portas cerradas. É suspenso o serviço telefônico para o Rio, o jornal Diário da Manhã se vê obrigado a deixar de circular, é um dos primeiros jornais a parar e consequentemente não voltando mais a ser impresso. Filas nas farmácias e drogarias: na Fluminense de Rubens de Andrade, na Hanemanianna, de M. J. Costa, na de Oliveira Leite, na Macieira de Barrozo Jr. e na Homeopática do Dr. Murtinho. Nos indicadores de serviços e classificados dos jornais, dominavam os anúncios farmacêuticos e de laboratórios. Anúncios de vendas de terrenos, residências e aluguéis - o que caracterizava a fuga, ao lado de extensos obituários. O Comércio em sua edição de 7 de novembro, assinala ser a primeira semana de novembro mais aguda, chegando segundo seus registros a uma média de 36 óbitos nos dias mais graves. O Dr. Cardoso Fontes também contrai a doença, ao passo que a Inspetoria De Higiene vê sua ação estendida além de seus limites - Meio da Serra e Magé [20]. O flagelo era evidente, e a ciência médica vivia seu grande momento de incerteza no combate ao mal. Isolação do vírus? Vacinação ou não? Não havia pão e os açougueiros se viam na impossibilidade de fornecer carne, era a fome que se associava. Ocorria a fuga dos cariocas, e com esta o rastilho epidêmico aumentava. No Rio cadáveres abandonados nas estradas em princípio de decomposição, nos cemitérios vários corpos aguardando a sepultura e que com o calor inchavam e arrebentavam os caixões, expondo-se as vísceras [21]. Em Petrópolis também não diferia a situação, a crise afeta aos cemitérios que sem coveiros se via num tráfego intenso e contínuo de caixões. Nos últimos dias de novembro, já se conta com o estertor da epidemia, o número de falecimentos começa a entrar em queda, registrando-se a média diária de 10 óbitos [22].

[20] O COMÉRCIO, 14-11
[21] in, J. SOARES d'AZEVEDO, Revista Vozes, dezembro de 1918.

[22] O COMÉRCIO.

 


Em dezembro já se mostrava modificado o quadro, com o restabelecimento de muitas das atividades publicas, é a volta a normalidade nos serviços e na vida da comunidade. Porém ficam as cicatrizes no enlutamento de diversas famílias e da sociedade em geral, onde permaneceram cenas muitas vezes macabras, dolorosas e inesquecíveis. Como sintomas desta "normalidade" observamos a pronta aprovação do Código Sanitário por parte dos vereadores, e resultados surpreendentes da atuação do mesmo: "Fiscalização surpreendente da polícia sanitária, fechando estabelecimentos, fiscalizando domicílios públicos e particulares, vacinando, desinfectando, e atuando com rigor no MATADOURO MUNINCIPAL". [23] E os óbitos de janeiro publicados de forma vitoriosa nas primeiras páginas, a confirmar falecimentos por moléstias transmissíveis 20, e por não transmissíveis 32. "Era a calmaria".

[23] Noticiário dos jornais

 


RESULTADO: DADOS ESTATÍSTICOS

Os dados veiculados pela imprensa foram realmente impressionantes havendo até quem os avaliasse a milhares, no que foi necessária a interferência da Inspetoria de Higiene, oficializando os números segundo suas próprias fontes, em publicação dos Boletins De Estatística Demográfico Sanitária [24], onde verificamos um relativo atraso, pois a publicação se realizava trimestralmente com regularidade. Passemos a analise do próprio: os dados disponíveis no boletim abrangem os meses de outubro, novembro e dezembro de 1918, coincidentemente o referido trimestre assolado pela epidemia. Situa o índice de óbitos em um total de 648, sendo que destes 425 referentes somente a cidade, Petrópolis propriamente dita, e o restante entre os distritos - notando-se que São José do Vale do Rio Preto alcançou o mais alto índice entre estes, 116. O coeficiente anual de óbitos por cada 1000 habitantes, em setembro fora de 7,61, passando para em outubro a 31,80 e alcançando o fantástico número de 71,53 em novembro, entretanto em seu último mês descendo a 13,76. Ao procurarmos apurar a seriedade dos dados, tentamos refazer a contagem dos mesmos nos atestados de óbito que se encontram depositados no Arquivo Histórico Municipal, para nossa surpresa este índice sobe a 760. Além de atestarmos uma enorme alta nos falecimentos registrados por doenças aéreas, tais como bronco-pneumonias, tuberculoses, e outras. Também constatamos uma excessiva taxa de natimortos, casos de raquitismos (raridade), ingestão excessiva de álcool, três suicídios e alguns falecimentos de ordem desconhecida, o que caracteriza que o registro ultrapassa o número de vítimas de ordem direta que foram atacadas pelo infausto, porém comprovando a maneira como e sobre a mesma ocorreu e repercutiu [25]. Porém o que realmente chamou a atenção no decorrer desta pesquisa dos dados foi nos depararmos com o número elevado no período de pessoas de classe alta cujo atestado de óbito registrava falecimentos por doenças aéreas, tais como bronco-pneumonias, tuberculoses, e outras. Na época muitas bronquites registradas como “capilares”, eram casos clássicos para dissimular uma morte por “espanhola”, isto, pois a grande maioria que morria vitima da gripe era de origem miserável, sendo classificada a principio como “doença de pobre”, o que evidenciava o preconceito de então. Este fato na data da publicação do artigo, meados dos anos 80 do século XX, coincidiu com o preconceito evidenciado e constatado pela maioria das famílias de classe alta no mundo com relação a morte pela “aids” que era ao tempo classificada como "doença de homossexual” [26].

[24] Tribuna de Petrópolis, 12-06-1919
[25] Nota do Autor em 2003
[26] I
dem

 


BIBLIOGRAFIA
Fontes Primárias:
- REGISTROS DE ÓBITOS dos anos de 1917 a 1919, pertencentes ao ARQUIVO HISTÓRICO MUNICIPAL;
- RELATÓRIO DA DIRETORIA da Colônia Imperial de Petrópolis, MUSEU IMPERIAL;
- CÓDIGO SANITÁRIO de 1919, BIBLIOTECA MUNICIPAL;
- JORNAIS pertencentes à HEMEROTECA PÚBLICA do ARQUIVO HISTÓRICO MUNICIPAL;

Fontes Secundárias:
- VÁRIOS, Coleção de publicações da COMEMORAÇÃO DO CENTENÁRIO DE PETRÓPOLIS, Petrópolis, 1943, BIBLIOTECA MUNICIPAL;
- ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de, PEQUENA HISTÓRIA DO BRASIL, Ed. Paz e Terra, RJ, 1982;
- VERONESE, Ricardo, DOENÇAS INFECCIOSAS E PARASITÁRIAS, Guanabara Koogan, RJ, 1972.

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