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25/05/2001
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Revista do IHP
volume 6 - 1989

UM SUBLIME ATO DE FÉ - A MORTE DE D. PEDRO DE ORLEANS E BRAGANÇA EM 29-1-1940

Nelson de Sá Earp

Quando chegamos à casa da Família Imperial, D. Pedro iniciava os seus últimos momentos que muito rápidos seriam.

Deitado sobre um grande sofá, logo na sala de entrada de sua casa, repousando a cabeça sobre uma grande almofada, agasalhado por um cobertor em desalinho, o colarinho aberto, a gravata apenas afrouxada, conservando ainda o laço feito, D. Pedro, agonizante, dava mostras de que não previra para aquele dia o acidente que iria roubar-lhe a vida em poucos minutos.

Homem de fé absoluta, conhecendo que esse dia podia chegar a qualquer momento, D. Pedro mantinha sua alma em estado de contínua união com Deus. Sabia assegurada a vida eterna. Por isso, não temia a morte e à vida terrena dava o sentido cristão de prova e de peregrinação, a qual vida abandonaria a qualquer momento não sem saudades e profundo sentimento, pois muito amoroso era o seu coração de esposo e pai, mas, que compreendia dever ser vivida com entusiasmo e com alegria até o fim.

Não era apegado a vida natural, embora essa lhe fosse relativamente fácil e cheia de venturas. Preferia encerrá-la naturalmente, embora encurtada de alguns anos, do que arrastar-se artificialmente, egoisticamente, numa velhice onde iria avultar a imobilidade, a tristeza e o acabrunhamento.

Passava pela terra para ir para o céu. Importava pouco saber o momento da viagem quando tinha a certeza de que a qualquer instante poderia realizá-la tranquilamente. Tinha sua consciência tranquila, por isso, o espectro da morte jamais o atormentou. Poderia vir a qualquer momento, que estaria preparado.

E assim aconteceu.

Reunida toda a família, momentos antes, gozando do prazer de um espetáculo cinematográfico, palpitando os corações na leveza de um divertimento ameno e simples, em que tudo respirava vida e movimento, ei-los instantes depois achegados em volta do querido chefe que agoniza.

A subitaneidade do mal os confunde por um instante.

No entretanto, o senso da realidade, a firmeza da fé, a vida sobrenatural pulsante naqueles corações, não os abandona naquela hora trágica, chocante, imprevista.

O fato natural da luta entre as forças da vida e da morte, por eles presenciada dolorosamente, não suplantou a realidade sobrenatural. Notava-se em todos a exata compreensão da gravidade do momento. A confiança, a fé, dominaram até o fim. Não houve gritos, desespero, nem imprecações. A identidade de sentimentos com aquele que agonizava era perfeita: pulsava naqueles corações a mesma fé, o mesmo Deus.

Lágrimas, muitas lágrimas, soluços, e, tal como costuma ser nesses momentos em que há identidade de sentimentos, os membros da família não se falavam, olhavam-se, choravam, abraçavam-se uns aos outros.

À chegada do médico, o doente agonizava. Os irmãos mais moços apressaram a ajudá-lo. O exame, algumas injeções, mais algumas providências, mas havia chegado o fim: a vida perecera.

Quando o médico, olhado com ansiedade, depois de colocar o ouvido sobre aquele coração que acabara de pulsar, afirmou o falecimento, a suspensão da vida natural, após alguns momentos de justa aflição e profunda dor, de palavras dirigidas ao pai querido e de consolação a boa mãe presente, entrecortadas de soluços e de lágrimas sentidas, a realidade sobrenatural, a fé, se assenhorou daqueles corações.

Ajoelhados, ainda chorando, mas conformados, rezaram por quem minutos antes ainda vivia.

Todos que ali, naquela ocasião se encontravam, sentiram a grandeza daquela fé tão viva cujo centro era o próprio morto, a qual era bastante forte para conter os impulsos naturais de imprecação contra a morte.

E, assim postos, rezando, aguardaram a chegada do Vigário que iria ministrar os últimos sacramentos.

Naquela hora sublime, decisiva e difícil, a família reafirmou a identidade perfeita com seu pai.

Recebendo Deus diariamente em seu coração na comunhão diária, vivendo portanto em Deus, foi num ambiente de Deus e na Sua presença, em meio a orações de sua família que D. Pedro faleceu.

Bendito seja Deus, bendito tão grande morto, bendita tão santa família.

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