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18/07/2009

A presença de Santos-Dumont em Petrópolis

Manoel de Souza Lordeiro

Santos-Dumont viajava com muita freqüência. Em uma dessas viagens, procedente de Paris, chegou ao Rio em 2 de janeiro de 1914. Dois dias depois viajou para Petrópolis com a intenção de avistar-se com o presidente Marechal Hermes da Fonseca, que ali veraneava. Ao chegar à gare da Leopoldina, Santos-Dumont foi entusiasticamente aclamado, sendo saudado pelo presidente da Câmara, Artur Alves Barbosa, naquela oportunidade o chefe do Executivo.

Após um breve passeio a pé pelas ruas centrais, o inventor dirigiu-se ao Palácio Rio Negro, onde foi recebido pelo presidente. Após a entrevista, conduzido no carro presidencial, percorreu alguns pontos turísticos, indo depois para a residência de Paulo Frontin, na Avenida Koeler, onde lhe foi oferecido um almoço íntimo.

Em declarações à imprensa, disse o inventor que estava fascinado pela cidade, que conhecera em 1898. Comparou-a às cidades européias e disse estar surpreso com as manifestações que recebera, esperando permanecer na cidade por algum tempo.

Santos-Dumont voltou a Petrópolis no verão de 1918, hospedando-se no Palace Hotel e inscrevendo-se como sócio do Tênis Club (hoje Petropolitano F. C.) com o intuito de lá praticar aquele que era um dos seus esportes favoritos. Em frente ao Palace Hotel havia um terreno, autêntica ribanceira segura por touceiras de bambu, considerado, então, como impraticável para edificação. Mas não para Santos-Dumont, que resolveu adquiri-lo a qualquer custo. Procurou o proprietário do imóvel, Guilherme Rittmeyer, mas este não queria vendê-lo. O inventor era um homem obstinado, e tanto insistiu que acabou comprando o terreno, mais as casas que ali existiam, por dez contos de réis. Das casas, Santos-Dumont nem tomou conhecimento, o que queria era construir um chalé escondido entre os bambus. Já com a saúde bastante comprometida, o inventor era acometido de constantes crises nervosas e estava certo de que encontraria em Petrópolis a tranqüilidade de que necessitava. O passo seguinte seria a contratação do engenheiro Eduardo Pederneiras que elaborou o projeto e iniciou a construção, tudo sob a supervisão de Santos-Dumont, que não deixava escapar um mínimo detalhe. A construção da casa foi muito rápida e lá o inventor trabalhou como simples operário, ajudando dos alicerces à cobertura de folha-de-Flandres importada.

A “Encantada”, como passou a ser conhecida a residência da Rua do Encanto, revela muito da personalidade de Santos-Dumont, mostrando-o, inclusive, como um homem supersticioso (a escada, construída em meios degraus, impede que qualquer pessoa entre na casa com o pé esquerdo). Uma ampla sala servia-lhe, ao mesmo tempo, de biblioteca, escritório e quarto de dormir; no pavimento inferior, sua oficina e laboratório; em cima, o banheiro e uma espécie de água furtada. No terraço, encravado na cobertura, o observatório onde passava horas observando os astros. Na “Encantada” Santos-Dumont recebia seus amigos e dedicava-se a estudos e experimentos. Foi lá que escreveu seu segundo livro: “O que eu vi – O que nós veremos”. A casa, apesar de sua extrema funcionalidade, não possuía cozinha, o que o obrigava a sair para fazer suas refeições no Hotel Magestic, na Praça da Liberdade.

Arredio, fugia sempre dos jornalistas que pretendiam entrevistá-lo. A entrevista concedida ao “Jornal de Petrópolis” em 1924, foi conseguida à força em uma viagem de trem para o Rio. Não obstante, era um homem afável e extremamente educado, que tratava a todos com distinção.

Em suas compras, dava preferência ao comércio de Petrópolis. Na Joalheria Rittmeyer comprava jóias e consertava seus relógios; na Casa Xavier encomendava dúzias de camisas de cambraia branca; na Alfaiataria Corrêa & Filho, os ternos de casemira.

No verão de 1932, quando veraneava em Petrópolis, o presidente Getúlio Vargas foi à “Encantada”, não encontrando, porém, o inventor, que se achava em São Paulo naquela oportunidade. Santos-Dumont soube do fato e apressou-se em mandar uma carta ao Presidente, agradecendo a distinção. Santos-Dumont viria a falecer naquele mesmo ano, num hotel de Guarujá, no dia 23 de julho.

Por escritura de 6 de novembro de 1936, seus sobrinhos e herdeiros doaram à Prefeitura de Petrópolis a “Encantada” e o prédio dos fundos, com a condição de que ali fosse instalada uma instituição que perpetuasse a memória do inventor. No prédio dos fundos a Prefeitura instalou a Escola Santos-Dumont. Em 21 de março de 1943, por ocasião do centenário da cidade, o prefeito Márcio Alves inaugurou a Casa de Santos-Dumont como museu, em cerimônia presidida pelo Ministro da Aeronáutica Salgado Filho. Raul Pedrosa, da Associação dos Artistas Brasileiros, e Cláudio de Souza, do Pen Clube, estavam entre os presentes.

Abandonados, os imóveis da Rua do Encanto passaram à direção da Biblioteca Municipal em 1947, ocasião em que foram reformados, recebendo um tratamento que procurou restituir o seu aspecto original.

Um museu bastante procurado como uma das mais interessantes atrações turísticas da cidade, a “Encantada” é atualmente vinculada à Fundação Petrópolis de Cultura, Esportes e Lazer.

Santos-Dumont teve, ainda em vida, o reconhecimento pelos seus feitos, recebendo homenagens das figuras mais expressivas do mundo científico. Governos e entidades concederam-lhe tantas honrarias que seria fastidioso enumerá-las. A França concedeu-lhe a Legião de Honra em 1904, no grau de cavaleiro. Em 1929 promoveu-o ao grau máximo de Grande Oficial, o que é reservado a um seleto número de personalidades. Em 1913 uma homenagem que o tocaria profundamente: o Aero Clube de França manda erigir em Saint Cloud um monumento ao “Pioneiro da navegação aérea”. Sobre uma base de pedra, um Ícaro de bronze, de autoria do escultor Georges Colin. Comentário de Santos-Dumont: “Este monumento mandado erigir em Saint Cloud pelo Aero Clube de França me é duas vezes grato: - é a consagração de meus esforços e a homenagem que se presta a um brasileiro, refletindo-se sobre a pátria toda”.

Ao instalar o seu pavilhão na exposição internacional do Rio de Janeiro em 1922 (Petit Trianon, doado posteriormente à Academia Brasileira de Letras), o governo francês mandou colocar diante dele uma reprodução do monumento de Saint Cloud. Terminada a exposição, o governo francês ofereceu o bronze ao inventor. Imediatamente este mandou colocá-lo na sepultura de seus pais no cemitério de São João Batista, onde pretendia, também, ser sepultado.

Este homem extraordinário legou à humanidade um exemplo de coragem, desprendimento, perseverança e dedicação sem limites à causa da aviação. Dono de um excepcional caráter, é importante que sua memória seja preservada como um exemplo para as novas gerações.

Um decreto governamental conferiu-lhe a patente de Marechal do Ar, tornando-o, também, patrono da Força Aérea Brasileira. O título de “Pai da Aviação”, que a França já lhe tinha consagrado, foi tornado oficial por decreto de 1991, durante as comemorações da Semana da Asa, que culminam no dia 23 de outubro, Dia do Aviador.

Nas palavras de Rachel de Queiroz, “... aquele pequeno homem genial e torturado foi na verdade um dos maiores filhos de que pode se orgulhar o Brasil”.

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