digitação original: 11/05/1996

Relembrando amigos . . .

Lourenço Luiz Lacombe

JOSÉ KOPKE FRÓES

Quem diria que José Kopke Fróes foi duas vezes sócio do Instituto Histórico. Porque foi o único que teve duas propostas para o nosso quadro social. A 1ª. vez redigi em 10-12-48 a proposta, declarando ser ele “herdeiro de um nome tradicional , bibliotecário da Biblioteca Municipal, onde vem realizando uma obra, sob todos os pontos de vista, digna dos maiores encômios; pesquisador de nossa história local e colaborador  na imprensa da cidade” ... E obtive, sem dificuldade, as assinaturas de Guilherme Auler, Germana Gouveia, Américo Jacobina Lacombe, Francisco Marques dos Santos e Cláudio Ganns. Apoiado por estes  eminentes confrades, dei entrada no Instituto. Pois a 19 de fevereiro de 49, lavrou o então secretário  Luiz Afonso d’Escragnolle a sentença: Recusada, aposta no alto da página, sem dizer porque ... Vim a saber depois que ainda as velhas rixas da política municipal haviam adiado a entrada de José Fróes no nosso convívio ...

A 13-11-1952 propõe o então Presidente Leão Teixeira, José Fróes para sócio efetivo “na 1ª. vaga que se abrir” e estranha que “já deveria ter ingressado no Instituto” ...  Mas só a 30-10-54 o Presidente Mesquita Pimentel, declarando haver se verificado uma vaga, remete às Comissões estatutárias, que com muita efusão acolhem a proposta.

Fróes nasceu em Petrópolis, cidade pela qual tinha acendrado amor, a 16 de agosto de 1902, filho do prof. Gabriel Coutinho Fróes e Anita Kopke Fróes, sendo o pai o seu 1º. Mestre e educador, e em cujo colégio, instalado no atual Palácio Grão Pará, fez os seus estudos básicos, diplomando-se  mais tarde em odontologia, profissão que, de resto, nunca exerceu.

Aqui em Petrópolis foi trabalhador na Prefeitura Municipal, cuja Biblioteca dirigiu por mais de 30 anos - digo mal - não se limitando a dirigir aquela livraria, mas deu-lhe o caráter de biblioteca de Petrópolis, criando a seção Petropolitana onde procurou reunir tudo o que se escrevia e se publicava em Petrópolis e sobre Petrópolis. E era um encanto ver o carinho com que tratava aqueles livros. E também - e isso é muito importante - a preocupação de servir os estudantes: contou-me Miguel Pachá, que estudando na Faculdade de Direito da nossa UCP, sentia falta de livros técnicos das matérias curriculares. José Fróes adquiria as obras para a Biblioteca e punha-se à disposição dos alunos. Mas o horário desses alunos era incompatível com o expediente da Biblioteca. Fróes recebia os alunos à hora tardia e deixava-lhes a chave do prédio ( o velho prédio da Biblioteca) que eles trancavam, terminando o estudo, atirando a chave por debaixo da porta ...

A Biblioteca Municipal era a menina dos olhos de José Fróes. Foi ali que pretendeu instalar o prefeito Fiuza o Museu Histórico de Petrópolis, porque conhecia o amor de Bibliotecário pelo passado  e pelas tradições de Petrópolis.

José Fróes colaborou em todos os jornais da cidade, tendo, em certo tempo, redigido o Boletim do Rotary Clube.

Entusiasta do futebol, embora nunca tivesse jogado, foi um dos fundadores do Petropolitano Futebol Clube.

Mas há um aspecto da biografia de Fróes que merece ser destacado: numismata e filatelista. Sua coleção de medalhas e de selos era, de fato, preciosa. E ao lado disso formou uma preciosa coleção de fotografias de Petrópolis que, acredito, não haver outra igual. Com estas fotos montou várias exposições no saguão do prédio do Correio, atraindo grande número não apenas de curiosos, mas de interessados. O Museu Imperial compreendendo o valor desse documentário  iconográfico adquiriu-o para suas coleções, onde se encontra à disposição  dos petropolitanos em geral.

Entre as peças preciosas de seu arquivo, orgulhava-se de conservar uma grande cópia de documentos sobre Stephan Zweig, que visitava com grande assiduidade na sua  Biblioteca. 

A morte de José Kopke Fróes não foi só uma perda para o nosso Instituto; foi uma perda para Petrópolis.

JOAQUIM ALBERTO IRIA JÚNIOR

O correspondente Alberto Iria (que era o seu “nome de guerra”) entrou para o nosso Instituto em setembro de 1963, por proposta deste que vos fala e mais de Francisco Marques dos Santos, Carlos Werneck, Hélio Viana, Pedro Calmon, Leão Teixeira e Luiz Afonso d’Escragnolle. Diziam seus proponentes tratar-se de “ilustre historiador portuquês, residente em Lisboa, onde exerce as altas funções de Diretor do Arquivo Histórico Ultramarino, em cujo cargo tem evidenciado o maior interesse na aproximação espiritual e cultural entre brasileiros e portugueses.

O relator da Comissão de História, o Prof. Paulo Machado da Costa e Silva, declara que “ a inscrição do Sr. Dr. Alberto Iria, como sócio correspondente é uma honra que muito pode envaidecer o nosso Instituto pelo valor de tão ilustre pesquisador”.

Nessas elevadas funções colaborou, da maneira mais eficiente com o nosso Congresso de História Fluminense, realizado em julho de 1963, e que motivou seu ingresso no Instituto.

A colaboração de Alberto Iria a esse Congresso representa um grande esforço de pesquisa, apresentando uma “Relação de alguns processos de concessão de cartas de sesmarias na Capitania do Rio de Janeiro entre 1661 e 1771 (...)”.

É um trabalho de fôlego, como pelo título se observa, realizado por um grupo de funcionários especializados daquele arquivo, devidamente orientados pelo ilustre Diretor, e elogiado e louvado pelo Relator da Comissão respectiva, o nosso saudoso confrade, historiador Enéas Martins Filho, que declara constituir “a contribuição do Arquivo Histórico Ultramarino (...) documento fundamental para o estudo da História Fluminense”. Essa contribuição de Alberto Iria ao nosso Congresso está publicada nos respectivos Anais.

Alberto Iria  nasceu em Olhão, distrito da capital do Algarve, a 27 de dezembro de 1909. Cursou o Liceu - que é como chamam o curso secundário - na sua terra natal. Oriundo de família modesta, diz-nos o Prof. Viegas Guerreiro, num opúsculo no qual publicou o discurso proferido por ocasião de homenagem promovida pela Casa do Algarve, ao entregar-lhe solenemente o diploma de sócio honorário daquela instituição. Dessa publicação extraio os dados principais de sua biografia.

“Seu pai era homem do mar. Pescador, primeiro, mestre e dono de caíque, depois, que veio a afundar-se diante de Peniche”. Aperfeiçoou seus estudos com o Dr. Francisco Fernandes Lopes, que se comprazia em ensinar, sem preocupação de ganho ou retribuição. Daí voltou-se Iria à pesquisa histórica a que se dedicaria até o fim de sua vida. Cursou, por fim a Faculdade de Letras de Lisboa apresentando, no final do curso a tese A Invasão de Junot no Algarve, prefaciada pelo Conservador da Torre do Tombo, com palavras de apreço  e de compreensão pela precária situação econômica em que iria trabalhar.

Mas não era do feitio de Alberto  Iria ir em busca de cargos que lhe trouxessem recompensa pecuniária.

Da Torre do Tombo passou-se ao Arquivo Ultramarino onde alcançou  o posto de Diretor . Foi quando o conheci. Verdadeira ponte ou traço-de-união entre pesquisadores brasileiros e portugueses, lá os recebia a todos, fidalgamente - eu diria até humildemente, que é traço característico dos verdadeiros homens de ciência.

Providenciou minha ida a Vila Viçosa, Paço del Rei D. Carlos, que percorri em sua companhia, por delegação do Presidente da Fundação Casa de Bragança, que nos proporcionou um magnífico almoço num dia ensolarado mas sumamente frio.

Sempre procurava Alberto Iria quando tinha oportunidade de visitar Lisboa. Ainda da última vez que lá estive, fui recebido por ele e alguns amigos comuns no Centro Eça de Queiroz.

Pertenceu a várias associações culturais, como a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Portuguesa de História, e nesta ocupou vários cargos de Diretoria, chegando a presidi-la em certa época. Entre nós era correspondente do colendo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e nos honrava, a nós, do Instituto Histórico de Petrópolis, como seu prestigioso nome.

Do opúsculo a que me referi no início, tiro estas palavras finais:

“Não correu atrás de riquezas nem de ostentações. Nasceu pobre e pobre viveu. Pai amantíssimo, avô carinhoso, hoje quase só, em companhia da esposa, ralado de desgostos, de ingratidões, de desilusões, como a de não ver cumprida na terra portuguesa a justiça social cristã, com que sempre sonhou.

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