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10/06/2009

Boletim do IHP, Ano III, Números 6 e 7
Janeiro/Junho/2009

D. João (1) e seu amor pelo Brasil

Kenneth Light

A vida do nosso príncipe regente, rei e imperador titular não foi nada fácil.

No entanto, as suas duas maiores façanhas. por ter sido o único monarca que conseguiu driblar o homem mais poderoso da sua época, Napoleão, e ao mesmo tempo por ter mantido unida a sua colônia de tamanho continental que foi o Brasil, mostram que, sem dúvida nenhuma, foi um homem sortudo ou então, uma pessoa calma, ponderada, estrategista e inteligente.

Após muitos estudos por parte de historiadores, resultando na bem coordenada celebração do bi-centenário da transferência da família real e corte para o Rio de Janeiro, em 2008, não temos mais dúvidas: a figura de D. João, até então uma caricatura do que deveria ser um monarca, mudou e para sempre. Entendemos melhor o seu caráter, os seus pontos fracos e também os fortes. Após esta reavaliação ficou mais clara a sua participação em influenciar o futuro do Brasil, que vem a ser o nosso presente. Somos grandes devedores da sua capacidade, inteligência e visão.

Segundo filho da Rainha D. Maria (2), a sua infância foi relativamente calma e até pacata pois o irmão mais velho, José(3), estava sendo preparado para um dia assumir os deveres e responsabilidades de administrar o Império Português.

(1) D. João, 1767-1826, 27º Rei de Portugal.
(2) D. Maria I, 1734-1816, 26ª Rainha de Portugal.
 (3) D. José Francisco Xavier, 1761-1788.
 


Herdou a religiosidade da mãe e logo se entregou aos prazeres do canto gregoriano e o convívio com os monges. Hoje, é difícil acreditar mas, naquela época, Portugal era repleto de conventos. Marcus Cheke (4), biógrafo da Princesa Carlota Joaquina, escreveu que nada menos do que trezentos mil, de uma população de três milhões, estavam ligados aos cento e oitenta conventos e mosteiros então existentes.

Mas o destino muitas vezes prega o inesperado, e assim foi. Sucumbido pela varíola seu irmão, em 1788, veio a falecer. D. João poderia ainda esperar uma longa vida em segundo plano pois sua mãe só morreria de velhice em 1816. Mas, não foi o caso.

Os problemas resultantes de casamentos entre primos, como também entre sobrinhas e tios, logo veio à tona. D. Maria começou a apresentar sinais de instabilidade mental e, em 1785, aos 25 anos de idade, D. João teve que assumir o Império Português.

Como é que um príncipe regente, com poderes de rei absoluto, conseguiria esta façanha sem se ter preparado? É difícil de entender, mas foi o que aconteceu. E, se isto não bastasse, o seu reino coincidiu com um dos mais tumultuados períodos da história da Europa moderna - a era napoleônica.

Portugal, uma nação pequena – em todos os sentidos - com pequena área territorial e uma população também pequena, ficava ao extremo sul de uma Europa que acabava de sofrer um bombardeamento de novas idéias liberais, emanadas da revolução francesa. Não tinha sequer estrutura para se proteger de um futuro incerto. Mas, sob o leme do seu príncipe regente, D. João, conseguiu o inesperado e improvável, sobreviveu à fúria de Napoleão e até prosperou na sua colônia, Brasil.

Forçado pela invasão francesa do seu território e o bloqueio de seus portos pelos ingleses, D. João tomou a única decisão que restava para salvar a nação portuguesa – partir com a sua corte e bagagens para o Brasil.

(4) Cheke, Marcus, Carlota Joaquina: a rainha intrigante, Rio de Janeiro, J. Olympio, 1949.
 

 


Embarque em Lisboa, 29 de novembro de 1807
Óleo de Nicolas L. Albert Delerive, 1755-1815


Oliveira Lima escreveu: “... Retirando-se para a América, o Príncipe Regente, sem afinal perder mais do que o que possuía na Europa, escapava a todas as humilhações sofridas por seus parentes castelhanos, depostos à força, e além de dispor de todas as probabilidades para arredondar à custa da França e da Espanha inimigas o seu território ultramarino, mantinha-se na plenitude dos seus direitos, pretensões e esperanças. Era como que uma ameaça viva e constante à manutenção da integridade do sistema napoleônico. Qualquer negligência, qualquer desagregação seria logo aproveitada. Por isto é muito mais justo considerar a trasladação da corte para o Rio de Janeiro como uma inteligente e feliz manobra política do que como uma deserção cobarde ...” (5).

Fora uma aventura nunca antes realizada (6). O primeiro monarca europeu a atravessar o Oceano Atlântico! Não foi fácil devido ao desconforto por causa de pouco espaço e da falta total de banheiros, do enjôo devido ao balanço da nave nos ventos frescos do inverno no Atlântico Norte, da comida que era péssima mas ... os vinhos, embora sacudidos, continuavam excelentes – como o são até hoje!

(5) LIMA, Manuel de Oliveira, D. João VI no Brazil 1808-1821, vol .I, p. 37, Rio de Janeiro, Typ. do Jornal do Comércio, 1908.
(6) Light, Kenneth H., The Migration of Royal Family of Portugal to Brazil 1807/08; Log Books of HM Ships before the Tagus in November1807 and of those that took part in the Voyage to Brazil, Together with Reports and Letters from Captain James Walker of HMS Bedford, who escorted the Queen and the Prince Regent to Bahia, and Commodore Graham Moore of H.M.S. Marlborough, who escorted the Portuguese fleet to Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Edição Particular por Kenneth H. Light, 1995.
 


Enfim, após 48 dias de viagem (7), surgiu a primeira luz num túnel que parecia não ter fim. O Governador de Pernambuco, Caetano Montenegro (8), sabendo que a família real poderia passar ao longo da costa da região que ele administrava, mandou ao seu encontro uma embarcação com legumes e frutas frescas.

(7) LIGHT, Kenneth H., A Viagem Marítima da Família Real – A transferência da corte portuguesa para o Brasil, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2008.
(8) Caetano Pinto de Miranda Montenegro, Governador de Pernambuco, 1804-1817.
 


Quanta alegria este gesto deve ter provocado; e quais seriam aquelas frutas? Certamente muitas delas nativas e desconhecidas por parte dos europeus devido ao tempo que levava uma viagem à Europa. Essas frutas tropicais não chegariam em condições de serem saboreadas. Teriam sido talvez umbus, pitangas, jabuticabas e goiabas, quem sabe?

Acredito, que o tédio da viagem influiu na decisão de D. João de aportar em Salvador. Ele queria ver o seu povo, queria comer as frutas da terra, queria descansar após aqueles balanços no mar de mais de sete semanas. E os baianos o acolheram! Os comerciantes ricos ofereceram regalias, queriam que ficasse entre eles para sempre!

D. João sentiu-se encantado mas o seu destino era outro; e, quando na manhã de oito de março de 1808 - um dia lindo e inesquecível -, conforme relatou o Padre Luiz Gonçalves dos Santos (9), avistou a Baía de Guanabara em toda a sua exuberância, ficou maravilhado. Foi o início de um longo namoro com o Brasil!

Assim que chegou, projetou tornar a pequena cidade, que era então o Rio de Janeiro, com seus pouco mais de 50.000 habitantes (mais da metade eram escravos), a capital do seu império. Nada foi esquecido – instituições científicas, médicas e militares, biblioteca, jardim botânico, imprensa e até uma fábrica de pólvora na fazenda de açúcar de um tal Rodrigues de Freitas, nas margens da lagoa que hoje leva o seu nome e enfeita a zona sul da cidade.

Até o relacionamento com a sua mulher, a princesa Carlota Joaquina (10), melhorou. Ela nunca esqueceu que era espanhola e a deterioração nas relações entre Portugal e Espanha, se refletiam no seu casamento. Mas, o Rio era muito espaçoso e morando no seu palacete em Botafogo, deixava D. João em santa paz no seu palácio na Quinta da Boa Vista, Paço Real de S. Cristovão.

(9) Santos, Luiz Gonçalves dos, Memórias para servir à história do Reino do Brasil, Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1981. 2 v.
(10)
D. Carlota Joaquina, 1777-1830.
 

 

        
Palácio da Princesa Carlota Joaquina, Botafogo       Paço Real de S. Cristóvão, Quinta da Boa Vista


Em Portugal, os ingleses aos poucos conseguiam derrotar os franceses. Era o início de uma guerra que depois ficou denominada como ‘Guerra Peninsular’ e que só terminaria em 1815, com a batalha de Waterloo e o fim de Napoleão. Em 1810, D. João poderia ter voltado para Lisboa como quase todos os portugueses queriam, mas não o fez, por quê? Estava enamorado pelo Brasil.

Rodeado pela vegetação tropical, pouco ou nada o incomodava. As correntes turbulentas que sacudiam a Europa após a travessia do Atlântico aqui chegavam dissipadas das suas forças. Era o seu paraíso. O namoro com o Brasil aumentava.

Brasil colônia desde 1500, tornou-se o centro do império lusitano. Assim, em 1815, D. João achou por bem incorporar a colônia ao seu reino. Foi o início do “Reino de Portugal, Brasil e Algarves”. Passo decisivo para a formação do Brasil como país; agora dificilmente poderiam voltar atrás. Tudo cuidadosamente orquestrado pelo regente D. João.

Foram treze anos de muitas alegrias e contentamentos mas, a insatisfação em Portugal era alarmante e, como monarca consciente, ele decidiu que tinha que voltar à Europa e assim o fez.
 

       
Partida do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1821         Chegada a Lisboa, 4 de julho de 1821
      Desenho atribuído a J. B. Debret, 1768-1848            Gravura de Constantino de Fontes, 1777-1835


De antemão sabia que a sua vida em Lisboa não seria fácil; e não foi. Problemas com o filho, d. Miguel (11), e a sua esposa, D. Carlota Joaquina - agora fortalecida por estar mais perto da sua terra natal – tornaram sua vida turbulenta. Tinha muitas saudades dos anos tranqüilos vividos no Brasil!

(11) D. Miguel, 1802-1866, 29º Rei de Portugal.
 


Em 1826, cinco anos após o seu retorno, veio a falecer.

Em um dos seus últimos gestos, insistiu que constasse no tratado de separação assinado em 1825, que ele seria também Imperador do Brasil, mas Titular isto é sem poderes administrativos. Depois, fazia questão de assinar os documentos oficiais: João - Rei e Imperador.

Foi a forma muito simpática de declarar seu amor pelo Brasil!

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