digitação original: 13/09/2000

Tribuna de Petrópolis: 02 e 09/11/1997

Revisado, reformatado e inserida imagem:
20/11/2008

A VIAGEM DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL, 1807-1808

Kenneth H Light

Em novembro deste ano comemoraremos 190 anos de um dos mais importantes eventos da História Luso-Brasileira: a viagem do Príncipe Regente D. João, a corte, e todos aqueles que encontraram lugar em um dos 36 navios, para o Brasil. Talvez um total de 12.000 a 15.000 portugueses.

A decisão sábia deste grande estadista, que foi D. João, teve conseqüências positivas para Portugal, Brasil e Inglaterra. Apenas a França lamentaria o evento.

Ao contrário de outros países invadidos por Bonaparte, a sua decisão salvou a própria essência da nação portuguesa - a sua Família Real e corte - que sobreviveu incólume, manteve seu reino e até mesmo prosperou em sua rica colônia.

A presença da monarquia portuguesa no Brasil acelerou seu desenvolvimento; uma vez criado o Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil em 1815, a independência tornar-se-ia inevitável.

A Inglaterra, após vários meses de bloqueio do Tejo, apoiada na Ilha da Madeira, atacaria as tropas francesas em território português e, após derrotá-las, continuaria a guerra até a batalha final em Waterloo. A abertura dos portos, promovida por D. João, logo após a sua chegada em Salvador, traria grandes benefícios.

Devido à falta de documentação, detalhes desta importante viagem, até há pouco tempo, eram totalmente desconhecidos. Agora tudo mudou, pois foram descobertos no Arquivo Nacional de Londres, os livros de quartos de todos aqueles navios que bloqueavam o Tejo em novembro de 1807 e daqueles que escoltaram a esquadra portuguesa na sua jornada.

Os livros, escritos a mão muitas vezes debaixo de severas tormentas no mar, refletem o inglês da época e a terminologia única da Marinha britânica. O trabalho de decifrá-los levou cinco anos e, mesmo sendo orientados para os navios britânicos, é praticamente a única documentação com detalhes que sobreviveu.

Em 1995, ao completar a pesquisa, publiquei este trabalho que hoje se encontra em bibliotecas, universidades e museus, no Brasil, Portugal, Estados Unidos, Inglaterra e Espanha; especialmente onde concentra-se o estudo da História Luso-Brasileira.

Em 1807 a França tinha derrotado todos os seus adversários, com exceção da Inglaterra. Esta tinha frustrado a tentativa francesa de invadi-la, pois dominava os mares após a batalha de Trafalgar em 1805.

O bloqueio continental, introduzido pela França em 1807 como forma de pressionar economicamente a Inglaterra, era quase total; apenas faltava a adesão de Portugal. Em novembro daquele ano, mesmo após ter implantado as medidas exigidas pela França contra seu aliado tradicional - a Inglaterra -, Portugal encontrava-se sem alternativas. Sua fronteira terrestre estava invadida pela França e pela Espanha, que marchavam rumo a Lisboa. Em retaliação às medidas tomadas contra os seus súditos, um esquadrão britânico, sob o comando de Sir William Sidney Smith, mantinha o Tejo sob bloqueio. França e Espanha tinham, a 27 de outubro, assinado o tratado de Fontainebleau; Portugal deveria ser repartido em três e entregue aos invasores. A gota d'água, foi a entrevista com Bonaparte publicada no Le Moniteur de 11 de novembro, na qual Bonaparte deixava claro o que iria acontecer com a Família Real de Portugal, quando suas tropas lá chegassem. O jornal chegou às mãos de D. João, vindo da Inglaterra no Navio de Sua Magestade Plantagenet, a 24 de novembro.

O Conselho de Estado, presidido pelo Príncipe Regente, a 24 novembro tomou a decisão de partir para o Brasil. A inteligência de D. João revelava-se mais uma vez; os navios da esquadra estavam todos prontos. Durante os seis meses anteriores, a viagem tinha sido organizada, sem levantar suspeitas junto a França ou Espanha. Outro trunfo era o convênio que tinha sido assinado, a 22 de outubro. A nação que dominava os mares escoltaria a esquadra portuguesa na sua jornada.

A 27 daquele mês, pela manhã, a Família Real embarcou. Ela estava assim distribuída:

no "Príncipe Real": Rainha D. Maria I, Príncipe Regente D. João, Príncipe da Beira infante D. Pedro, seu irmão infante D. Miguel e o infante da Espanha D. Pedro Carlos;

no "Afonso de Albuquerque": Princesa do Brasil D. Carlota Joaquina, com suas filhas, infantas D. Maria Isabel Francisca, D. Maria da Assunção, D. Ana de Jesus e Princesa da Beira infanta D. Maria Tereza;

no "Príncipe do Brasil": a Princesa viúva D. Maria Francisca Benedita e a infanta D. Maria Ana, ambas irmãs da Rainha;

e no "Rainha de Portugal": as filhas de D. Carlota Joaquina, infantas D. Maria Francisca de Assis e D. Isabel Maria.

Na noite do dia 28 o vento mudou de direção, agora soprava do sudeste, permitindo a saída do Tejo. Cedo, no dia 29, os navios começaram os preparativos para a viagem: levantar o ferro e guardar o cabo, colocar mastros e vergas em posição, soltar velas e receber a bordo o prático do rio.

A partida não poderia ter sido adiada, pois apenas 18 horas depois, Junot, comandante das tropas francesas, alcançaria Lisboa.

Hoje, nosso conhecimento dos navios que empreenderam esta viagem é quase nulo. Prova disto é a resposta correta para uma pergunta relativamente simples - o trabalho de levantar o ferro, amarrá-lo na proa e guardar o seu cabo, ocuparia quantos homens? A resposta correta, que poderá surpreender muitos, é 385 homens! Também desconhecemos a qualidade das refeições, a medicina e a higiene a bordo, o tédio, o perigo e as incertezas do futuro.

Devido ao espaço limitado, somente aqueles fatos novos ou diferentes daqueles que foram escritos anteriormente estão incluídos neste artigo. Vale a pena lembrarmos que, até então, tudo que foi escrito sobre a viagem, foi escrito por observadores em terra; agora podemos ser observadores no mar!

Ao sair do Tejo, a esquadra portuguesa encontrou-se com o esquadrão britânico. Este esperava, velejando em linha de batalha, com todos os navios prontos para o combate. Até pouco, Portugal e a Grã-Bretanha encontravam-se em guerra. Sir Sidney não queria correr qualquer risco. Somente após um diálogo amistoso, houve a troca de salvas.

A jornada começou com os navios velejando rumo ao noroeste, pois os ventos de tempestade do sudeste não permitiam outra alternativa. Uma vela no mastro real era suficiente para manter a velocidade, evitando que as ondas atingissem a popa. As peças mais altas dos mastros (mastaréo, mastaréo do joanete e vergas) foram desarmadas e amarradas no convés, para reduzir o centro de gravidade. Este rumo era mais confortável e menos perigoso, do que aproar os navios rumo a Ilha da Madeira e receber o mar de través; mesmo assim ficaram submetidos à arfagem. O navio-capitânia britânico, o "Hibernia", ao anoitecer registrou 56 navios à vista.

No terceiro dia, com a mudança na direção do vento, foi possível mudar o rumo; no dia seguinte atravessaram a latitude de Lisboa, indo em direção a Madeira. Eram 18 navios de guerra portugueses, 13 navios britânicos e 25 navios mercantes.

A 5 de dezembro, aproximadamente a meio-caminho entre Lisboa e Funchal (Madeira), parte do esquadrão britânico, após a troca de salvas com a esquadra portuguesa, alterou rumo para voltar ao bloqueio de Lisboa. O pequeno esquadrão de 4 navios, "Marlborough", "London", "Bedford" e "Monarch", sob o comando do comodoro Graham Moore (capitão do Marlborough), continuaria escoltando a Esquadra portuguesa até o Brasil.

A 8 do mesmo mês, com receio de aproximar-se, à noite, de um perigo conhecido como "Oito Pedras" que fica ao norte de Porto Santo (Madeira), a esquadra portuguesa parou. O "Marlborough" e o "Monarch" também pararam.

Durante a noite com visibilidade muito reduzida devido à chuva, o "Príncipe Rea"l e o "Afonso de Albuquerque" partiram com suas fragatas rumo noroeste (novamente o vento soprava sudeste) sem dar qualquer sinal. O resultado foi que, na manhã seguinte, encontravam-se velejando escoteiro o "Príncipe Real" com a fragata "Urânia", o "Afonso de Albuquerque" com a fragata "Minerva" e o "Bedford". Ainda parados no mesmo local, o "Rainha de Portugal", o "Conde D. Henrique", o "Marlborough" e o "Monarch".

Todos os comandantes agora tomaram a decisão correta. Partiram para os rendez-vous previamente combinados: sucessivamente, oeste da Madeira, ao largo da Ilha de Palma (Canárias), e Praia, na Ilha de S. Tiago (Cabo Verde). A 11 de dezembro, o "Príncipe Real" e o "Afonso de Albuquerque", que basicamente tinham seguido o mesmo rumo, se encontram. A 14 de dezembro, o "Bedford" avistou-os e, no dia seguinte, pôde anotar que viajavam "em conserva".

A 21 de dezembro, D. João informou o capitão James Walker ("Bedford") que tinha decidido ir, sem parar, ao Brasil. O andamento da esquadra era razoável e não faltavam água ou mantimentos. Naquela noite, o "Minerva" fôra enviado a S. Tiago para avisar os demais navios da decisão do Príncipe Regente.

Os quatro navios, que tinham passado a noite parados perto da Madeira, entraram para fazer aguada em S. Tiago a 24 de dezembro e lá encontraram o "Minerva". O "London", que tinha sido enviado para fazer aguada em Madeira, fundeou dois dias depois.


A 27 de dezembro, partiram com destino a Cabo Frio, distante 823 léguas. Tinham conhecimento que os navios, com a Família Real, velejavam num rumo paralelo ao leste. Assim, diariamente, ao alvorecer, o "Monarch" recebia sinal para deslocar-se para o horizonte no sudeste, aumentando desta forma a área sob observação. À noitinha, recebia sinal para voltar, evitando perder-se na escuridão.

A 2 de janeiro de 1808, "Bedford" reportou que estava avistando três navios no horizonte. A falta de vento e o fato de que era o único navio de escolta junto à Família Real, impedia-o de investigar. Naquela noite, colocou uma luz azul no topo do mastro. O livro de quartos do "Marlborough" registra, às 11h30 da noite, que viu uma luz azul no horizonte. Ao meio-dia, as tomadas de posição dos dois navios mostram uma diferença de 5 minutos de latitude e 1 grau e 5 minutos de longitude. Podemos hoje ter a certeza de que as duas esquadras, que viajavam independentemente, pelo menos durante a noite, estavam a vista uma da outra e, por pouco, não se encontraram. Caso tivesse ocorrido, será que D. João teria ido à Bahia, onde assinou a "abertura dos portos"? Como teria se desenvolvido a História?

Os navios com a Família Real a bordo, aproximando-se do equador, entraram numa área de calmarias lá existente. Levaram 10 dias para galgar 30 léguas (esta distância levaria 10 horas com um bom vento). Após as calmarias, o vento continuou vindo do sudeste, não permitindo que os navios desenvolvessem uma velocidade regular. A 16 de janeiro, o "Príncipe Real" arvorou sinal, dirigido ao "Bedford", que tinham mudado de planos: alterariam o rumo para poder entrar na Bahia. Neste mesmo dia, o "Urânia" interceptou o brigue "Três-Corações", enviado pelo Governador de Pernambuco, com frutas e verduras frescas.

A 22 de janeiro de 1808, após 54 dias no mar, fundearam em Salvador. O "Príncipe Real" levava 1.054 pessoas a bordo. A primeira etapa da viagem havia terminado. Alguns dias antes, a 17 de janeiro, os navios que tinham velejado diretamente de S. Tiago entraram no Rio de Janeiro.

Aos poucos, todos os navios foram chegando: o "Medusa", bastante avariado, entrou no Recife a 13 de janeiro; o "D. João de Castro", avariado e fazendo água, fundeou, no início daquele mês, na Enseada de Lucena (Paraíba).

Enfim, embora severamente castigados pelas sucessivas tormentas de inverno, que causaram avarias consideráveis, todos os navios chegaram ao seu destino. Isto reflete a qualidade dos oficiais e das guarnições, assim como do projeto e da construção dos navios; a experiência de vários séculos navegando regularmente através dos oceanos, em condições de tempo variadas.

Em Salvador, os navios preparavam-se para a segunda etapa da viagem: consertos, recebimento de mantimentos, animais vivos e água ("Bedford" terminou a viagem com 75 toneladas, o suficiente para mais 6 semanas). A Família Real, a 23 de janeiro, desembarcou; a Rainha seguiu no dia seguinte. A 30 daquele mês, o Príncipe Regente visitou o "Bedford", examinando todas as partes do navio durante três horas. Ele ficara tão satifeito com a atenção recebida da Marinha britânica que decidiu condecorar os principais oficiais. Um problema era o fato que todas as ordens militares eram, também, religiosas; portanto só poderiam ser conferidas a católicos. D. João resolveu reviver a Ordem da Torre e Espada, originalmente instituída por D. Alphonso V, em 1459.

D. João tinha plena confiança no capitão James Walker; durante a estadia em Salvador, mandou transferir para o "Bedford", nos dias 14, 15 e 17 de fevereiro, 84 cofres com tesouros, para serem transportados até o Rio de Janeiro.

A 26 de fevereiro, às 10h30 da manhã, a esquadra composta pelos navios "Príncipe Real", "Afonso de Albuquerque", "Medusa" e "Bedford", pela fragata "Urânia", pelo "Três-Corações", pelo "Activo" e pelo "Imperador Adriano" (os dois últimos substituíndo o "D. João de Castro", que não tinha condições de prosseguir viagem sem primeiro submeter-se a grandes reparos), finalmente zarpou. Ao meio-dia, tiveram que parar e esperar pela maré, mas logo depois estavam novamente a caminho e, pelas 4h00 da tarde, fora da baía e em mar aberto.

A viagem até o Rio de Janeiro foi tranqüila. Todas as noite paravam, por medida de segurança, pois velejavam perto da costa. A 7 de março de 1808, entre salvas dos fortes e embarcações, chegaram ao Rio de Janeiro.

A 4 de junho, aniversário do Rei Jorge III, Sir Sidney Smith recebeu a bordo do "London" toda a Família Real. Após os brindes habituais, o Príncipe Regente além de presentear Sir Sidney com o pavilhão real que tinha usado na viagem, ordenou-o esquatelar seu brasão com as armas de Portugal para que os seus descendentes nunca esquecessem a gratidão da Família Real pelos serviços prestados nesta jornada. Sir Sidney também recebeu uma chácara, canoa e escravos em S. Domingos (Niterói).

Mesmo depois da Grã-Bretanha ter expulsado os franceses (abril de 1810), D. João continuou no Brasil (até 1821). Não temos espaço, neste artigo, para tentar descrever as inúmeras obras públicas e benefícios que D. João trouxe ao Brasil, como também as qualidades de seu carácter.

Como muitas vezes acontece, o passar do tempo ilumina e esclarece. Os primeiros críticos, talvez por estarem próximos demais dos acontecimentos, interpretaram-nos de forma negativa; não enxergaram a grandeza e coragem da decisão tomada por D. João, comprovada pelos eventos subseqüentes.

Um exemplar do livro publicado em 1995 e cópia de toda a documentação referente a viagem, encontram-se depositado pelo autor no Museu Imperial, Petrópolis.

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