digitação original: 04/08/1998

texto básico de palestra no IHP a 13/07/1998

AS MARINHAS DE GUERRA PORTUGUESA E INGLESA - II
PERÍODO 1750-1815

Kenneth Henry Lionel Light

As velas principais (redondas) eram amarradas nas vergas; a área de pano poderia ser reduzida amarrando as rizes (fileiras de pequenos cabos em cada superficie da vela). Outras velas triangulares ou quadrangulares (velas de estai) eram suspensas entre os mastros e também por anteavante do mastro do traquete, fixadas ao gurupés. O mastro da gata levava a mezena numa retranca. Velas eram também carregadas em paus extendidos das vergas principais (cutelos) e ainda suspensas sob o gurupés (cevadeiras).

O movimento lateral das velas principais era restrito, devido aos cabos de sustentação dos mastros; este fator limitava a navegação em direção geral do vento. Afim de parar, ou atravessar o navio, era preciso dispor as velas em equilíbro exato, de modo que algumas empurrassem o navio para vante, enquanto outras o fizessem recuar.

A navegação dependia principalmente de medir o ângulo do sol com o horizonte, para definir a latitude, e do cronômetro para medir a longitude.

A hístoria da invenção do cronômetro é curiosa. Em 1707 uma esquadra inglesa invicta, voltando a sua base, perdeu quatro dos cinco navios que a compunham nas Ilhas Scilly, no sudoeste da Inglaterra, devido a erro no cálculo da longitude. Em 1714 o parliamento inglês ofereceu um premio de £20000 (hoje varios milhões de dollares) a quem conseguisse inventar um relogio que manteria a precisão mesmo sob as condições mais adversas. Após uma vida dedicada ao problema o inventor John Harrison (1693-1776) recebeu a maior parte do prémio do Conselho de Longitude, quando seu cronômetro foi finalmente aceito pela Marinha em 1774.

A velocidade, outro requisito para poder estimar a derrota, era medida pela barquinha, que consistia de um pedaço de madeira conhecido como batel da barquinha amarrado a uma linha na qual tinham sido dado nós a intervalos regulares. Quando o batel era lançado pela borda, após passar pela turbulência causada pela esteira do navio, era deixado à deriva por sete ou quatorze segundos, medidos por uma pequena ampulheta. O comprimento de linha que tinha saído com a barquinha permitia que se calculasse a velocidade do navio.

Outro equipamento essencial era as âncoras, em diversos tamanhos. As maiores, quatro em número pois previa-se que poderiam ser perdidas, necessitavam da força de 383 marinheiros para suspender-as. Tão grande esforço era para deslocar a nau pesando 1800 toneladas (muitas vezes somado ao vento ou correnteza) e a espia encharcada com diámetro de 65cms. e talvez 300m. de comprimento, para cima do ferro, pois só assim desprenderia do fundo.

Todos os navios levavam pavilhões de nações neutras e inimigas, com o objetivo de confundir. Porém antes de abrir fogo a honra exigia que o verdadeiro pavilhão fosse mostrado. Uma vez armado o navio içava uma flamula farpada com 30 metros de comprimento.

O ápice da Marinha inglesa consistia de almirantes, vice almirantes, e contra almirante (officers of flag rank); divididos, por ordem de importância, nas cores vermelha, branca e azul. Estes oficiais tinham o direito de arvorar seu pavilhão (na sua cor) quando a bordo do navio-capitânia (flag ship); o almirante no real, o vice almirante no traquete e o contra almirante na gata.

Ao receber a ordem para prepara-se para batalha, os conveses de bateria tinham que ser desembaraçados de quaisquer obstruções; estas incluíam as divisórias que formavam os camarotes, as mesas e cadeiras, os pertençes pessoais, as macas, etc. Não era incomum, se a batalha fosse iminente e o tempo curto, desembaraçar os coveses lançando tudo pela borda, em vez de estivar cobertas abaixo, como era mais comum. Os canhões seriam desamarrados e aprontados, a pólvora e os projéteis trazidos para cima e fogos acendidos ao lado de cada canhão. As guarnições das peças, adestradas pela prática regular, guarneceriam seus postos e se preparariam para apontar e disparar. A supremacia numa batalha muitas vezes era decidida tanto pela rapidez com que as bordadas eram disparadas, como pela precisão do tiro. As laterais do tombadilho eram acolchoadas com as macas e uma rede estendida acima da tripulação para proter-a de estilhaços.

A bordo os marinheiros em dois turnos, bombordo e boreste, trabalhavam por períodos de quatro horas em local e tarefas bem definidas. Assim o dia era dividido em um período de trabalho seguido por um período de descanso, exceto numa emergência devido ao tempo ou o inimigo.

A comida consistia de mantimentos secos e salgados como carne, farinha de aveia, açucar, ervilhas, pão e queijo. Animais vivos, verduras e frutas frescas eram entregues a bordo quando atracados num porto. Na Marinha inglesa cada marinheiro tinha o direito de receber, diariamente, um galão de cerveja (4,5 litros) ou um quartilho de vinho (600ml.) ou ainda meio quartilho de rum, diluído com duas partes de água. Semanalmente uma ração de suco de lima ou limão evitava as terríveis conseqüências do escorbuto.

Uma nau de 74 canhões carregava até 250 toneladas de água. O consumo diário era em torno de 2 toneladas mas poderia ser bem menor, caso fosse necessário.

A saúde a bordo, mesmo depois que o escorbuto fora dominado em 1795, era precária. O tifo e a febre amarela decimava as guarnições; sifilis, hernias e acidentes a bordo eram comuns. O almirantado inglês, no período 1793-1815, registrou 6500 mortes devido ação inimiga, 13000 devido à acidentes coletivos (incêndios e naufragios) e 70-80000 devido à moléstias e acidentes individuais.

Uma disciplina severa, porém justa, era de importância fundamental a bordo de um navio de guerra. As linhas-mestres eram definidas pelos Artigos de Guerra regularmente lidos para a guarnição, geralmente quando estava reunida em forma para o serviço religioso, aos domingos. A pena pela violação de muitos dos Artigos de Guerra era a morte. A punição mais comum, para transgressões menores, como bebedeira, briga, furto e dormir em serviço, era o açoite, executado com o calabrote (cat-ó-nine-tails): nove pedaços de corda, cada um com três nós cegos atados em intevalos. Os culpados por transgressões mais graves eram conduzidos por uma embarcação de navio a navio, e açoitados diante da guarnição de cada navio. Os oficiais não estavam imunes a punições: o almirante John Byng, submetido a conselho de guerra por não ter impedido que os franceses tomassem Minorca em 1756, foi fuzilado no tombadilho do navio de Sua Majestade Monarch.

Pouco tempo restava para a diversão; instrumentos musicais, peças teatrais, contadores de histórias e pequenos trabalhos manuais eram praticamente as únicas alternativas. No porto era comum embarcar prostitutas; em 1805 Revenge, com uma guarnição de 600 homens, reportou que 450 prostitudas tinham vindo a bordo (ao mesmo tempo). As vezes os marinheiros conseguiam esconder mulheres a bordo no início de uma viagem; estas então permaneciam até a nau cruzar com outra voltando, quando então elas seriam transferidas. Houve alguns casos, como a da Mary Lacy em 1765, que conseguiu fingir ser homem (chamava-se William Chandler) e servir a bordo de várias naus durante 12 anos, até ser descoberta!

Começamos escrevendo sobre a guerra e terminaremos escrevendo sobre as táticas empregadas nas batalhas.

O primeiro objetivo numa batalha era capturar os navios inimigos e somente em segundo lugar destruir-los. A nau capturada entraria para reparos e, após a troca do nome, integraria a esquadra. Mesmo depois de indenizar a guarnição que tinha efetuada a captura, o reparo sairia mais em conta e num prazo bem menor. Eliminar o possibilidade de manobrar, seguido por abordagem era a maneira de dominar um navio sem destruir-lo. Tornava-se necessário destruir as velas, vergas e mastros, o mesmo tempo reduzir a guarnição inimiga.

Tradicionalmente ambos os combatentes seguiam em linhas paralelas até que a esquadra que tinha a vantagem do vento decidir aproximar-se do inimigo, ainda em linha pararela e, após troca de tiros a curta distância que poderia durar várias horas, abordar-o.

Uma tática alternativa cujo principal adepto era o almirante inglês Nelson era, ao aproximar-se mais ainda for a do alcance de um canhão, girar toda a linha para que cada nau pudesse passar atrás de um navio inimigo e só então abordar-o. Esta manobra implicava em expor a nau, durante vinte ou trinta minutos, a descarga de todos os canhões de um bordo da nau inimiga, sem poder retaliar. A disciplina e o sangue frio eram primordial, pois o punição a ser infligida durante aqueles longos minutos seria devastadora. Em compensação, ao passar pela popa do navio inimigo, cada canhão por sua vez poderia atirar na parte menos protegida e no sentido longitudinal da nau. Além da bala comum, pedaços de corrente e metralha (projetil oco carregado com balas menores ou pedaços de ferro ) seriam usados. Uma passagem poderia resultar na destruição quase total da parte aérea da nau e baixa de uma boa parte da guarnição.

Esta tática foi utilizada por Nelson na batalha de Trafalgar (perto de Cádiz na Espanha) em 1805 quando as esquadras combinadas da França e Espanha foram aniquiladas; os quadros mostrando a nau capitanea Victory, antes e depois da batalha (sendo rebocado para a base naval de Gibraltar), mostram claramente como esta tática poderia castigar um navio, mesmo sendo vencedor!

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