digitação original: 04/08/1998

texto básico de palestra no IHP a 13/07/1998

AS MARINHAS DE GUERRA PORTUGUESA E INGLESA - I
PERÍODO 1750-1815

 Kenneth Henry Lionel Light

Este ensaio abrange um período que concentrou importantes eventos, que tiveram uma influência significativa e permanente na História; a guerra napoleônica (1793-1815), a independência da América e, o que nos afetou profundamente, a jornada da Família Real ao Brasil (1807/08). As duas Marinhas tiveram uma participação ativa neste período e, muitas vezes, fundamental. O objetivo deste ensaio é conhecer-as melhor; assim, após uma breve introdução sobre as suas principais atividades, iremos descrever e comentar sobre os homens, os navios e os homens a bordo dos seus navios.

Não será surpresa constatamos que as responsabilidades das duas Marinhas eram muito semelhantes:

Ações ligadas a guerra - capturar ou destruir navios inimigos, transportar tropas, bloquear portos, interceptar e inspeçionar navios mercantes e operações anfíbias.

Durante os períodos de conflito as atividades eram tão intensas que, nos 27 anos que durou a guerra napoleônica, a Inglaterra perdeu 166 navios incluíndo 5 naus-de-linha. Em compensação capturou 1201 navios inimigos, incluindo 159 naus-de-linha e 330 fragatas. Portugal perdeu a fragata Minerva perto de Sri Lanka em 1809.

Escoltar navios mercantes, defendendo os de ação inimiga e de piratas.

A costa da Africa do Norte, até Tripoli, era um escondedouro de piratas berberes. Uma esquadra portuguesa, com base em Gibraltar, permanentemente patrulhava esta região. Anualmente o comboio de navios mercantes (80 ou mais navios) com destino à Índia e ao Brasil, era protegido até alcançar as ilhas do Atlântico; em data previamente combinada, uma esquadra era despachada para cruzar os mares perto da Madeira e acompanhar-o até o Tejo. No Oriente a Inglaterra se ocupava em defender os navios da Cia das Indias (East India Company). Os mares por onde velejavam eram tão perigosos que além da escolta os navios mercantes tiveram que ser armados.

Transportar dignatários a seus postos e deportados para o seu lugar de desterro.

O exemplo singular neste período foi a jornada da Família Real portuguesa.

Transportar valores para a coroa.

Os navios de guerra que escoltavam o comboio de navios mercantes, quando era preciso, continuavam a viagem até o Brasil. Em 1769, por exemplo, a nau-de-linha Na. Sa. dos Prazeres saiu do Tejo em 25 de abril escoltando dois navios indo para a Índia e varios mercantes com destino a diferentes portos do Brasil. Em julho arribou a Salvador com água aberta, devido ao mau tempo que encontrou na travessia. Em 29 de maio de 1770 entrou no Tejo tendo completado a viagem desde o Rio de Janeiro em 94 dias. Trazia ouro, letras de benguela e moedas para a coroa em um total de 908 milhões de réis, além de onze cofres repletos de diamantes. Também valores muito maiores para particulares.

Outra influência que aproximava as Marinhas partia dos oficiais. Na Inglaterra, durante os anos de conflito, a Marinha empregava 120 mil homens embarcados (600/800 navios na ativa), na paz 18 mil. O resultado desta política era que os marinheiros perdiam seus empregos, fuzileiros navais voltavam para suas casermas e os oficiais, sem navio, tinham seus vencimentos reduzidos para a metade. Talvez esta fosse a principal razão pela qual muitos procuraram a Marinha portuguesa para se empregar. Nos últimos 40 anos do Século XVIII os nomes de 35 oficiais que fizeram esta transição são conhecidos (um número considerável considerando que a Marinha portuguesa, neste período, tinha um esquadrão de 25/30 navios). Até na jornada da Família Real para o Brasil dois brigues que vieram no esquadrão, o Lebre e o Vingança, tinham no seu comandado os ingleses Daniel Thompson e James Nicolas Keating.

Com relação aos homens embarcados, a escassez de marinheiros talvez fosse o maior problema das Marinhas. Mesmo recrutando-os usando força fisica nas tavernas, retirando-os das prisões antes de terminar de cumprir a pena, transferindo-os de navios mercantes em alto mar ou, antes de atracar, para navios iniciando uma nova viagem, mesmo assim quase sempre navios saíam do porto com sua guarnição incompleta. Comentava-se que o almirantado inglês não encorajava a natação com receio de perder marinheiros, enquanto o navio permanecia numa boia de amarração!

As condições a bordo eram pessimas (em terra não eram muito melhores, conforme descreveu o escritor inglês Charles Dickens em muitos dos seus livros). Ganhavam 15 libras por ano, usualmente pago com atraso de vários meses; roupas (o uniforme só foi introduzido em 1857) e ferramentas perdidas ou quebradas eram descontadas. A única chance de ganhar algum dinheiro era na venda de uma presa; um exemplo extremo sendo a captura do navio espanhol Hermione em 1762 A sua venda rendeu, para cada marinheiro, o equivalente a 36 anos de salário!

Os fuzileiros eram mais parecidos com soldados. A bordo tinham funções de guarda e de manter a disciplina; durante uma batalha subiam nas vergas e tentavam acertar os oficiais do navio inimigo. Participavam de algumas tarefas, como levantar a âncora; nas operações anfíbias a sua participação era essencial.

Os oficiais começavam sua carreira aos 11 ou 12 anos de idade, indicados por um ‘padrinho’. Instruídos, durante muitas viagens, pelo padre ou pastor e o capitão, eventualmente se submetiam as provas do almirantado; condição indispensável para serem promovidos a capitão. A partir da data desta promoção a ordem era estritamente seguida e, si sobrevivessem e não fossem punidos pelo conselho de guerra, com o tempo alcançariam o posto de almirante. A promoção poderia vir enquanto bem jovem, conforme ocorreu com o contra-almirante de pavilhão azul sir William Sidney Smith (o comandante da esquadra inglesa que escoltou a Família Real em 1807/08); este foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra (post-captain) com apenas 18 anos de idade.

Nenhuma guarnição estaria completa sem o padre ou pastor, os cozinheiros, alfaiates, padeiros, carpinteiros, canoneiros, armeiros, o cirurgião e seus assistentes, escriturários e criados. Um capitão tinha direito a 4 criados para cada 100 homens na guarnição; assim numa nau como a 74 o capitão era bem servido com 24 criados!

Não podemos esquecer o enorme contingente de homens, ligados as Marinhas, que permaneciam em terra. Incluíam os que trabalhavam nos estaleiros, nas cordoarias, nos arsenais, também na compra de madeira, pano, pólvera, mantimentos, água, cerveja, vinho, rum e mil outras items indispensáveis para o bom funcionamento de um navio. Também os conselhos de guerra e os tribunais de presas, aonde era julgado o valor e quem participaria na venda do navio capturado. Lembramos ainda os hospitais mantidos pelas Marinhas; o predio do mais famoso ainda existe, ao lado do Museu da Marinha (National Maritime Museum- Greenwich).

Os navios desta época que nos interessam são as naus-de-linha; aqueles que tinham tamanho (lê-se poder de fogo) para poder participar da linha de batalha. Na pratica, naus com menos de 60 canhões não eram usadas. Pelo número construído, a nau de 74 canhões era de longe a mais popular; com uma guarnição de 650 homens, media 60m. de comprimento, 17m. de boca, 7m. de calado e pesava 1800 toneladas.

A construção de uma nau como esta consumia 2000 arvores. Assim, desde o Século XV, monarcas mandavam plantar florestas na Europa para suprir a necessidade de madeira, habitualmente o carvalho. Portugal também usava a madeira forte e resistente encontrada no Brasil; Salvador tinha um estaleiro importante (as naus Martim de Freitas e Príncipe do Brasil foram lá construídas).

O projeto típico de uma nau 74 incluía três cobertas; o convés de porão, a segunda coberta e a coberta superior. A plataforma acima do convés superior chamava-se tombadilho; aberto ao tempo a meia-nau, era fechado na proa e na popa. A segunda coberta e a coberta superior eram as principais plataformas dos canhões, mas algumas peças leves poderiam ser montadas no castelo da proa.

O fundo da nau levava um lastro de ferro fundido. Aqui também eram estocados mantimentos secos, a água em barris e a pólvora (ao lado uma pequena sala para fornecer iluminação sem o risco de contacto); ainda havia o paiol de bolachas, revestida com metal para evitar (sem muito successo em uma longa viagem) o ataque de insetos famintos e o paiol de bebidas alcoólicas (com um fuzileiro permanentemente mantendo a guarda).

No convés de porão havia espaço para o cirurgião, a espia principal e materiais mais leves; era aqui que durante uma batalha improvisariam o hospital.

Nas cobertas, além dos canhões, eram armadas as macas (cada marinheiro tinha direito a um espaço de 40cms. por 1,80m.). O cubículo de cada oficial era construído com divisórias desmontáveis. Em comparação o capitão tinha uma suite bastante luxuosa na tolda a ré, portanto com janelas; convenientemente dividida para trabalhar durante o dia, comer e dormir.

A descrição não estaria completa sem mencionarmos que o pé direito era de 1,55m, no convés de porão um pouco menos, e que não havia janelas nas cobertas; a ventilação entrava por grades nos conveses.

Os três mastros (traquete, grande ou real e gata) tinham a parte principal amarrada na nau; acima dois mastaréus (joanete e sobrejoanete) eram encaixados. Estes mastaréus e suas vergas eram abatidos, quando o vento soprava com força de tempestade, também para rebaixar o centro de gravidade, por medida de segurança num mar grosso.

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