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23/04/2009

Tribuna de Petropolis:
agosto/2004

GUILHERME EPPINGHAUS, UMA VIDA DEDICADA AO COMÉRCIO PETROPOLITANO

Jeronymo Ferreira Alves Netto 

Filho do colono Pedro Eppinghaus e de sua esposa Catharina Magdalena Conrad Eppinghaus, nasceu Guilherme Eppinghaus em Petrópolis, a 16 de janeiro de 1854.

Inclinado desde a mais tenra idade à atividade comercial, aos 14 anos o jovem Guilherme já trabalhava num dos mais antigos e tradicionais estabelecimentos comerciais da cidade, a “Casa Molitor”, um verdadeiro bazar, onde os fregueses encontravam os mais variados artigos.

Em 1872, transferiu-se para a firma Ernesto José Olive que, em 1862, havia fundado a casa comercial denominada “Ao Livro Verde”. No início da Rua D. Januária, atual Marechal Deodoro.

Segundo nos informa o saudoso historiador Walter Bretz, “eram na época os mais antigos estabelecimentos comerciais além da Casa Olive, a Ouriversaria Rittmeyer, a Serralheria Faulhaber, a Floricultura Binnot, a Alfaiataria Bretz e a Casa Duriez, firmas que passaram de pais para filhos e netos” (1).

(1) BRETZ, Walter. “Do Livro Verde A Casa Olive”. Petrópolis, Tribuna de Petrópolis, 2 de novembro de 1824
 


Filho de João Batista Olive, proprietário do Hotel França, o carioca Ernesto José olive imprimiu ao seu estabelecimento tal orientação e seriedade, que aca bou recebendo o título de “Fornecedor da Casa Imperial”, alta distinção concedida na época a um estabelecimento do gênero, que lhe permitiu utilizar as armas imperiais em suas faturas.

Este honrado comerciante, que ocupou em nossa cidade os cargos de Juiz de Paz e Subdelegado, faleceu em 1694, aos 61 anos de idade.

Após o falecimento da viúva Olive, o estabelecimento que então funcionava junto ao Hotel Bragança, passou à propriedade do filho do casal, João Napoleão Olive que o transferiu para o número 1.064 e mais tarde para o número 848, da então Avenida 15 de novembro, onde funcionou até 1924.

Nesta casa comercial, Guilherme Eppinghaus completou seu longo aprendizado no ramo do comércio, tendo nela permanecido até 1878, quando então, aos 24 anos de idade, estabeleceu-se com seu próprio negócio, à Rua do Imperador nº 53.

Em sua loja os fregueses encontravam sempre grande sortimento de material de escritório, livros, músicas para piano, flauta e canto, tecidos, perfumarias etc. Graças a seu honesto e perseverante trabalho, sua firma adquiriu grande renome e logo se tornou também, a exemplo de “Ao Livro Verde”, fornecedora da “Casa Imperial”.

Dezesseis anos mais tarde, mudou-se para um prédio localizado no lado oposto da Rua do Imperador, nº 799, que havia adquirido com suas economias. Este imóvel, é importante assinalar, teve que ser demolido em conseqüência da grande enchente de 1897, que abalou seus alicerces.

Com relação a esta nefasta enchente, ocorrida em 17 de fevereiro de 1897, encontramos as seguintes referências na Gazeta de Petrópolis do mesmo ano: “Foi às 10 horas da noite que principiou o medonho espetáculo de invasão das águas. Na violência de sua passagem destruiu pontes, aniquilou jardins e derrubou propriedades, deixando um rastro de grandes prejuízos...As águas do rio, que corta pelo meio a avenida, se avolumaram, cresceram despropositadamente e depois transbordaram inundando a primeira artéria da cidade, elevando-se à altura superior a um metro, e invadindo rapidamente todas as propriedades laterais” (2).

A enchente abalou os alicerces do prédio de sua propriedade mas não abalou a confiança que o renomado comerciante tinha no sucesso. Assim, em pouco tempo, reergueu o edifício e reabriu seu estabelecimento que funcionou até 1921, conforme relata Fróes, “sempre crescendo no conceito do público e dos fornecedores” (3).
 

(2) Gazeta de Petrópolis. Petrópolis, fevereiro de 1897.
(3) FRÓES, José. “Centenário Natalício do Antigo Comerciante Guilherme Eppinghaus, Símbolo de Honradez e de Trabalho”. Petrópolis, Tribuna de Petrópolis, 16 de março de 1954.
 


Com o mesmo cuidado e interesse que dedicava à atividade comercial, o Sr. Guilherme Eppinghaus nunca deixou de acompanhar com igual carinho o progresso de Petrópolis, assinando e colecionando todos os jornais locais, e ainda encontrando tempo para prestar serviços à pátria como oficial da Guarda Nacional.

Nomeado Capitão Ajudante do 1º Batalhão da Reserva da Guarda Nacional pelo decreto de 29 de dezembro de 1900, do presidente Campos Sales, poucos meses mais tarde era promovido a Major Fiscal do citado Batalhão pelo decreto de 4 de novembro de 1901, do mesmo presidente.

O Major Guilherme Eppinghaus serviu na 1ª Brigada de Infantaria comandada pelo Cel. José Henrique Thyrne Land, à qual prestou assinalados serviços.

Em 23 de julho de 1890, Guilherme Eppinghaus contraiu núpcias com Deolinda Hingel, filha do casal José Hingel e Magadalena Weitzel Hingel, com a qual viveu 54 anos, na mais completa harmonia e felicidade.

Desta união resultou uma descendência de três filhas e um filho: Olga Clotilde, nascida a 22 de setembro de 1891 e falecida a 9 de junho de 1996. Bertha Francisca, nascida a 1 de dezembro de 1893 e falecida em 26 de maio de 1920, na França; Guilherme Pedro, nascido a 25 de fevereiro de 1897 e falecido a 19 de março de 1998; Alzira Eugênia, nascida em 24 de novembro de 1899 e falecida a 7 de março de 1999.

Os filhos do casal receberam primorosa educação proporcionada por seus progenitores. As filhas Olga, Bertha e Alzira graduaram-se com distinção pela Escola Normal, estabelecimento de ensino do Estado, que na época funcionava em anexo ao Colégio Santa Isabel, após o que resolveram consagrar suas vidas a serviço de Deus, exercendo seu apostolado com extraordinário devotamento e eficiência. Assim, Olga ou Mere Marie Berthe de Jesus, freira da Congregação Nossa senhora de Lourdes, viveu anos no Convento de Liége, na Bélgica, onde presenciou os horrores da guerra, após o que retornou a Petrópolis, prestando serviços no Conventou de Lourdes, onde faleceu aos 94 anos de idade; Bertha ou Irmã Machtilde de Jesus, noviça da mesma Congregação, faleceu prematuramente num trem que fazia a rota Nice-Marselha (França), com apenas 26 anos de idade, repousando seus restos mortais em Lourdes (França); Alzira, ou Irmã Luiza, da Congregação São Vicente de Paulo, foi fundadora da Casa da Providência em Petrópolis e, durante muitos anos Superiora e Ecônoma da Região Leste.

Quanto ao filho Guilherme Pedro, cursou este os mais conceituados estabelecimentos de ensino, tais como os colégios Franco-Brasileiro e São Vicente de Paulo, em Petrópolis, a Academia de Comércio de Juiz de Fora, o Instituto Politécnico da mesma cidade, onde se diplomou em Engenheiro Geógrafo(1928).

O Dr. Guilherme Pedro realizou importantes trabalhos na área de sua especialidade, tanto no sul do país como em nossa cidade, onde exerceu por longos anos o cargo de diretor de Engenharia da Prefeitura Municipal. Agraciado com a Medalha Koeler por serviços prestados ao Município, o Dr. Guilherme Pedro sempre encontrou tempo para acompanhar e participar da vida cultural da cidade. Neste sentido, foi membro do Conselho Municipal de Cultura, sócio da Sociedade Artística Villa-Lobos, da escola de Música Santa Cecília, do Instituto Histórico de Petrópolis, além de ter sido professor de Máquinas Hidráulicas na Escola de Engenharia da Universidade Católica de Petrópolis e ter recebido o título de Professor Emérito da referida Universidade.

O velho Guilherme Eppinghaus, cuja vida foi um exemplo de nobreza de caráter, de amor à família e de honradez, faleceu em 5 de abril de 1944, cercado da estima e do respeito, sendo importante lembrar o que disse dele o saudoso historiador José Fróes: “Era um homem inteligente, metódico, guardando seus selos, postais antigos de Petrópolis e contando fatos curiosos de nossa evolução, para a qual ele tanto contribuiu na sua modéstia e simplicidade” (4).

(4) FRÓES, José. “Centenário Natalício do Antigo Comerciante Guilherme Eppinghaus, Símbolo de Honradez e de Trabalho”. Petrópolis, Tribuna de Petrópolis, 16 de março de 1954.

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