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23/04/2006

Boletim Semestral do IHP - Ano I - Número 2 - Julho/Dezembro/2006

CURSO DE HISTÓRIA DE PETRÓPOLIS (1)

Jeronymo Ferreira Alves Netto

Módulo I

Antecedentes históricos: primitivos habitantes; penetração para Minas; as sesmarias; a Fazenda dos Correias; Dom Pedro I no Córrego Seco.

PRIMITIVOS HABITANTES

Os primitivos ocupantes do solo petropolitano foram os índios. A denominação "Sertão dos Índios Coroados", inicialmente dada às terras que hoje constituem o Município de Petrópolis, nos leva à conclusão de que estes índios, assim denominados pelos portugueses "porque cortavam os cabelos de maneira a formar uma espécie de coroa enrolada no alto da cabeça[...]" (1), seriam os antigos goitacazes que, combatidos pelos portugueses, buscaram refúgio no sertão.

(1) DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e História do Brasil. Tomo I. São Paulo: Universidade de São Paulo, p. 52.


Por outro lado, a descoberta de vestígios de objetos indígenas nos rios de Petrópolis, reforçou a tese de que, na realidade, muitas picadas no caminho para Minas Gerais e que posteriormente foram aproveitadas pelos colonizadores, na realidade foram abertas pelos índios em seus movimentos migratórios.

Do mesmo modo, a Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro, datada de 1767, assinala uma vasta área da margem direita do rio Piabanha e da margem setentrional do Rio Paraíba, até Minas Gerais, à qual denomina "Sertão dos índios bravos".

Por esta região erravam os índios Puris, divididos em várias tribos, constantemente em guerra. Assim, os Pataxós, da mesma raça que os Puris "habitavam as florestas do sertão à beira do rio Piabanha". (2)

(2) DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e História do Brasil. Tomo I. São Paulo: Universidade de São Paulo, p.71.


O CAMINHO NOVO

O Caminho Novo, ligando Rio de Janeiro a Minas Gerais, foi aberto por Garcia Rodrigues Pais, filho do bandeirante Fernão Dias Pais, o "Caçador de Esmeraldas", mediante licença concedida pelo governador Arthur de Sá Meneses.

Garcia Rodrigues Pais iniciou a empreitada com alguns homens brancos e mais de quarenta escravos, consumindo nesse trabalho "todos os seus haveres, quer os herdados de seu pai, quer os adquiridos de suas catas auríferas". (3)

(3) LACOMBE, Lourenço Luís. Centenário de Petrópolis: Trabalhos em Comissão. Petrópolis, v. 5, p. 41, 1942.


Garcia Rodrigues Pais transferiu sua residência de São Paulo para perto da atual Penha, nos subúrbios do Rio de Janeiro e, ao finalizar o caminho, "obteve duas sesmarias sobre os rios Paraíba e Paraibuna, estabelecendo sobre o primeiro balsas e canoas para a passagem de viajantes e cargas, o que seria rendoso". (4)

(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas. São Paulo: Melhoramentos, 1961, p. 240.


A VARIANTE DO CAMINHO NOVO

Foi construída por Bernardo Soares de Proença, fazendeiro na região de Suruí, na Baixada Fluminense.

Bernardo Soares de Proença nasceu na Freguesia de São Pedro, no Bispado da Guarda, em Portugal, sendo filho de Felix Proença Magalhães e de D. Águeda Gomes de Perada.

Militar, serviu por mais de vinte e dois anos nos postos de sargento, capitão, sargento-mor e tenente coronel, "sendo promovido a Coronel de um dos Regimentos de infantaria auxiliar composto de dez companhias, no Distrito do Recôncavo". (5)

(5) CARTA RÉGIA de 9 de junho de 1734.


Construiu a Variante, porque o trecho do Caminho Novo que subia a Serra do Mar era péssimo, a subida muito íngreme, a travessia dos rios em tempos de chuva era impraticável, verificando-se com freqüência perdas de animais, tropeiros e cargas.

A Variante do Caminho Novo partia do Porto da Estrela, subia a "serra", indo dar no Alto da Serra. Daí, seguia pela Rua Teresa, passando depois pela Rua Dr. Sá Earp, pela Silva Jardim, pelo Quissamã e Itamarati, Correias, Itaipava, Pedro do Rio, Secretário, Cebolas, até Paraíba do Sul.

Esta variante, encurtando a viagem Rio-Minas, foi, sem dúvida, a causa do desenvolvimento de nossa região serrana.

Em 1711, requereu "uma légua de terra em quadra, atrás da "Serra" do Frade, correndo o sertão da dita légua pelo mesmo rumo que corre o caminho geral que há de abrir da Parayba e vir buscar as sahidas das quebradas da dita Serra do Frade". (6)

(6) SODRÉ, Alcindo. Centenário de Petrópolis: Trabalhos em Comissão. Petrópolis, v. 3,  p. 218., 1940.


Tornou-se assim o primeiro proprietário de terras na área urbana da futura Petrópolis, tendo construído sua residência no Itamarati.

AS SESMARIAS

Eram terras incultas ou abandonadas, que os reis cediam a sesmeiros que dispusessem a cultivá-las. Eram também chamadas "quadras" pois a sua medição era feita em léguas quadradas (1 légua de sesmaria = 6.600 metros ou 3.000 braças).

As sesmarias do vale do Piabanha foram concedidas ao longo do Caminho Novo, com as seguintes finalidades: proporcionar albergue e alimentação para funcionários, tropeiros e animais de carga, em trânsito pelo Caminho Novo; construir e conservar pontes sobre os rios; manter conservado o Caminho Novo etc.

As mais antigas sesmarias, segundo nos informa Rabaço foram:

Quadra de Francisco Matos Figueira, que se estendia do Meio da Serra até o Alto da Serra (1686);
Quadra de João Matos de Sousa, que se estendia do Meio da Serra até a Pedra do Cortiço, no Indaiá (1686);
Quadra do Secretário, José Ferreira da Fonte, localizada no vale do rio Fagundes (1703);
Quadra das Pedras, Euzébio Alves Ribeiro. O nome derivou-se do pico da Maria Comprida, onde seu proprietário desenvolveu importante fazenda (1734);
Quadra de Araras, Capitão Luís Peixoto da Silva, que vendeu a maior parte de suas terras a Manuel Antunes Goulão, que ali desenvolveu a Fazenda do Rio da Cidade (1751);
Quadra da Paciência, cortada pelo rio desse nome, na região dos atuais bairros do Carangola, Retiro e Caitetu, pertencente a Francisco Muniz de Albuquerque (1741);
Quadra do Itamarati, Bernardo Soares de Proença (1721);
Quadra de Magé, na região correspondente a Itaipava, cortada pelo Rio Piabanha, requerida por José Ferreira da Fonte (1734);
Quadra do Rio Morto, Manoel Correia Goulão, na confluência do referido rio com o Piabanha, na região onde hoje se ergue o povoado de Correias (1760);
Quadra do Alcobaça, onde se destaca o pico desse nome, concedida a Francisco Muniz de Albuquerque (1741). (7)

(7) RABAÇO, Henrique José. História de Petrópolis. Petrópolis: Instituto Histórico de Petrópolis, 1985, p. 13 - 15.


AS FAZENDAS

Com o correr do tempo estas sesmarias foram, em conseqüência da morte de seus proprietários, fragmentando-se em fazendas.

Assim, a sesmaria do Itamarati deu origem a duas importantíssimas fazendas:

a) Fazenda do Itamarati, deixada por Bernardo Soares de Proença a seu filho Antônio de Proença Coutinho, que a dirigiu de 1735 a 1752 e "defendeu o Caminho Novo, enviando à Metrópole um relatório sobre o movimento das tropas verificado nessa picada e um pedido bem fundamentado de conservá-la sempre". (8)

(8) SCHAETTE, Estanislau Frei. Pequena Ilustração. Petrópolis, 17 de setembro de 1939.


b) Fazenda do Córrego Seco, deixada por herança ao Sargento-Mor José Vieira Afonso que a vendeu ao Imperador D. Pedro I, em 1830.

A sesmaria do Rio Morto deu origem à Fazenda do Padre Correia (Antônio Tomás de Aquino Correia da Silva Goulão), que a herdou do pai Manuel Antunes Goulão.

A FAZENDA DO PADRE CORREIA

O Padre Correia era dotado de grande capacidade administrativa e jamais se descuidava de seus deveres religiosos.

Em sua fazenda, tornaram-se famosas suas plantações de frutas, sua fabricação artesanal de ferraduras e sua hospitalidade (boas acomodações, mesa farta e sacramentos).

Viajantes ilustres deixaram registrados inúmeros elogios ao Padre Correia e à sua fazenda. Entre eles destacamos os cientistas alemães Spix e Martius, o geólogo inglês João Emanuel Pohl, o botânico francês Saint-Hilaire, o barão de Langsdorff, cônsul da Rússia e muitos outros.

Todavia, o hóspede mais famoso da fazenda foi o Imperador D. Pedro I. Assim, a 25 de março de 1822, rumo a Minas, jornada que tão gloriosamente terminaria às margens do Ipiranga em 7 de setembro, e, a 31 de dezembro de 1830, também a caminho de Minas, e que veio a ter o desfecho trágico de 7 de abril, D. Pedro I hospedou-se na fazenda do Padre Correia.

Em várias outras ocasiões esteve o Imperador na referida fazenda, trazendo a Família Imperial para temporadas de repouso e principalmente para o tratamento da saúde de sua filha, a Princesa D. Paula.

O Padre Correia faleceu aos 65 anos, no dia 19 de junho de 1824, deixando a fazenda como herança para sua irmã D. Arcângela Joaquina da Silva, de quem D. Pedro I tentou, sem êxito, comprar a propriedade.

Foi D. Arcângela quem sugeriu ao nosso primeiro Imperador a compra das terras vizinhas, constituídas pela Fazenda do Córrego Seco.

A FAZENDA DO CÓRREGO SECO

A Fazenda do Córrego Seco constituía ¼ da primitiva sesmaria de Bernardo Soares de Proença e recebeu esse nome por causa do Rio Palatino que, em determinadas épocas do ano, ficava completamente seco.

Pertenceu inicialmente a Manuel Vieira Afonso, passando mais tarde à sua esposa D. Catarina Josefa de Jesus que a deixou a seus sete filhos.

As terras da fazenda eram frias, úmidas e improdutivas e a casa da mesma estava caindo aos pedaços, por isso foi comprada aos herdeiros por um dos irmãos, o Sargento-Mor José Vieira Afonso, por 200 mil réis.

Comprada a fazenda e trocado o seu nome para "Concórdia", para simbolizar o desejo de D. Pedro I de que houvesse paz, amor e concórdia entre os brasileiros, trataram-se dos planos para a construção do Palácio de Verão, havendo orçamento de um engenheiro francês, Pezérat, de duzentos contos de réis.

Em 1831, com a abdicação de nosso primeiro Imperador, os planos de construção do palácio foram abandonados e a fazenda foi entregue à administração de uma firma inglesa (Samuel Phillips e Cia.), que a arrendou por um conto de réis ao ano.

Com a morte de D. Pedro I, em 1834, a fazenda foi incluída numa série de propriedades a serem vendidas para quitar dívidas pessoais do Imperador.

O Marquês do Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, propôs uma emenda no orçamento do Império, pela qual o governo cobria com 14 contos de réis a hipoteca da fazenda, passando esta a ser propriedade de D. Pedro II.

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