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13/05/2010

Texto básico de palestra no Instituto Histórico de Petrópolis a
10/05/2010

A SEGUNDA OCUPAÇÃO : O VERANISMO

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

No decorrer dos meses de março e abril de 1997, participei de um ciclo de palestras organizado pelo presidente da Academia Petropolitana de Letras, Dr. Hélio Werneck de Carvalho, com trabalhos apresentados pelos acadêmicos Laert Rodrigues Goulart, Jorge Ferreira Machado, Paulo Machado da Costa e Silva e este palestrante, todos da Academia Petropolitana de Letras, Dalila Cordeiro Machado, escritora, Mestre em Letras na Bahia e Alberto Venâncio Filho, da Academia Brasileira de Letras. O tema foi Afrânio Peixoto, o grande cientista, professor, escritor baiano, acadêmico da Academia Brasileira de Letras e veranista em Petrópolis. O ciclo foi um grande sucesso, muito prestigiado, assinalando presenças de grandes representantes da Cultura Nacional, como o acadêmico romancista Josué Montello e o embaixador Afonso Arinos de Mello Franco. As palestras do ciclo compuseram uma edição impressa patrocinada pela Fundação Petrópolis de Cultura, Esportes e Lazer, presidida pela Comunicadora e escritora Kátia Chalita Mattar, opúsculo que o Dr. Hélio Werneck de Carvalho intitulou “O Resgate de uma Memória – Afrânio Peixoto”.

O meu tema naquele encontro foi “Afrânio Peixoto em Petrópolis”, apresentado na noite de 4 de abril de 1997.

Transcrevo, recordando, o início daquela palestra:

“Bastos Tigre, nosso grande poeta e cronista, era um inveterado veranista.

“Veranista... Era assim chamado aquele que subia a serra e vinha passar alguns meses do verão em Petrópolis. Invariavelmente era de dezembro a março, começando, para alguns, um pouco antes e terminando, para outros, pouco depois. A regra mais comum era obedecer aos maiores: até 1889, a Corte do Imperador D. Pedro II; a partir daí, até os anos 60, ao séquito do Presidente da República. Chegavam os cabeças e vinham atrás os membros.

“Petrópolis enfeitava-se de toilettes refinadas, em tempos do final do século XIX e início do século XX e, em seguida, dos costumes de griffes, dos penteados gomalinados, dos ternos de corte nobre. Era um farfalhar incessante de roçados de muitos tecidos, o “cloc-cloc” encampainhado de charretes ou, ainda, “fons-fons” desagradáveis de rolantes viaturas que faziam latir os cães e provocar estrepolias dos meninos de olhos buliçosos”.

O soneto de Bastos Tigre é um primor de bom humor e literário. Ei-lo:

“O VERANISTA

O veranista, porque a moda o ordena
para a Serra dos Órgãos se desloca.
Mal, com os rigores do verão carioca,
os refrescos e os leques vêm à cena.

Mas a chuva, encharcando a serra amena,
faz de cada vivenda escura toca.
Debalde a gente Santa Clara invoca,
Petrópolis está de fazer pena!

Domingo. O “ruço”. A chuva miúda e fina...
E o resto da semana se padece
A tortura dos trens da Leopoldina.

Mas chega abril. Tudo mudar parece;
Risonha é a serra... O ambiente se ilumina,
Chega o bom tempo. O veranista desce...”

Petrópolis recebeu em 1845 uma leva de imigrantes vindos das terras germânicas, na velha Europa assaltada por guerras e conflitos, em fase turbulenta de arrumação da casa. Mais tarde, vieram italianos para emprego na industrialização têxtil. Os quarteirões saídos da pena do engenheiro-arquiteto Julio Frederico Koeler foram povoados pelos germânicos, o distrito de Cascatinha e outros pontos urbanos tornaram-se residências dos oriundos da Península Italiana e suas famílias; o Centro Histórico recebeu o afluxo de cidadãos implicados na indústria, comércio e agricultura, profissões liberais e nas atividades públicas, brasileiros natos e de várias nacionalidades, cosmopolitando de vez a população da Cidade de Pedro.

Esse contingente de famílias, no entanto, não tem sido considerado nos estudos da ocupação humana de nosso território petropolitano. Qualifico a leva, que não veio em bloco, como uma vertente de nossa colonização (talvez, o termo mais adequado para eles seja ocupação): os veranistas.

Para acompanhar o tema proposto, não se pode deixar de ler, apreciar e interpretar a excelente palestra do consócio Júlio Ambrozio, aqui proferida na noite de 10 de abril de 2006 e integrante de nosso “site”: “Vilegiatura”. No trabalho, o autor define com segurança, sob percuciente pesquisa, o termo em suas origens e o desenvolvimento através da história, considerando a vilegiatura não como mera atualização do turismo, senão um “turismo com território”. E completa ao revelar ser a vilegiatura de “origem aristocrática, despregada do caráter burguês” por não ser uma atividade de passagem, mas constituindo-se em “segunda casa da burguesia”, complementando “turismo com território – vila do otium” e completando “espaço sazonal de fixação do otium”.

É o que se vê e possuímos na razão turística de nossos dias, refletindo a importância dessa ocupação remetida hoje à admiração dos visitantes, diante do casario de edificação nobre e singular, que enfeita nossas avenidas mais bonitas.

É o veranismo autor de nossa eclética, quanto preciosa, arquitetura do Centro Histórico.

Voltemos aos idos da encantadora “belle époque”, quando a Capital da República sucedeu à Corte Imperial e dela manteve os cânones da larga influência parisiense, sob costumes e cultura, tudo transplantado para a serra do imperador ou dos presidentes. Na agitação dos meses do verão ameno e chuvoso de Petrópolis, grandes fortunas edificaram vivendas, em transferência do conforto de suas residências permanentes para a serra. Os exemplos que conseguiram sobreviver ao iconoclasta imobiliarismo caixotesco, moldam hoje o preciosismo do Centro Histórico que basbaqueiam os visitantes diante de cenários tão diferentes quanto componentes de uma harmonia encantadora. Grandes proprietários rurais fluminenses, diante da derrocada cafeeira, transportaram-se para o Rio de Janeiro e seu apêndice Petrópolis, edificando lá como aqui, as vivendas que, por beleza, grandeza e porte, minimizavam a perda do orgulho anterior de serem os sustentáculos basilares da economia nacional.

O verão em Petrópolis era um sucedâneo das práticas européias determinantes dos grandes empresários que mantinham seus estabelecimentos produtivos e residenciais nas metrópoles e edificando casas de campo para os momentos da intimidade familiar. O Rio de Janeiro era o fervilhar da grande caldeira dos negócios e Petrópolis, o bálsamo refrescador em tempos em que as viagens entre um ponto e outro constituíam-se em aventura e muito tempo no ócio da passagem.

A imprensa da Capital e de Petrópolis abria espaços para noticiar os deslocamentos dos veranistas, suas atividades na serra, suas festas e passeios, como temas das colunas e dos registros sociais. Circulavam nos meses do veraneio revistas dedicadas aos visitantes, com a colaboração dos intelectuais de fora, coadjuvados pelos homens de letras serranos. As publicações, pelo menos a maioria delas, eram frutos da criação dos veranistas, que traziam o gosto e a técnica de seus lugares de origem. Eram bem cuidadas, com preciosas colaborações dos intelectuais da terra e dos veranistas, algumas com capas em duas e três cores, restritas à população do Centro Histórico, de pífia circulação nos quarteirões e distritos.

Também a correspondência entre parentes e amigos apresenta copiosa informação sobre o dia-a-dia de cada família em sua estadia nas montanhas petropolitanas e muitas cartas falam não só das alegrias, como de muita tristeza, esta propiciada pelos falecimentos de muitos visitantes que vinham para Petrópolis adoentados e em procura do clima mais adequado à cura do sofrimento de cada um. Literatos de nomeada ambientavam tramas e enredos em território petropolitano, assim como poetas burilavam versos bordados pelas cores e aromas das hortênsias, camélias, rosas e todas as flores que beijavam o firmamento da Serra da Estrela. E todos o faziam por conhecimento de nossas terras, nossa gente, nossas belezas e encantos.

Por interessante e retrato do veranista típico, de projeção político-social, transcrevo a primeira parte da carta escrita pelo Barão de Torres-Homem ao Barão de Paranapiacaba, em 11 de março de 1886:

“Recebi as duas cartas de V. Exª enviadas a Petrópolis e de lá recambiadas para a Corte, pedindo, em ambas, informações sobre a minha saúde.

“Em extremo penhorado por essa prova de estima que V. Exª  me dá e tanto me honra, comunico-lhe que, depois de uma ininterrupta série de incômodos físicos, alguns sérios, que me abateram sensivelmente o organismo, tive um desgosto que abalou profundamente o meu moral e encheu de tristeza toda a a minha família. Sinfalite do pé, progressão desta moléstia para a perna e coxa, acompanhada de aparato febril intenso e assustador, mais tarde traqueo-bronquite, com acessos de asma, dando lugar a verdadeiras torturas durante as noites: eis os padecimentos que sofri.

“No primeiro dia em que consegui dar um passeio de carro para favorecer a minha convalescença, caiu doente uma senhora minha comadre, que estava em minha companhia. Atacada de uma violência satânica, de uma febre perniciosa ardente, essa senhora, a quem nós estimávamos como se fosse uma parente próxima, sucumbiu em três dias, tendo uma temperatura febril de 41°,5. Tudo isso, meu caro amigo se deu em Petrópolis, lugar montanhoso, situado a 800 metros acima do nível do mar, para onde fugi em procura de fresco, de repouso para mim e de algum refúgio para minha mulher e meus filhos, e de onde parti cheio de pesar e pressentimentos sinistros, no dia 1º do corrente, ainda convalescente, com a perna esquerda inchada e o espírito envolvido em nuvens negras.

“Hoje, que me acho melhor, restituído aos meus lares, mais perto dos bons amigos e cercado dos meus livros, como bom discípulo da velha de Siracusa, agradeço a Deus por não me ter acontecido maior fracasso...”

Os missivistas eram grande personalidades do Rio de Janeiro, Torres-Homem (Joaquim Vicente Torres-Homem) médico de nomeada, conceituado clínico, autor de obras técnicas e Paranapiacaba (João Cardoso de Menezes e Souza), advogado, professor, deputado provincial, poeta com vários livros publicados e traduções de obras francesas (La Fontaine: “Fábulas”, Lamartine: “Jocelyn”) e inglesas como (Lord Byron : “Oscar”).

Nas décadas 20-30 era o caminho de ferro que trazia os sazonais, ampliando-se a subida da serra a partir de 1928 com a abertura da Estrada de Rodagem Rio-Petrópolis.

Alguns estudiosos, diante da melhoria da comunicação entre Rio e Petrópolis e o afluxo cada vez maior de residentes nas duas cidades, chamaram Petrópolis de cidade-dormitório.

Criou-se na serra uma cultura deitada ao sazonismo, abrindo-se estabelecimentos comerciais, de hotelaria, de diversão, para atendimento na estação amena. Além dos jornais que tornaram-se patrimônio da cidade, como a Tribuna de Petrópolis, desde o início do século XX, como vimos acima, editaram-se nos anos da “belle époque”, do charmismo, da vilegiatura, revistas para atender aos visitantes, que eram letrados e consumiam as publicações, as quais não chegavam a bom percentual da população obreira nos quarteirões e distritos e no entorno do Centro ainda não Histórico, porém consumido e apreciado pelo reduto dessa ocupação territorial e cultural da Cidade do Imperador.

José Vieira, escritor, alto funcionário federal, romancista, passava os verões na serra, acompanhando o Governo. Aqui imiscuiu-se no meio intelectual, foi presidente da Associação Petropolitana de Letras, a hoje Academia Petropolitana de Letras, escreveu na imprensa local artigos e crônicas, numa fixação de residência gradativa com sua família. Na revista “Verão em Petrópolis”, publicou interessante crônica, que intitulou “Petrópolis, Cidade de Verão”, com um dado interessante, ao testemunhar:

“Depois que o Estado proibiu o jogo em Petrópolis, modificação grande se produziu nos verões da Cidade-Jardim: clubes de diversão que o jogo mantinha, houveram de fechar, e os veranistas queixam-se, desde então – que a montanha ficou triste”.

Mais adiante, continua a colunista:

“O que está provado é que depois do fechamento dos clubes, depois que diminuíram as diversões em Petrópolis, cresceu o volume dos veranistas. De ano para ano, é o que se verifica, encarregando-se a vida de mostrar a inanidade de um pobre preconceito pois viemos a Petrópolis, não para nos divertir, mas para fugir do calor do Rio e para nos refazer – o que é importantíssimo. Esta é a verdade simples e indiscutível”.

E continua: “Devemos ter em conta que quem veraneia em Petrópolis não saiu propriamente do Rio. Daqui para lá e de lá para cá é possível viajar, com tempo de sobra, duas vezes...”

Os veranistas, antes da rodovia, subiam para Petrópolis de trem, cuidando a Leopoldina Railway de aumentar o número de viagens nas temporadas do verão, com preços especiais e mantendo assinaturas em diversos períodos (semanal, mensal, anual) e o último, com pagamentos parcelados. O estudante, com assinatura, pagava um valor mais em conta.

A grande maioria dos veranistas de posses, antes hospedados nos inúmeros hotéis, foram edificando suas vivendas nos pontos nobres da cidade, criando o ecletismo de nossa arquitetura do Centro Histórico, significando estarem dispostos a uma fixação futura e de suas famílias, o que foi efetivamente ocorrendo.

Uma foto na revista “Verão em Petrópolis”, na seção “Álbum de Petrópolis – os nossos veranistas”, apresenta o casal Condes de Leopoldina refestelado na varanda de seu solar petropolitano.

As revistas mantinham suas colunas com noticiário da movimentação dos veranistas, seus aniversários, suas presenças aqui e ali, em interessante o objetiva paparicação, já que eles deixavam na economia local bons resíduos.

Tivemos, por aqui, elevadas personalidades veranistas, a começar pelo nº. 1, o Imperador D. Pedro II. Não citarei outros, por muito extensa a relação e, passando para os anos 20, observamos que a inicial preocupação de uma Petrópolis Turística, sob capitania do publicista João Roberto d´Escragnolle, que viera veranista e se fixara por aqui, propondo a criação de um Sindicato de Turismo, delega a veranistas importantes postos na entidade, começando pelo presidente Dr. Alberto de Faria, proprietário da Casa do Barão de Mauá, um dos grandes povoadores de Petrópolis. Seguem-se nomes como Dr. Octavio da Rocha Miranda, Dr. Eduardo Pederneiras e outros, e no Conselho de Honra os grandes freqüentadores da Serra, a começar pelo Presidente Dr. Epitácio Pessoa. Interessantes exemplos de interesse por fixar residência em Petrópolis assinalam as presenças da poetisa Gabriela Mistral, do educador Myra Y Lopez, do escritor Stefan Sweig, do dramaturgo Cláudio de Souza, do inventor Santos=Dumont, do historiador Pedro Calmon, do chanceler Barão do Rio Branco, do cientista Oswaldo Cruz, do diplomata Joaquim Nabuco, do Barão de Teffé e família e sua famosa filha Nair, o Marechal e Presidente da República Hermes da Fonseca, e tantos e tantos outros, para relembrar os mais conhecidos e divulgados.

Um importante personagem não tem sido relembrado e pode-se afirmar, é desconhecido como um dos ilustres veranistas que elegeram a cidade para sua residência fixa e hoje se encontra sepultado na necrópole municipal: o Embaixador dos Estados Unidos da América; Edwin Vernon Morgan.


Edwin Vernon Morgan 1865-1934

Falemos dele, em registro de respeito e como petropolitano honorário-residente de expressão: nasceu em Aurora, Coyuga Country, no Estado de New York, Estados Unidos da América, em 22 de fevereiro de 1865. Graduado na Harvard University em 1891, aprimorou seus estudos na Europa, retornando ao país natal em 1895. Excelente aluno em Harvard, nela tornou-se Assistente da Cadeira de História e, ainda, na mesma cátedra no Colégio Adalbert, em Cleveland. Em 1899 ingressou na carreira diplomática, nomeado Secretary of the Samoan Higt Comission; a partir de 1900 ascendeu a cônsul, servindo na Coréia, Rússia, China e Washington. Ascendeu a Minister, na Coréia e, a partir de 1909, em Cuba, Paraguai, Uruguai e, em 1912, Minister em Portugal. No mesmo ano foi designado Embaixador no Brasil, onde atuou até 1933. Seguindo o comportamento dos notáveis, conheceu Petrópolis nos veraneios e, ao se aposentar, permaneceu na cidade, aqui fixando residência, participando dos eventos sociais e falecendo a 16 de abril de 1934, sendo sepultado na necrópole municipal por seu desejo.

Eis o veranismo como mais uma vertente da ocupação do solo de Petrópolis, partindo da divisão das terras por Koeler, entornando ao Palácio Imperial de Verão uma comunidade de personalidades progressistas, encaminhadoras e forjadoras de opinião e de bom gosto na construção da estética urbana da Vila Imperial. O trabalho que deixaram, as obras de arte que edificaram, são hoje nossa preciosidade turística, além das famílias, vindas de todos os pontos do País, que integraram-se em definitivo na cidadania petropolitana.

Essas considerações, que registro como um tijolo a mais na edificação de nossa História, remetem a uma ocupação sazonal que se transforma em permanente, sob o contínuo êxodo de boa soma do cosmopolitismo carioca, que continua e se amplia para dar lugar à iconoclasta ação imobiliária dos anos 40/80 que destruiu parte do patrimônio histórico e artístico gerado pela população sazonal. A Estrada Rio-Petrópolis e posteriores variantes tornaram-se responsáveis pela abertura de nossas fronteiras a uma outra vertente de ocupação do solo, plantada nas periferias dos vales e nas cabeças do traçado de Koeler, que as desejava virgens e como garantia da população plantada na extensão dos vales estreitos. Desobedecidas todas as cautelas, vê-se o cataclismo instalado no Município.

Em conclusão, pode-se afirmar que o veranismo foi mais um fator preponderante da ocupação do território, como da expansão da sociedade petropolitana. Não tenho dúvidas acerca do fato.

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