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07/03/2008

Tribuna de Petrópolis:
09/03/2008

HISTÓRIA DEMOLIDA

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

Houve um tempo longo de nenhum cuidado. Em nome do progresso civilizações foram destruídas e sepultadas em proveito da futura arqueologia. O que poderia permanecer luzindo ganhou a poeira e o soterramento. Grandes conflitos mundiais destruíram e destruíram em nome da barbárie do poder sem freios. Vivemos 20 séculos, - numerados a partir de um momento histórico-religioso -, de transformações com poucos exemplares vivos da narrativa da Criatura Humana. Essas hecatombes medraram o desenvolvimento científico, aprimorando o conforto de muitos e gerando o infortúnio da grande massa de sobreviventes. Uma lei natural que jamais estancou as graves feridas da Humanidade porém elevou o Ser Inteligente a uma tecnologia de conforto para o bem viver mas frágil diante das botas dos poderosos por sobre as cabeças dos miseráveis.

O término da 2ª Guerra Mundial alertou a todos sobre o mau exercício da Humanidade em relação ao seu patrimônio. De repente, após a insanidade de grupos políticos desumanos, o rico patrimônio dos Velhos Continentes estava depositado no pó das ruas cobertas por cadáveres. Urgia a reconstrução, a retomada do conceito de herança, o bálsamo para as feridas expostas no desencanto das criaturas de boa vontade.

No Brasil, tão distante de tudo e sofrendo a invasão da massificação cultural distante de nossas origens, ofuscante no brilho das garrafas de refrigerantes, entendeu que modernizar era destruir o velho, coisa que a Capital da República, a cidade do Rio de Janeiro, já fizera no início do século XX com o Morro de Santo Antônio e a moderna Avenida Rio Branco.

Pois muito bem - certamente muito mal - chegou a Petrópolis a sanha do "novo" na poeira levantada pela construção civil e reavaliações urbanas, nos tempos da guerra e post ela, gerando uma série de derrubadas de prédios, casarões, monumentos da arquitetura e da engenharia petropolitana histórica, para a edificação de caixotes largos, médios, finos, muito longe da tradição formativa de nossa cultura. Não se respeitou nada, esquecendo-se todos que sepultava-se o futuro da cidade, a vocação tão propalada hoje pelo turismo, deitando-se no chão exemplares raros da História do Brasil dos séculos XIX e XX, enfeixando no meio de prédios bonitos e de estilos rebuscados, os espigões lisos, apertando e afogando os sobrados, machucando a estética e aviltando a beleza espremida.

Escapou muito pouco e o resultado ai está no comprometimento estético do Centro Histórico, com poucos exemplares do antigo e o sufocamento do moderno resultando o caos que hoje nos assiste e assusta.

Já em 1957, a alteração do Centro Histórico, com aquela agulha tão comum em tantos lugares e o cercamento dos riachos por balaústres, desmontou o Plano de Koeler, mesmo respeitada a malha urbana de seu projeto, permitindo a edificação de altos prédios de forma indiscriminada, sem nenhum senso estético ou planejamento urbanístico. E, pasmem todos, correu pelos catres do poder público da época um largo projeto visando passar o trator em todos os sobrados da então Avenida XV de Novembro, para um total corredor de prédios altos, com circulação dos pedestres nas "loggias" que se abririam por toda a extensão da via.

Alguns exemplares desse "boom" imobiliário estão plantados em nossa principal artéria urbana.

Agora, temos uma nova "revitalização", corrigindo-se alguns erros do projeto de 1957, porém com soberbos equívocos históricos além, é claro, do estreitamento demasiado das pistas de rolamentos a um nível insuportável para o fluxo de veículos em futuro muito próximo. Talvez se aproveite uma idéia de um cidadão insano de outros dias, o famoso Antônio Crescêncio, o Conde das Perobinhas, de inserir o metrô petropolitano nos riachos petropolitanos. O buraco, pelo menos, já está aberto, assim diminuindo o montante das planilhas que devem ser obrigatoriamente divulgadas nas placas. Esperamos que ninguém aproveite a idéia do Conde das Perobinhas...

Petrópolis, em sua história demolida, quer centralizar sua vida futura no turismo, embora tenham caído dezenas de exemplares de uma arquitetura eclética, quanto atraente e bela por suas características e cuja salvação encontra-se sempre abalada pelos absurdos que se aprovam por ai.

O grande exemplo de hoje foi a demolição do casarão Grandmasson para a construção daquele modernosa casa, pertinho do largo que encanta a visão da Catedral.

Agora é ela, a feiosa casa, que está sob ameaça das picaretas, visando uma nova estrutura, a qual, salvo melhor estudo, não se coaduna com o entorno clássico, lindo e admirado pelo povo e visitantes de Petrópolis.

E temos organismos que têm objetivos de guardiãs da história e defensoras da Cidade. E, sem falar no Poder Público...

Mas, porém, contudo, todavia, senão...

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