digitação utilizada para inclusão no site:
15/02/2004

Tribuna de Petrópolis:
05/02/2004

TRIBUTO À SENSIBILIDADE

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

A Tribuna de 1º de fevereiro divulgou matéria assinada por Rubens Silva, de rara oportunidade e adequada ao contexto da nossa Petrópolis atual. O empresário Gustavo Baptista Teixeira, entrevistado pelo repórter acerca da restauração que salvou o imóvel da rua Washington Luís nº 237, confessou seu entusiasmo por haver compreendido a importância do chalé construído no final do século XIX, como representativo da melhor arquitetura petropolitana, acrescentando ao seu entusiasmo pelo término da obra tratar-se de "...uma construção de muito bom gosto e ao mesmo tempo simples, já que não é nenhum casarão..."

O exemplo raro dado por Gustavo Batista Teixeira, embalado pelo desejo de restaurar a casa, conquistando a parceria do excelente arquiteto Márcio Gomes, que refez as plantas, casou informações, acompanhando o dia-a-dia da obra, deve ser seguido pelos petropolitanos no sentido de salvar o pouco que nos resta de nosso patrimônio arquitetônico, seja no Centro Histórico, como nos bairros e distritos.

Tribute-se ao IPHAN uma boa nota no somatório de suas atribuições profissionais, pelo tombamento do imóvel e toda a facilidade e empenho na liberação e acompanhamento da restauração.

A casa da rua Washington Luís nº 237, raro exemplar da criatividade arquitetônica do final do século XIX, edificada ao fundo de terreno estreito, possuía um jardim fronteiro com árvores frutíferas, canteiros de flores, três pedestais para esculturas de jardim e seis gigantescas palmeiras imperiais. Foi construída pela família Roldão Barbosa, integrada por grandes personalidades da construção civil e da cultura petropolitana nos séculos XIX e primeira metade do século XX, notadamente o empresário Roldão Barbosa, proprietário dos cinemas Capitólio, Petrópolis e Glória, mais tarde explorados por Luiz Severiano Ribeiro. Desde 1896, quando terminou a construção da casa, os Roldão Barbosa nela residiram, passando-a em 1936 para o comerciante, poeta e dramaturgo Reynaldo Antônio da Silva Chaves e deste para a sociedade beneficente Centro Auxiliar dos Funcionários do Telégrafo, que ali instalou sua sede, sob administração do Secretário Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos, que passou a residir na casa a partir de 1938. Ao falecer Joaquim Heleodoro a 19 de setembro de 1959, a sociedade beneficente foi extinta e a casa vendida, sendo utilizada para fins comerciais até ser abandonada, tornando-se ponto de mendicância até o incêndio que quase a destruiu na madrugada de 17 de abril de 2001.

A casa, além de seu valor como patrimônio da arquitetura histórica do século XIX, teve sua existência marcada pela presença de grandes personalidades da cultura petropolitana, como Roldão Barbosa, empresário de diversões e desportista, os poetas, literatos e dramaturgos Reynaldo Chaves e Joaquim Gomes dos Santos, fundadores da Academia Petropolitana de Letras e grandes nomes da Escola de Música Santa Cecília, aqueles que deram continuidade à obra do Maestro Paulo Carneiro; e o Centro Auxiliar dos Funcionários do Telégrafo, sociedade de mútuo auxílio criada pelos funcionários postais, com funcionamento digno e eficiente, edificadora do Monumento ao Expedicionário Petropolitano, na Praça do Expedicionário, que deixou de existir, como as demais sociedades beneficentes, substituídas pelos Institutos de Aposentadorias e Pensões, hoje centralizados no INSS.

Apresento ao empresário Gustavo Baptista Teixeira, ao arquiteto Márcio Gomes, a todos os participantes da obra de restauração e ao IPHAN o preito petropolitano de agradecimento, ao tempo em que recordo com lágrimas nos olhos da saudade o melhor quarto da vida - a juventude - que vivi naquela casa, berço de minha formação.

Espero receber um convite para visitá-la, re-esquadrinhando cada espaço onde meus pés infantis, de adolescente e adulto percorreram dias de felicidade e sonho.

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