Tribuna de Petrópolis: 03/06/2001

UMA HISTÓRIA PARA TERESA

Parte 2

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

Bons estabelecimentos comerciais funcionavam na rua Teresa, de diversos gêneros, de múltiplas atividades, em histórias de muitas lutas, como o Café-Luso Brasileiro de belo prédio esquinado, ainda de pé; a famosa oficina mecânica de Niquinho, como era conhecido Antônio de Souza Lordeiro (hoje com prédio novo da Igreja Mórmon); a Casa Rumayor, de bicicletas de aluguel, de grande movimento na época do veraneio; a confecção Tecosa, de excelentes criações; a bela Pensão Vila Teresa, com seu varandão envidraçado em verde e branco; a grande Padaria Modelo inaugurada em 1915.

No final da reta do Alto da Serra, vindo da Estrada Velha, mantinha sua residência sazonal o Conde de Afonso Celso, em casa de beira de rua, denominada "Vila Petiote", que herdara do pai, o Visconde de Ouro Preto; o Coronel Carlos de Suckow Joppert, residia em belíssimo e invejado palacete, a "Vila Joppert" de dois amplos pavimentos; a família Batista de Castro com monumental palacete no estilo das mansões da avenida Köeler, onde hoje está o conjunto habitacional da rua Chile; o solar da Baronesa Araújo Maia, de estilo mais simples, porém sobressaindo sobre o casario modesto dos habitantes fixos; e tantas e tantas famílias de residentes fixos e sazonais, que se misturavam ao burburinho operário que fazia da rua Teresa um recanto cosmopolita de muita fascinação. O "Álbum Guia da Cidade de Petrópolis", editado em 1919, assinalava a existência de 206 prédios, desde o Alto da Serra até o limite com a rua Aureliano Coutinho.

A Companhia Brasileira de Energia Elétrica explorava, desde 1912, as linhas de bondes, divididas em três zonas, a 1a percorrendo o Centro Histórico, com extensão até a entrada da Mosela e levando até o almoxarifado, no Bingen, servindo ao Hospital Santa Teresa; a 2a zona percorrendo os bairros centrais e toda a rua Teresa com circular pela Saldanha Marinho; a 3a zona estendendo-se até o distrito de Cascatinha. A linha denominada "Alto da Serra" partia defronte da Estação da Leopoldina, descia a rua Teresa em toda a extensão, dobrava na rua Visconde de Bom Retiro, percorria as ruas Caldas Viana e Imperador em toda a extensão, subindo pela Nelson de Sá Earp, cortando a Praça da Liberdade na direção da Roberto Silveira, virando para a Sete de Abril, subindo e descendo a Monte Caseros, virando na Piabanha, Treze de Maio, Tiradentes, Imperatriz, Praça Dom Pedro, retomando a Imperador e todo o trajeto de retorno via Caldas Viana até o Alto da Serra. Na década de 20 a companhia criou outra linha "Alto da Serra", partindo do mesmo terminal, com o mesmo trajeto até a Imperador, quando subia, não mais a Nelson de Sá Earp, mas, pela direita, atravessava a ponte e ganhava a General Osório, Aureliano e toda a extensão da rua Teresa até o final. Quando foi extinto o serviço de bondes em Petrópolis, coube à linha da rua Teresa a partida do último carro para a cidade, a 15 de julho de 1939, recolhido à garagem na rua Padre Siqueira, onde hoje estão as garagens da Fácil/Única.

O trem era a atração maior da rua Teresa. A estação de muda do Alto da Serra, da "Leopoldina Railway", regurgitava de passageiros vindos de todos os lugares e muitos deles desciam ali, não realizando o restante do percurso até a estação da rua Dr. Porcíúncula, no centro, muitos por medida preventiva para evitarem contratempos no desembarque no terminal. Um exemplo foi a chegada do 1o prefeito de Petrópolis, Oswaldo Cruz, que ficou na Estação do Alto da Serra para driblar a homenagem que estava preparada no terminal, descendo a rua Teresa de automóvel e surgindo de surpresa diante dos atônitos funcionários do Palácio Amarelo. Disse Oswaldo Cruz, após cumprimentar a todos: "Por favor, quero ver o Caixa!".

Um outro que ficou no Alto da Serra foi o prefeito nomeado Stephane Vanier, no dia 31 de dezembro de 1934, rejeitado integralmente pela cidade e que, diante da manifestação popular hostil que estava preparada no centro da cidade, voltou dali mesmo para o Rio de Janeiro.

O "ruço" natural, marca registrada da rua Teresa e de seu Alto, não se mistura mais à fumaça das locomotivas que subiam e desciam por brechas por detrás do casario da rua Teresa e pela rua Dr. Sá Earp, mas que, atingindo a rua Teresa, corriam pelo acostamento da artéria, diante do casario das vilas operárias. Também não se mistura mais à densa fumaça saída pelas chaminés das grandes fábricas, todas criadas em função das linhas férreas, transportadoras da matéria prima e distribuição da produção acabada. Com a criminosa ação política de extinção dos ramais ferroviários, as indústrias enfumaçaram, também, na lembrança da História. O bonde, igualmente, sendo extinto, deixou um vazio na artéria, acostumada ao ranger das composições sobre os trilhos, a eles juntando-se o resfolegar das locomotivas férreas. Uma artéria urbana marcada pelos trilhos do progresso ostenta hoje tráfego de automóveis, ônibus, caminhões e muita a muita gente deliciada com o comércio de malhas e correlatos.

A pincelada está longe de representar um bom quadro da rua Teresa, mas serve para abrir o estudo, interessar os historiadores, incentivar à pesquisa.

Hoje o rua Teresa é a capital nacional das malhas. É uma rua de grande movimento e de arquitetura comercial colorida e bordada e rebordada de incentivos às compras. Não é mais aquela, está adaptada à vida de hoje e cresce, para o futuro, de acordo com a moda e o bom gosto. Os chalés com lambrequins ficaram no passado, as grandes indústrias cederam espaços para as novas opções de exploração econômica, algumas casas operárias resistem com moradores que abrigam, ainda, descendentes de famílias do pioneirismo têxtil, os palacetes deram lugar aos "shoppings" e nenhum vestígio deles resta senão fotografias e depoimentos.

Paga-se um tributo pela evolução e progresso e a rua Teresa, totalmente reconstruída e adaptada às exigências de sua nova destinação, é exemplo vivo dessa transformação urbana de Petrópolis. Felizmente tem belo passado, tem história para ser escrita, alimenta uma saga de trabalho que incentiva os contemporâneos a honrá-la com a mesma garra dos antepassados.

Quando foi proclamada a República, 1889, os políticos não ficaram satisfeitos com o banir da Família Imperial; ampliando sua ação "saneadora" na mudança da nomenclatura urbana das cidades brasileiras cujos topônimos homenageassem nomes e fatos do Antigo Regime, em "Revolução Cultural" bem no feitio da paixão pela novidade. Petrópolis era um cortinado de homenagens urbanas a toda a Família Imperial e nobreza. De uma foiçada desapareceram os nomes de "Imperador" (15 de Novembro), "Imperatriz" (Sete de Setembro), para citar as mudanças mais conhecidas e que acabariam por retomar os designativos em posturas recentes. Curiosamente o nome de Teresa resistiu, não foi mexido, a homenagem à imperatriz continuou, talvez por um descuido ou por ignorância do vendaval republicano. Também escapou da foice frígia o nome do Município: Petrópolis, homenagem direta ao imperador deposto.

Por último, um tópico afetivo e revelador: eu nasci no casarão 1062, da velha rua Teresa, demolido para ampliação da Casa da Criança Antônio de Pádua, meritória obra da saudosa filantropa Katarina Monken. Sou, portanto, natural da nossa rua Teresa, quase no limiar do Alto da Serra. Daí, aproveitar esse bosquejo histórico para divulgar em bico-de-pena a minha casa que desapareceu para dar lugar às crianças que hoje ali são amparadas e educadas. Feliz destino que me conforta e me alegra muitíssimo.

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