Tribuna de Petrópolis: 27/05/2001

UMA HISTÓRIA PARA TERESA

Parte 1

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

A fazendola do sargento Vieira Afonso - o Córrego Seco - só tinha acesso por um caminho que vinha lá do Porto da Estrela, na margem esquerda do rio Suruí, constituído por uma estreita trilha aberta no meio da espessa mata atlântica. Até a garganta que dá início à hoje rua Teresa subiam os viajantes pela "calçada de pedra", construída entre os anos de 1802 a 1809, por ordem do príncipe regente D. João, em carta régia de outubro de 1799 dirigida ao vice-rei do Brasil Conde de Resende e uma outra, em seguida, de novembro de 1800 ao vice-rei Dom Fernando José. O príncipe regente mudou a Corte para o Rio de Janeiro em 1808, quando a "calçada de pedra" estava em fase de conclusão, a ele cabendo, em julho de 1809, inaugurá-la pessoalmente.

A "calçada" mostrou-se, em pouco tempo, inadequada para o tráfego que se expandia, ganhando a região um traçado novo que a utilizava e adiante a cortava, a Estrada Normal da Estrela. No Alto da Serra iniciava-se a descida ao Córrego Seco para atingir o caminho rumo a Minas Gerais.

Dom Pedro I adquiriu a Fazenda do Córrego Seco, depois herdada por seu filho Dom Pedro II, este fundando o povoado de Petrópolis pelo Decreto Imperial 155 de 16 de março de 1843. Uma história muito contada e bastante conhecida e pesquisada. D. Pedro I por ela transitou em suas andanças pelas terras do Império. Em 1822 sua comitiva bateu cascos e rangeu rodas por seu caminho indo e vindo da proclamação de nossa independência. O major Júlio Köeler, em seus trabalhos de engenheiro da Província, acampava com sua tropa no Alto da Serra, inclusive acompanhado da esposa Sra. Maria Delamare Köeler. No Alto da Serra havia estábulos para os cavalos, rancho e alojamentos para viajantes.

Na planta de Petrópolis de 1846, dois quarteirões aparecem, dentre os 13, como fundamentais para a expansão do povoado; o "Vila Imperial", centro da colônia e o "Vila Teresa", a hoje afamada rua Teresa. Na referida planta Teresa limita-se com os Quarteirões Vila Imperial e Castelânea. O topônimo homenageia a Imperatriz Teresa Cristina, discreta esposa do Imperador Dom Pedro II, enquanto este ganhava os louros da denominação geral do povoado.

O Quarteirão Vila Teresa foi dividido em prazos de terras, destinados às famílias alemães de João Hang, Jorge Diehl, Jacob Braun, Júlio Boeck, Pedro Klein, Jorge Roggenbach, Nicolau Benchel, Jorge Sommer, Frederico Goetz, Martin Michel, João Pedro Karl, Nicolau Schmitz, Henrique Falhauber, Henrique Winter, Felipe Linck, Antônio Klein, Daniel Theissen e Pedro Stoffel.

Por Teresa entrava-se em Petrópolis, por Teresa caminhava-se para Minas Gerais, em veículos de tração animal e a cavalo. Mais tarde, a partir de 1883, as brasas incandescentes e a fuligem desprendida das composições férreas mudaram a forma de acesso mas não o caminho, agora com duas vertentes subindo quase lado-a-lado, uma pela estrada carroçável, a outra, férrea.

Teresa era o portão de Petrópolis e sua extensão, de 2.200 metros bem povoados recebia os viajantes. Memoráveis as recepções feitas no correr da artéria quando a Família Imperial chegava a Petrópolis para o veraneio e quando retornava para a Corte. A rua era enfeitada de flores, as casas exibiam colchas coloridas e bandeiras, vivas ecoavam, acenos misturavam-se ao burburinho das vozes em festa. A profusão de carruagens estabelecia imponente e alegre cortejo em direção ao Palácio Imperial. O povo acompanhava, adensando-se à medida do avanço da comitiva pelos caminhos da Teresa, em festa e multicolorida. Pode-se afirmar que a vocação de muitos e muitos visitantes hoje subindo e descendo a rua Teresa, tem suas raízes naqueles tempos de orgulho e prestígio de Petrópolis como capital sazonal do Império.

A rua Teresa adensou-se de construções residenciais e mistas para as atividades comerciais. Era o único portão de entrada para o povoado. Nenhum outro senão Teresa, até que o presidente Washington Luís inaugurou a Estrada Rio Petrópolis, no ano de 1928, ligando Petrópolis ao Rio de Janeiro diretamente por estrada para automóveis. Permaneceu na rua Teresa o transporte ferroviário, com larga estação de muda para atender ao sistema da cremalheira.

Com a instalação das oficinas da "Leopoldina Railway" (hoje, no local, o grande complexo habitacional construído pelo BNH), as indústrias chegaram, primeiro a "Dona Isabel" em 1889; em seguida a "Cometa" em 1903, sob a direção do Dr. Amoroso Lima, pai do grande Alceu de Amoroso Lima, que vinha funcionando com imponente prédio no Meio da Serra, aos poucos transferindo-se para o Alto; a "Petrópolis Fabril", de malhas, produzindo tecidos e confeccionando camisas e meias em 1904 e destruída por incêndio em 1913, todas do ramo têxtil. Pode-se considerar sucessora legítima dessa primeira atividade malharista da rua Teresa, a "Malharia Soares de Sá", fundada por um dos diretores da "Petrópolis Fabril", Manoel Soares de Sá, em fins de 1916, em sua casa na rua Teresa, magnificamente continuada no âmbito familiar.

Uma indústria importante e a mais antiga da rua, foi a "Serraria Falhauber", fabricante de janelas e portas para o Palácio Imperial, em construção nos primeiros anos de Petrópolis. Essa firma funcionou até 1919. Todas elas utilizavam-se da força hidráulica captada através dos riachos que serpenteavam pela Serra da Estrela. No entorno das indústrias cresceram as vilas operárias edificadas pelas empresas. Uma enorme comunidade obreira torna o Alto da Serra em turbilhão de trabalho e desenvolvimento e a rua Teresa em misto residencial, com muitos chalés e industrias. Adensa-se, próximo ao terminal do trem do Alto da Serra, o complexo de casas operárias, obedecendo a um traçado simples e dispostas em vila, como na Europa. Cria-se um sítio de convivência entre as duas atividades, as casas operárias e os chalés de alguns veranistas. A Teresa, das poucas curvas urbanas, é paixão e encanto de Petrópolis.

O jornalista Bartolomeu Pereira Sudré instala o primeiro jornal petropolitano - "O Mercantil" - no final da reta no Alto da Serra no ano de 1857. Dezenas de anos mais tarde, dentro do ramo, o tipógrafo Luiz del Valle, em Teresa número 142, atende a toda imprensa local com sua oficina de clichês.

No Alto da Serra é edificada a capela de Santo Antônio, hoje matriz, obra dos frades franciscanos, onde o extraordinário Frei Leão OFM faz quartel de bondade e larga ação social, uma extraordinária figura do quarteirão reverenciado sempre pelas famílias, na maioria beneficiadas pelo carinhoso desprendimento do bom frade.

A música chega pelo Clube Euterpe, fundado em 1901, orgulho do bairro.

A arquitetura residencial e comercial implantada na rua Teresa, no decorrer de 100 anos desde a fundação do povoado, foi eclética, misturando-se as casas de um pavimento, com varandas, lambrequins e outros ornatos aos complexos industriais montados sob o modelo europeu, predominante, também, no restante da cidade. Margeando toda a extensão da rua, as casas, ora têm jardins fronteiros, ora se apresentam, com portas e janelas diretas junto aos meios-fios. Nessas construções, propositadamente ou por necessidade, alinhava-se o comércio à residência. Estas por detrás de muros e grades de ferro e madeira, com portões estreitos, em tempos de nenhuma necessidade de garagens.

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