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26/10/1998

CINEMA EM PETRÓPOLIS - SUA HISTÓRIA (3)

Joaquim Eloy Duarte dos Santos

O CINEMA PETRÓPOLIS

Roldão Barbosa, após tantos anos festejado pela população petropolitana pelo seu "Teatro Petrópolis" e, ainda, pelo "Café Avenida", que explorou na loja à esquerda do prédio do cinema, com comunicação direta com a casa de espetáculos, além de haver introduzido na cidade o "snooker", que instalou no mesmo sobrado, assumindo igualmente uma fase do "Cine Glória", deixa a cidade, estabelecendo-se com casa comercial no Rio de Janeiro.

Emergiam no Rio de Janeiro novos empresários do ramo e, dentre eles, o maior de todos os exibidores brasileiros, Luiz Severiano Ribeiro, com vários cinemas no centro da Capital Federal, nos subúrbios e expandindo sua grandiosa rede para os municípios do Estado. Petrópolis, por sua importância como "Capital de Verão do País", aguçou o tino empresarial do exibidor. Assessorou Jeronymo Ferreira Alves na construção do novo prédio do "Capitólio", acendendo polêmica na imprensa petropolitana, notadamente na "Tribuna de Petrópolis", que reclamava a construção de um teatro sem palco, o que efetivamente aconteceu porque ao empresário só interessava o cinema e havia caído o interesse do público pelos espetáculos de cortina e a atividade teatral não agüentava casas em dias seguidos. O "Cinema Capitólio", como vimos, foi reinaugurado a 4 de abril de 1940.

Luiz Severiano Ribeiro arrenda o "Cinema Glória" e, mais tarde, o "Dom Pedro", de João D'Ângelo & Cia., que estava sob o empresário J. A. Pernambuco Júnior. Faltava o "Petrópolis".

Na noite de 30 de março de 1941, o Cinema Petrópolis exibiu os filmes "Toda Mulher tem Segredo", "Esposa de Mentira" e os complementos "O Patinho Feliz", desenho colorido e "Ressurgimento da Baixada Fluminense", documentário nacional obrigatório. Na matinê os episódios 9 e 10 do seriado "Os Três Mosqueteiros". Anunciou para segunda-feira, 31 a quarta-feira 2 de abril os filmes "O Filho dos Deuses", com o consagrado astro Tyrone Power e "Inferno de Mulheres", com a linda Rochele Hudson.

O programa não foi cumprido porque o cinema fechou no dia seguinte, 1 de abril, "para reconstrução", conforme aviso divulgado na imprensa local. Em poucos dias o velho sobrado estava derrubado e elevados os tapumes. Os adquirentes do terreno projetaram um edifício de 8 pavimentos, com os três primeiros destinados ao futuro cinema, estes com extensão de 23,80m até a Rua Centenário (hoje 16 de Março), com imponente fachada no estilo art déco que era bastante empregado em edificações para cinemas naqueles anos, frente e fundos do prédio com metragem linear de 15,10m., correspondendo ao prazo de terras n. 113-C. O projeto foi apresentado à Prefeitura Municipal de Petrópolis no dia 3 de junho de 1941, aprovado em julho do mesmo ano, sendo autor o arquiteto Ricardo Lins, engenheiro responsável Miguel Mauro Filho e construtor a empresa Terra, Irmãos & Cia., estabelecida à Rua Mem de Sá, 21, no Rio de Janeiro. O exibidor Luiz Severiano Ribeiro, que já fechara contrato antecipado de arrendamento da casa supervisionou diretamente o detalhamento técnico do futuro cinema, estabelecendo um palco com boca de 15 metros para uma tela de 9 metros, com profundidade inadequada para espetáculos teatrais. Era um projeto de cinema.

Atrás dos tapumes, na poeira ainda depositada e sobre ela as estacas, as vigas, as fundações que subiam, edificava-se um belíssimo cinema, majestoso túmulo e memorial do velho "Petrópolis", de muitas histórias e saudades, assim como do "Café Avenida", à esquerda e do "Salão Cosmopolita", do barbeiro e cabeleireiro de elevado prestígio José Soares, à direita da entrada do teatro; também ainda pairava no ar o aroma açucarado das balas e confeitos de "A Petropolitana", que por muitos anos, nas dependências do sobrado, adocicou os paladares da meninada e dos adultos.

Na noite de 4 de abril de 1944, já entrando no quarto ano da demolição do sobrado e início das obras do "Edifício Petrópolis", foi inaugurado o "Cinema Petrópolis" pelo empresário Luiz Severiano Ribeiro, em "soirée" a convite, com direito a um champanhe, recebendo pessoalmente as autoridades, à frente o interventor do Estado do Rio de Janeiro, Almirante Amaral Peixoto e senhora Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente da República, Dr. Getúlio Vargas e o Prefeito Municipal de Petrópolis Dr. Márcio de Mello Franco Alves e esposa Branca de Franco Alves.

A "Tribuna de Petrópolis", edição de 4 de abril de 1944, assim noticiou o expressivo acontecimento do dia:

"INAUGURA-SE HOJE O TEATRO PETRÓPOLIS

"Em "avant-première" será exibido o tecnicolor "O Fantasma da Ópera", em benefício da Maternidade de Petrópolis.

"Inaugura-se hoje o Teatro Petrópolis com uma única sessão, às 20,30 horas, quando será exibido o filme em tecnicolor "O Fantasma da Ópera", com Nelson Eddy, Susana Foster e Claude Rains.

"A solenidade festiva da reentrada ao público da tradicional casa de diversões, completamente remodelada, dotada que foi com um magnífico salão de projeções tipo Metro e poltronas estofadas, constituirá, por certo, o grande acontecimento mundano da "saison" devendo a renda da bilheteria, num gesto generoso do Sr. Luiz Severiano Ribeiro, reverter em benefício da Maternidade de Petrópolis, tendo aquele empresário cinematográfico convidado para patrocinar o ato as exmas.sras. Alzira Vargas do Amaral Peixoto e Branca Alves".

Com efeito, o acontecimento estava revestido de todos os cânones daqueles tempos: inaugurava-se o maior cinema da cidade e um dos melhores do Estado do Rio, com poltronas estofadas, grande novidade na cidade, tendo o empresário o cuidado de convidar para madrinhas as duas mais importantes damas da sociedade fluminense: a esposa do interventor e filha do presidente da República e a esposa do prefeito municipal, esta a gestora e dirigente da Maternidade de Petrópolis, para a qual era destinada a renda da estréia do cinema. Perfeito!

O filme exibido era em tecnicolor, técnica que era o grande sucesso do momento; a fita era, ao mesmo tempo, de suspense, musical e baseada em um grande romance da época, lido e endeusado pelos intelectuais e delícia da juventude; "O Fantasma da Ópera" reunia um elenco de primeira, o cantor Nelson Eddy, a soprano Susana Foster e o grande ator de grandes criações Claude Rains. Que programa!

A casa esteve à cunha, como se dizia nos teatros, só que agora o título "teatro" não cabia mais, senão pura a simplesmente "cinema".

Luiz Severiano Ribeiro dominava a exibição cinematográfica na cidade, senhor de todos os lançamento e dos principais cinemas, deixando aos demais a produção dita "B" e as reprises dos cartazes de maior empatia, que ele esgotava à exaustão em sua rede e depois permitia aluguel para os "poeiras". Competiu com eles nas programações de suas casas menores, o "Glória" e o "Dom Pedro". O "Capitólio" ficou no meio termo e o "Petrópolis" traduziu o luxo e o conforto.

No Cinema Petrópolis reunia-se toda Petrópolis e a programação era de primeira, existindo na Rua do Imperador dois pontos de encontro para papos e paqueras: o cinema e a "Casa D'Ângelo". Tornaram-se famosas as sessões do cinema das 19,30 horas, nos domingos, a "sessão das sete e meia", que recebiam filas enormes a partir de 18 horas, lotando a casa e com espectadores em pé nos acessos laterais do grande salão. A gerência abria duas bilheterias direcionadas para as duas vertentes da avenida, subindo uma fila para os lados do "Café Coringa" e a outra descendo diante do frontal do "Savoya Hotel". O público aumentava e delirava quando o cinema exibia as "chanchadas" da Atlântida, onde pontificavam os nomes de Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana Macedo, Cyl Farney, Fada Santoro, Adelaide Chiozzo, o vilão José Lewgoy, o caricato Wilson Grey, cantoras e cantores de rádio, magníficos elencos de apoio, enfim, bilheteria certa e satisfação garantida. Também nos lançamentos dos domingos (naqueles idos o primeiros dia de exibição era aos domingos) o empresário contratava a exuberante produção da Metro-Goldwyn-Meyer, com seus musicais onde pontificavam os nomes de Gene Kelly, Frank Sinatra, Cid Charrise, Jane Powell, Kathryn Grayson, Mário Lanza, Howard Keel, José Iturbi, Donald O' Connor, Ethel Merman, Judy Garland, Anne Blytt e muitos outros. Todos os grandes lançamentos de Hollywood daqueles anos dourados tiveram suas estréias na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro no "Petrópolis".

Em certa fase o "Petrópolis" lançou a sessão "pré-estréia", iniciando às 10,30 horas, nos domingos, exibindo filmes antes do lançamento comercial ordinário. Os assistentes que lotavam o cinema assistiam filmes realmente inéditos, sem a costumeira divulgação preliminar, sendo surpreendidos ora com bons filmes, ora com produções que não agradavam, mas ficava a sensação nos cinéfilos de uma conquista íntima de superioridade quando se dizia, de boca cheia: "- Eu já vi esse filme na pré-estréia!"

Luiz Severiano Ribeiro, como todo empresário de sucesso, mantinha casa em Petrópolis e a sua, na rua Barão do Amazonas, possuía um mini-cinema onde ele exibia para os amigos e familiares a melhor produção antes do lançamento em seu grande circuito. Seus amigos petropolitanos assistiam, verdadeiramente, as "pré-estréias", no conforto da bebericação e do encontro cinéfilo verdadeiro.

O "Cinema Petrópolis" abriu poucas vezes sua casa para a comunidade petropolitana e, raramente, para exibições teatrais, porque o "palco" não tinha a dimensão adequada, o mesmo se podendo dizer do "Cinema Capitólio". Nos finais de cada ano os grandes estabelecimentos de ensino alugavam a sala para formaturas e alguns empresários a utilizaram para espetáculos de música. Não era uma constante e para conseguir a sala era bastante difícil convencer o empresário.

Foi o melhor e maior cinema da cidade. Alimentou de imagens e sonhos a nossa população, sofrendo a natural decadência em virtude do advento da televisão e, com ela, a parafernália da vida contemporânea. Os cinemas, em todos os lugares, foram encolhendo, muitos fechando, resistindo o "Petrópolis", com aquele gigantismo ocupado por poucos espectadores em cada sessão. Da agitação do passado, o salão conheceu dias de silêncio profundo, quebrado por uma tosse surda aqui e um suspiro ali, ouvidos em meio ao som dos filmes violentos e ruidosos, até o dia de sua capitulação, 21 de abril de 1996.

O patrimônio cultural, naquele espaço criado e sustentado por tantos anos, não pode retornar como antes, existindo essa vigilante constatação na alma de cada petropolitano. Quanto ao patrimônio arquitetônico, este ali está e deve ser preservado. Aos doutos cabe estimar a melhor utilização do salão e entornos de uma forma que preserve a casa e seu passado, sabendo cada petropolitano de bom senso e amor ao patrimônio da cidade, que não pode passar a templo religioso, como se propala e assusta; antes pode se tornar em casa cultural multifacetada, respeitada a magnífica decoração interna de seus idealizadores, não como acontece com o "Capitólio" que mantém o salão para estacionamento de veículos, enegrecendo as paredes e a sensibilidade artístico-cultural da Cidade.

O antigo "Teatro" e o novo "Cinema" - Petrópolis - têm patrimônio cultural a preservar, de lembrança, saudade, documento de duas épocas.

É uma questão aberta enquanto a deterioração avança.



Fontes de consulta: No arquivo e hemeroteca da Biblioteca Municipal de Petrópolis, as coleções da "Tribuna de Petrópolis", anos 1914 a 1944; "Jornal de Petrópolis", anos de 1941 a 1943. No meu arquivo particular exemplares da revista "Verão em Petrópolis", anos de 1922 a 1924; artigo de Gabriel Kopke Fróes: "O Velho e Saudoso Teatro Petrópolis" (23/11/1964, Jornal de Petrópolis); série de artigos publicados no ""Diário de Petrópolis", sob o título geral "Cinema - 100 Anos", de minha autoria, a partir do dia 17/12/1995, e nos 7 domingos subseqüentes, terminando na edição de 4/2/1996; artigos meus: na Coluna do Instituto Histórico, da "Tribuna", intitulados "Os Teatros-Cinemas - 1920 / 1940" (Tribuna de Petrópolis 9 e 10/2/1994) e "Subsídio para uma História da Atividade Teatral em Petrópolis (Revista do Instituto Histórico de Petrópolis, 1988); artigo de Raul Lopes na coluna do Instituto Histórico de Petrópolis, sob o título "Em Torno do Teatro" (Tribuna de Petrópolis, 13/11/1993); e artigo de Alice Gonzaga "Parisiense: Cinema na Avenida Central", in "Filme e Cultura", número 47, agosto de 1986, publicação da Embrafilme.

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