digitação original: 24/06/1999

Sobre o monumento Militar Brasileiro de Pistóia (Itália)

Ivo de Albuquerque
Ten. Cel. Ref.

Alocução proferida pelo Ten. Cel. Ref. Ivo de Albuquerque, a convite dos descendentes do senhor Embaixador Francisco D’Alamo Lousada, por ocasião da entrega ao instituto histórico de Petrópolis de documentos do arquivo pessoal de sua Exª, relativos à Inauguração do Monumento Militar Brasileiro de Pistóia.

I – INTRODUÇÃO

Constitui para mim honra singular a gentileza do convite formulado por meus diletos amigos, Dr. Luiz Cláudio e Dr. Carlos Eduardo D’Alamo Lousada, para proferir uma alocução alusiva ao Monumento Militar Brasileiro de Pistóia, como parte de cerimônia de entrega ao Instituto Histórico de Petrópolis de documentos extraídos do Arquivo Privativo de seu pranteado Pai, o Senhor Embaixador Francisco D’Alamo Lousada, a quem coube a responsabilidade pela orientação e pela execução daquela imponente obra de extraordinário significado por seu valor arquitetônico e por sua grandeza cívica.

Seja-me permitido, inicialmente, externar meus agradecimentos ao digno Presidente desta Casa, Prof. Jerônimo Ferreira Alves Neto, pela aquiescência ao pedido de utilização desta tribuna por um velho soldado, cujo empenho maior reside em fazer reviver, no presente, os feitos, ensinamentos e exemplos de brasilidade legados por ilustres vultos e personalidades, através do culto a suas memórias.

Este é o sentido da associação de idéias que pretendemos realizar, relacionando a atuação patriótica do Embaixador D’Alamo Lousada quando no exercício do cargo de representante do Brasil junto ao Governo da Itália, com a emoção que nos domina ao contemplarmos o Monumento Militar Brasileiro de Pistóia, Monumento Votivo, símbolo de reverência cívica à lembrança sempre viva do sacrifício supremo de nossos patrícios que se imolaram pela Pátria nos campos de batalha da Itália, durante a II Guerra Mundial.

 

II – A EDIFICAÇÃO DO MONUMENTO

O Monumento Militar Brasileiro foi erigido na área do ex-Cemitério Militar de Pistóia, tendo sido inaugurado em 7 de junho de 1966.

A elaboração do projeto e sua execução estiveram a cargo do arquiteto oficial do Itamarati, Olavo Redig de Campos, por indicação e sob a supervisão direta do Embaixador D’Alamo Lousada.

Inúmeras foram as dificuldades a serem vencidas para sua implantação, notadamente no que se refere à liberação de recursos orçamentários. Coube ao Engº Carlos Eduardo D’Alamo Lousada desenvolver, no Brasil, intensa atividade junto ás autoridades e personalidades do governo, de quem dependiam providências relativas à liquidação dos compromissos decorrentes da implantação do projeto. A atuação eficaz do Dr. Carlos Eduardo possibilitou a agilização das ações e o êxito final do empreendimento. Da firme disposição do Sr. Embaixador em superar as dificuldades apresentadas, constitui prova eloqüente a afirmação por ele feita em carta endereçada ao Marechal Cordeiro de Farias, anos mais tarde:

“Quando o saudoso Presidente Castelo Branco honrou-me ao designar-me Embaixador do Brasil em Roma, tornei prioritária, entre outros assuntos, a restauração de um marco, que para sempre fizesse lembrar a epopéia da Força Expedicionária Brasileira na Itália.”

O coroamento dos esforços dispendidos ocorreu com a inauguração do belo e singelo Monumento Militar Brasileiro de Pistóia, em solene e tocante cerimônia promovida pela Embaixada Brasileira, abrilhantada pela presença de inúmeras autoridades, convindo destacar os brasileiros

Embaixador Henrique de Souza Gomes, representante do Brasil junto à Santa Sé.

Gen. Ex. Floriano de Lima Brayner, Chefe da Delegação Especial das Forças Armadas Brasileiras.

e os italianos

Ministro das Relações Exteriores

Generais Chefes de Estado-Maior da Marinha e da Aeronáutica

Subsecretário da Defesa

Oficiais Generais das Três Forças Armadas

Prefeitos de Florença e de Pistóia

Bispo de Pistóia

além dos Adidos Militares dos países aliados.

Participou, ainda, no evento, uma expressiva representação popular, composta por camponeses e habitantes das montanhas vizinhas, que decoraram o caminho que conduzia ao Monumento e portavam bandeiras e coroas em homenagem aos soldados brasileiros que combateram naquelas localidades.

A singeleza e a expressividade da obra foram descritas, com extrema felicidade, pelo jornalista Rocco Morabito, enviado especial do jornal “O Estado de São Paulo”, em artigo referente à cerimônia de inauguração e do qual extraímos o seguinte trecho:

“ESPETÁCULO INESQUECÍVEL”

“As palavras que o General Lima Brayner, Chefe da Missão especial brasileira, pronunciou diante do Monumento: ‘O nome de Pistóia ficou para sempre gravado no coração dos brasileiros’, podem ser também compreendidas no sentido de que no coração do povo de Pistóia é perene a lembrança dos soldados brasileiros mortos, aos quais amam como seus próprios filhos, conforme disse o Prefeito Conrado Gelli.”

“No monumento em que o cortejo das autoridades chegou diante do Monumento, ofereceu-se-lhe um espetáculo inesquecível: guardado por gigantescos ciprestes canadenses, estendia-se diante de seus olhos o caminho de mármore no qual foram inscritos os nomes das vinte batalhas ganhas pela Força Expedicionária Brasileira. À direita e à esquerda, canteiros delimitados entre linhas de mármore em forma de cruzes. Mais adiante, uma grande esplanada de mármore em cujo centro se encontram a pira de chama perene e o altar acima do qual se projeta uma delgada edícula com um teto com a aparência de um véu. E no fundo, o grande muro em que foram inscritos os nomes dos soldados brasileiros mortos. Além do muro, os ciprestes com o cenário dos montes de Pistóia colorido de azul escuro.”

 

III – O ESFORÇO PELA POSSE DA ÁREA DE PISTÓIA

Apesar da área do ex-Cemitério Militar ter sido ocupada desde 1945 até 1960, quando se processou o traslado dos restos mortais dos militares brasileiros que ali estavam sepultados para o Rio de Janeiro, no Monumento Nacional aos Mortos da II Guerra Mundial, não foi fácil a obtenção efetiva de sua posse. Isso porque, de acordo com a legislação internacional, para a sua posse, definitiva e reconhecimento oficial como Cemitério Militar, seria necessária a permanência, ali, dos restos mortais de pelo menos um dos nossos Pracinhas. O não atendimento a esse requisito implicaria a necessidade de gestões periódicas para a renovação da ocupação, com os previsíveis transtornos decorrentes e que poderiam culminar com a restituição da área ao governo italiano.

A atuação do Embaixador D’Alamo Lousada para solucionar o impasse foi traduzida em inúmeros expedientes e contatos pessoais junto a autoridades dos governos brasileiro e italiano, que chegaram a cogitar a hipótese de se fazer retornar a Pistóia uma das 438 urnas já repatriadas (soldado desconhecido). Essa hipótese, registre-se, foi considerada fora de cogitação pelo ex-comandante da FEB, Marechal Mascarenhas de Moraes, cuja atitude sempre foi de total dedicação e carinho paternal no exercício da nobre missão que se atribuiu, até o fim de seus dias, de ser “um fiel servidor de sua FEB.”

Decorridos seis meses da inauguração do Monumento Votivo, o Embaixador D’Alamo Lousada foi informado por carta pelo Gen. Ex. Floriano Lima Brayner da possível existência, na região de Montese – palco de uma das mas acirradas batalhas vencidas por nossas tropas – de duas ossadas atribuídas a soldados brasileiros. Diante desse novo dado, determinou o Senhor Embaixador a realização de pesquisas na região indicada, e sobre cuja execução cumpre ressaltar a atuação dos seguintes personagens principais:

Cel. Luiz Cezário da Silveira, Adido Militar à Embaixada Brasileira, a cujo empenho, dedicação e interesse deve ser creditado o êxito das medidas decorrentes da intensa ação diplomática do Embaixador D’Alamo Lousada junto às autoridades dos governos do Brasil e da Itália.

Dr. Luiz Cláudio D’Alamo Lousada, que se encontrava em férias na Itália, acompanhou juntamente com o Cel. Cezário, Adido Militar, os trabalhos de localização dos restos mortais do soldado brasileiro, servindo ainda como testemunha da exumação, do traslado e da oficialização daqueles atos perante as autoridades locais.

Padre Alessandro Cavalli, que desempenhou, voluntariamente, durante a guerra, a delicada missão de negociador da rendição de tropas alemães aos brasileiros vitoriosos de Montese, destacando-se por sua abnegação, conduta heróica e espírito cristão. Com risco da própria vida, percorreu os espaços que separavam as forças em confronto, sob fogo contínuo de artilharia, entregando e recebendo mensagens que representaram a salvação de inúmeras vidas, além da preservação de bens patrimoniais da população local.

Numa daquelas etapas de negociação, a explosão de uma mina ocasionou a morte de um soldado brasileiro que o acompanhava e que foi ali mesmo sepultado. Não obstante essa ocorrência, o Padre Cavalli prosseguiu em sua benemérita missão até que se consumasse um dos episódios épicos da atuação da FEB representado pela rendição da 148ª Divisão Alemã, cuja síntese foi o ultimato formulado nos seguintes termos:

“AO COMANDO DA TROPA SITIADA NA REGIÃO DE FORNOVO E RESPÍCIO:

“Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos, incondicionalmente, ao Comando das Tropas Regulares do Exército Brasileiro, que estão prontas para vos atacar.

Quem vos intima é o Comandante da Vanguarda da Divisão Brasileira que vos cerca”.

Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta ao presente ultimato.

a) Nelson de Melo, Coronel Comandante”

A vitoriosa manobra da Divisão Brasileira mereceu do Gen. Mark Clark, Comandante do XV Grupo de Exércitos Aliados a seguinte citação:

“Foi o magnífico final de uma atuação magnífica.”

Decorridos vinte anos dessa epopéia, quando da realização da pesquisa determinada pelo Embaixador Lousada, o já então Monsenhor Cavalli, Pároco da igreja de Parma, prestou excelente colaboração na determinação do local exato da ocorrência, participando e orientando os trabalhos de terraplanagem que se fizeram necessários devido às alterações havidas na região. Sua atuação foi decisiva para o resgate dos restos mortais do Pracinha brasileiro e para o traslado dos mesmos para a área do ex-Cemitério Militar de Pistóia, o que possibilitou assegurar a posse daquela área, em caráter definitivo, pelo Brasil.

Sub. Ten. Miguel Pereira, que administrou o ex-Cemitério Militar de Pistóia desde 1945 e, após o repatriamento dos corpos dos soldados mortos, continuou zelando pela manutenção daquele sítio histórico. Enfrentou e superou inúmeras dificuldades, até mesmo as resultantes do inconformismo de eventuais dirigentes municipais comunistas, contrários à existência de marcos simbólicos de países do mundo ocidental. Esteve presente em todas as etapas da identificação dos locais do acidente e do sepultamento do soldado vitimado em Fornovo. Ao ser transferido para a inatividade, e, em conseqüência, afastado do Serviço Ativo do Exército, logrou permanecer no cargo de administrador do Monumento Votivo em que se encontrava desde 1966 por recomendação do Marechal Mascarenhas de Moraes.

Também sob esse aspecto se fez sentir o empenho pessoal do Embaixador D’Alamo Lousada, assegurando melhores condições de sobrevivência ao Sub. Ten. e sua família, através da contratação de seus serviços pelo Ministério das Relações Exteriores.

 

IV – HOMENAGEM AO PATRONO DA OBRA

O elevado sentido cívico que emprestamos a este ato singelo de exaltação à feliz iniciativa destinada a perpetuar a lembrança de uma das páginas mais importantes de nossa História Contemporânea, que foi a participação militar brasileira no Teatro de Operações da Itália na II Guerra Mundial, não estaria, no entanto, completa, sem a decorrente homenagem devida ao idealizador e principal artífice da obra que deu vida e consolidou aquela sua iniciativa.

Consideramos, por isso, oportuno difundir o trecho de uma das cartas dirigida por S. Exª ao Gen. Ex. Floriano de Lima Brayner, então Ministro do Superior Tribunal Militar, agradecendo as referências formuladas por aquele destacado Chefe Militar a respeito de sua atuação e cujo teor avulta de importância em face da crise de valores com que a Nação Brasileira se defronta nos dias de hoje:

“Guardarei também no meu arquivo, como patrimônio precioso, os seus conceitos sobre a minha conduta nas funções que recebi de nosso Governo como seu representante e do povo brasileiro além fronteiras e mares.

A sua palavra, vinda de um chefe considerado rigoroso no cumprimento do dever e justo, merece que se passe aos filhos, para que compreendam o porquê da nossa severidade tantas vezes usada, de maneira a que se mantenha a tradição do respeito, da decência, da hierarquia e outros fatores morais, que formam a base da família e da própria nacionalidade.”

Esse conjunto de valores, presentes em todas as atividades desenvolvidas no exercício das diversas comissões que exerceu, com brilho invulgar, em sua carreira, constitui um belo exemplo de trabalho fecundo, transmitido às gerações de diplomatas que se lhe sucederam.

Justo é, pois, que se tribute ao eminente brasileiro Embaixador Francisco D’Alamo Lousada, responsável direto pela materialização, em todas as etapas, da obra magnífica que se constitui em altar de gratidão àqueles bravos que tudo deram de si ao Brasil, a expressão do nosso reconhecimento, manifestado perante a elite cultural petropolitana aqui tão bem representada e que ele também integrou, a seu tempo, como sócio efetivo deste Instituto Histórico.

Em louvor à sua memória, é oferecida, neste ato, por seus descendentes diretos, Dr. Luiz Cláudio e Dr. Carlos Eduardo D’Alamo Lousada, à sociedade em cujo seio o ilustre homenageado conviveu e se radicou, uma síntese do registro dos fatos, feitos e personalidades aqui narrados ou citados, para que constem do acervo documental deste Silogeu, na certeza de que os mesmos serão preservados e franqueados a todos quantos se interessarem pelo que, no dizer do imortal Alexandre Herculano, representa “o amor às velhas coisas da Pátria”

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