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30/05/2011

Tribuna de Petrópolis:
13/07/1958

Um Roteiro de Estudos

Guilherme Auler

Não nos parece exata a afirmação dogmática de certos cavalheiros sobre a IMPERIAL COLÔNIA DE PETRÓPOLIS. Declaram que o seu estudo histórico já se acha concluído e nada de importante resta a pesquisar.

Situamo-nos, em polo oposto, em absoluta divergência. E para início de conversa, convém lembrar que dos Relatórios Anuais da Colônia somente foram localizados e publicados os referentes aos anos 1848, 1849, 1853, 1854, 1855, 1856 e 1857. Desconhecem-se, portanto, cinco deles, ou sejam os relativos a 1850, 1851, 1852, 1858 e 1859.

Também, os ofícios do Major Julio Frederico Koeler, que muita informação proporcionam sobre os anos 1845 a 1847, ainda se acham inéditos, na sua grande parte.

Muitos aspectos da Colônia pedem uma atenção especial. Por exemplo, as obras realizadas pela Diretoria, com descrição tão minuciosa nos relatórios, permitem o estudo bem desenvolvido da nossa geografia urbana. Acompanhamos, nesses documentos, a abertura de Ruas e de Caminhos, a construção de pontes e canais, o alargamento das vias de acesso, a modificação provocada com escavações e aterros, enfim tudo que o braço humano realizou, na urbanização de Petrópolis, executando o genial projeto do Major Koeler.

O movimento demográfico, desde a primeira estatística publicada no Relatório do Presidente Aureliano, com as curvas de casamentos, nascimentos e óbitos, fornece curiosos elementos de desenvolvimento e expansão. E, se encararmos o setor genealógico, as descendências dos Colonos, famílias que desapareceram pela falta de varonia ou de prole, ou as que se expandiram de modo exuberante, chegaremos a conclusões surpreendentes.

 Os nomes dos Colonos, suas origens, e a própria quantidade dos elementos chegados, são temas não definidos. Além dos 1.818 Colonos citados pelo Presidente Aureliano, há mais 200 que em fins de 1846 [espontaneamente chegam] (truncado na publicação), segundo revelações dos papéis oficiais. Daí, surge uma distinção na estatística do Diretor Galdino, onze “Colonos obrigados à Província”, isto é, devedores das despesas de suas passagens, e Colonos sem qualificativo algum. O povoamento dos Quarteirões, a natureza das casas e seu mobiliário, despertam muita curiosidade. E nos antigos inventários, colhemos elementos esclarecedores.

As finanças da Colônia representam outro capítulo muito controvertido por alguns, que se esquecem que tudo é pago pela Província do Rio de Janeiro. Confundem despesas da Superintendência da Imperial Fazenda, isto é, dinheiro vindo da Mordomia da Casa Imperial, com os gastos da Diretoria. Além da verba mensal de 6:000$000, a Província inúmeras vezes aplicou outras vultosas quantias, a título de verbas extraordinárias, como na compra de terrenos para o novo Cemitério e o Matadouro, e na construção e abertura de ruas e canais.

O trabalho do Colono, nos diversos ramos profissionais, na indústria e no comércio, com a projeção especialíssima do artesanato, requer uma investigação paciente. E convém não esquecer a enorme parcela, que deu na construção do Palácio Imperial.

Em matéria de instrução, observa-se pelas assinaturas dos Colonos, em escrituras da Superintendência, que todos eram alfabetizados. E o primeiro pedido que eles fazem ao Presidente da Província e ao Mordomo da Casa Imperial, em 19 de outubro de 1845, na primeira grande festa da Praça Coblenz, refere-se à criação de escolas para os filhos. E assim numa população de 2.114 Colonos, há 477 crianças frequentando seis escolas. Desgraçadamente, hoje não possuímos as mesmas proporções, nem para o índice de matrícula de alunas, nem da quantidade de estabelecimentos educativos. E viva o progresso ... do analfabetismo!

A vida associativa esboçada, desde 1853, com a “GEWERBE VEREIN”, e continuada pelas diversas sociedades de canto, de beneficência, esportivas e recreativas, proporciona rico material de análise e investigação.

A imprensa dos Colonos, isto é os jornais “BRASILIA” e “GERMANIA”, o primeiro surgido em janeiro de 1858, certamente, muitíssimas informações proporcionará ao leitor felizardo, que não desconheça a língua alemã.

Finalmente, a vida religiosa, os hábitos e costumes dos Colonos, as suas festas típicas, tradições ainda conservadas nos mais afastados Quarteirões, oferecem novos entes aos especialistas do estudo da vida social, segundo as inúmeras preferências.

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