digitação utilizada para inclusão no site:
22/08/2000

Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes - Via Internet
www.earp.arthur.nom.br 
- em 22/02/2005
Arquivo ama08002, rg 10702 e 10702,01 revistos para o site.

Jornal de Petrópolis:
29/07/1973

O VIGARINHO

Gabriel Kopke Fróes

Monsenhor Teodoro da Silva Rocha foi o que se pode chamar um bom vigário. E muito querido, como todos seus paroquianos sempre faziam questão de demostrar-lhe.

A começar pelo nome pelo qual de preferência era chamado: Vigarinho.

Vigarinho, um pouco, por ser pequeno de estatura; mas muito mais por carinho e amizade.

Após 24 anos de vicariato, já morto, dele dir-se-ia: “A vida do vigário de Petrópolis sintetizou-se nesta idéia: o pároco não viveu para si, viveu para os paroquianos. Sim, o Vigarinho viveu só para os petropolitanos, porquanto, logo que se ordenou, para aqui veio e aqui deveria morrer.

Teodoro da Silva Rocha nasceu na fazenda de São Pedro dos Rochedos, no município fluminense de Valença, a 31 de julho de 1873. Aos 13 anos, já adiantado nos estudos sem haver frequentado a escola, foi internado com um seu irmão no Seminário de São José do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Seus pais, ao matriculá-lo no Seminário, visavam a aproveitar, tão somente, o colégio eficiente provido de bons professores.

Breve, porém, revelar-se-ia e haveria de prevalecer a vocação de um predestinado.

A 10 de abril de 1887, festa da Páscoa da Ressurreição, foi o dia da Primeira Comunhão de Teodoro. Que se passaria entre a alma da criança e Jesus? Que comunicaria Deus a Teodoro e que prometeria, em retorno, Deus a Teodoro?

O que se soube foi apenas que, após o ato sagrado, interrogados os dois irmãos se pretendiam seguir a carreira eclesiástica, só Teodoro respondeu afirmativamente: - “Eu não vim aqui senão para ser padre e é o que quero ser”. E assim foi. Dom Francisco do Rego Maia, Bispo de Niterói, conferiria ao jovem sacerdote em 1896, sucessivamente, o sub-diaconato, a 30 de maio; o diaconato, a 13 de dezembro; e o presbiterato, a 19 de dezembro.

A 14 de novembro de 1897, por força do Decreto Consistorial do Papa Leão XII designando Petrópolis sede do Bispado Fluminense, o Bispo Dom Francisco do Rego Maia fazia a sua entrada solene em nossa cidade, trazendo consigo, como escrivão da Câmara Eclesiástica, o padre Teodoro da Silva Rocha.

Em 1898, não obstante suas absorventes funções na Câmara Eclesiástica, padre Teodoro foi designado também capelão da Escola Doméstica Nossa Senhora do Amparo.

E a 28 de janeiro de 1901, apenas com 28 anos de idade, o moço escrivão e capelão receberia de Dom Francisco Rego Maia a provisão de vigário de Petrópolis. O título de monsenhor obtê-lo-ia a 19 de setembro de 1908.

A atuação do vigário Rocha à frente da paróquia de Petrópolis foi admirável e durou 24 longos anos. Seu prestígio foi tamanho que atingiu, não raro, às raias do misticismo. Por ocasião de sua morte súbita, por exemplo, houve quem dela duvidasse, gerando dúvidas e lendas que perduraram durante muito tempo. Eram os que, por amor ao bom pastor - fenômeno comum na hora das grandes desgraças - não quiseram ou não puderam enfrentar a realidade.

Pena foi que não tivesse podido concretizar a realização de seu mais ardente sonho: a mudança da Matriz do velho prédio da avenida 7 de Setembro para o majestoso monumento do largo da Princesa. Mas bateu-se quanto pôde pela idéia e, lutando por ela, é que se foi deste mundo. “Morreu em circunstâncias impressionantes no seu posto de honra e em pleno exercício de seu santo ministério, pregando, do alto da tribuna sagrada, as puras e imperecíveis doutrinas do Divino Mestre e pugnando pela conclusão de uma das mais belas e grandiosas obras petropolitanas: a Catedral de Petrópolis”. Foram estas as palavras com que Walter Bretz concluiu seu artigo “Vicariato de Petrópolis”, publicado na “Tribuna de Petrópolis” em 28 de fevereiro de 1925, a propósito do falecimento de monsenhor Rocha. Monsenhor Teodoro da Silva Rocha, o bom vigário, rezava a missa das 9,15 horas no domingo, dia 22 de fevereiro de 1925, na velha e muito saudosa Matriz da avenida 7 de Setembro e se encontrava no púlpito, explicando a passagem do Evangelho, quando, atacado por mal súbito, caiu ao chão, ante a estupefação dos fiéis que enchiam o templo. Socorrido logo, entre outras pessoas, pelo capitão médico do 1º Batalhão de Caçadores ali presente, monsenhor Rocha foi levado para sua modesta moradia situada atrás da igreja, mas poucos após exalaria o último suspiro.

Era dia de carnaval e começavam a chegar até à cela do pároco ali inerte no catre, os primeiros ruídos da folia na Avenida 15 de Novembro. Chocavam, naquele ambiente de profunda tristeza, as músicas carnavalescas ali ouvidas em surdina!

Pouco a pouco, no entanto, o povo da cidade foi tomando conhecimento da infausta notícia e começou enorme romaria à velha Matriz.

O sepultamento da santa criatura teve lugar no dia seguinte, sendo acompanhado o féretro até o cemitério por todas as associações religiosas de Petrópolis, por grande massa popular, e até pelo representante do presidente da República.

Salomão Jorge, o tribuno-poeta da cidade, à beira do túmulo, deu o adeus sentido dos petropolitanos. Fê-lo, é claro, com palavras bonitas, mas principalmente, carinhosas.

Com todo aquele carinho a que fazia jus o nosso querido e muito saudoso Vigarinho! ...

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