digitação utilizada para inclusão no site:
24/07/2000

Tribuna de Petrópolis:
10/04/1966

Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes - Via Internet
www.earp.arthur.nom.br 
- em 23/08/2005
Arquivo cdg03001c, rg 5338 a 5338,01,  revistos para o site;
- em 15/09/2011
inclusão de observação no rg 5338,01
e correção neste site.

Anjinhos do Velho Ginásio Fluminense (Os)

Gabriel Kopke Fróes

Foi em meio à alegria geral da população petropolitana que, a 15 de março de 1899, começou a funcionar o Ginásio Fluminense no Palacete Mauá, à Avenida Piabanha. Criado pela lei estadual nº 285 de 3 de março de 1896, somente três anos depois, como se vê, seria instalado.

Breve, porém, apareceriam os primeiros “espetos”.

As imediações do Ginásio, compreendendo a Avenida Piabanha, o Palácio de Cristal e as ruas 13 de Maio, 7 de Abril e Montecaseros, foram transformadas em verdadeiro pandemônio. Terminadas as aulas, os colegiais, ou permaneciam defronte ao Ginásio, dirigindo pilhérias aos transeuntes, principalmente aos passageiros e cocheiros dos carros e carroças; ou se organizavam em bandos, indo para aqueles logradouros pregar peças as mais irreverentes aos negociantes ali estabelecidos.

E não havia para quem apelar, porque os outros diziam: travessuras próprias da idade ...

Algumas vezes, porém, surgiam casos mais ou menos sérios que exigiam a intervenção dos dirigentes do estabelecimento e quiçá de outras autoridades ...

Certa feita, por exemplo, quando se achava na Avenida Piabanha a turma do macadame da Municipalidade a recompor o calçamento, cismaram os colegiais, de dentro do galpão de ginástica, atingir os pobres trabalhadores com toda a sorte de projéteis encontrados à mão. A princípio, como todos faziam, os calceteiros não deram atenção à provocação; mas às tantas, esgotaram a paciência e passaram à ofensiva: os meninos haviam esquecido que suas vítimas estavam em cima de uma caixa de pedras soltas ...

Este outro caso provocaria, nada mais nem menos, do que a demissão do primeiro diretor do estabelecimento. Vizinha do Ginásio, à Rua Piabanha, havia a famosa chácara de madame Binot, respeitável senhora que aliava à cultura de orquídeas e cataléias, o “hobby” da criação de patos. Criava-os em casa, mas, a certas horas, soltava-os no rio e os palmípedes nadavam até longe, indo fazer evoluções em frente ao Ginásio. Ora, um dia, a rapaziada que já andava de implicância com madame Binot, resolveu implicar também com seus patos. E inventou uma brincadeira inocente: tiro ao alvo, com pedradas, na cabeça dos palmípedes. Mal começara o bombardeio, justamente os mais gordos e bonitos patos estavam emborcados ao sabor da correnteza das águas. Resultado: Madame Binot, logo após, sobraçando meia dúzia das pobres vítimas, entrava na Portaria para queixar-se da maldade.

O diretor do estabelecimento, o provecto educador dr. José Júlio da Silva Ramos, brasileiro de Pernambuco educado em Portugal, suspendeu imediatamente o recreio, mandando que todos os alunos se recolhessem ao salão. Lá, dirigiu, como era seu hábito, verdadeiro discurso aos rapazes, invectivando-os pelo ato praticado e concitando-os a procederem bem. Deveriam mostrar-se educados, recomendando com seu procedimento, o bom nome das próprias famílias e o educandário que frequentavam. Na peroração, declarou textualmente: E quem exige que os senhores assim procedam não sou eu; não são os seus professores; não são seus pais: é a lei que é soberana, é a lei que a todos obriga. Carregou tanto o sotaque que a “lei” se transformou em “lai” ...

Foi aí que um aluno mais ousado, lá do fundo do salão, fez eco das últimas palavras: é a lai, é a lai! ...

Sem dizer palavra, o diretor desceu do estrado, retirou-se da casa e, naquele mesmo dia, renunciou ao cargo.

Num dos últimos dias do século XIX, a moçada, na forma do hábito, estava reunida nas imediações do ginásio a dirigir gracejos aos transeuntes. Estes davam de ombros e iam andando. Eis, porém, que aparece o carro do Barão de Pedro Afonso, sem o Barão, mas tendo à boléia, todo empertigado, o “Caveira”, um cocheiro que já pelo apelido não se recomendava muito. Alvo da chacota dos ginasiais, o “Caveira” reagiu com palavrões, mas seguiu seu caminho.

Passado, no entanto, algum tempo, surge, de novo, o carro do Barão, agora com um latagão de meter medo sentado na boléia, ao lado do “Caveira”.

Parando o carro, acintosamente, defronte ao grupo, o “Caveira” desandou a ofender todo o mundo com palavras do mais baixo calão, desafiando qualquer um à luta corporal. A seu lado, o latagão sorria ...

Pois foi, talvez, o mais mirradinho dos colegiais que se destacou do grupo para responder pelos colegas. Com muita lábia o rapazelho convence o cocheiro a descer lá de cima e quando o covarde, trazendo às mãos uma barra de ferro, investe ... ai do “Caveira”, o menino era o Mário Tapajós!

Abaixando-se, o Mário evita o golpe tremendo que lhe é desfechado e, no mesmo instante, ganhando impulso, aplica com incrível agilidade, certeira cabeçada à altura do estômago do agressor que vai a nocaute.

Enquanto isso, o outro brutamontes, pretendendo socorrer o companheiro, também saltara da boléia, mas coitado! ... Seu quengo foi pequeno para as bengaladas que recebeu.

E o que, a seguir, se viu foi os dois “valientes” – um coçando a cabeça e outro a barriga – galgarem de qualquer maneira a boléia e tocarem, de volta, a toda a velocidade, o carro do Barão de Pedro Afonso!

O jovem Paulo Campos Sales, filho do Presidente da República, matriculara-se no ginásio. E como todo o rapaz granfino da época, lá apareceu com bonito chapéu e a clássica bengala. Deixou ambos os pertences na Portaria e à tarde, terminadas as aulas teve a surpresa de encontrá-los crivadinhos de uma estranha espécie de selos ali colados, às escondidas, pelos colegas de Paulo ...

Há um corre-corre generalizado, com contínuos e até professores tentando descolar os selos do chapéu e da bengala de sua alteza presidencial.

Esclareça-se que os tais quadradinhos coloridos eram as estampilhas do imposto de consumo recém-criado pelo dr. Campos Sales, as quais enfeitavam, sob a curiosidade popular, tudo que era exposto à venda: sapatos, roupas, chapéus, cigarros, fósforos, bengalas, etc, etc.

A brincadeira dos garotos, embora todo o esforço dos dirigentes, provocou, no entanto, uma encrenca dos diabos. Logo no dia seguinte, o próprio presidente Campos Sales compareceu ao Ginásio para queixar-se daquilo que, declarou indignado, era um acinte à lei e um deboche ao governo.

Foi, somente, com a promessa do diretor do estabelecimento de agir pronta e energicamente que o Presidente se acalmou e retirou-se do Palacete Mauá, retornando o carro que ficara à sua espera na entrada principal.

Após um passeio pela cidade, o dr. Campos Sales voltou ao Palácio e recolheu-se aos seus aposentos.

Só, então, é que os cocheiros puderam perceber que toda a traseira do belo carro presidencial estava coberta dos tais selos do imposto do consumo!

Fora com o carro assim enfeitado que o Presidente da República passeara pela cidade ...

Eta, garotada braba!

Em meado de 1901, assumiu a direção do Ginásio o dr. Raimundo Correia, professor ilustre, poeta inspirado, magistrado íntegro e chefe de família exemplar.

Tendo a favorecê-lo a bela barba que usava, o dr. Raimundo Correia cuidou de exercer o novo cargo com a maior austeridade possível, pois sabia bem com que alunos ia lidar ...

Dentro em pouco, o novo diretor se havia imposto ao respeito e à estima de professores e alunos e tudo parecia correr num mar de rosas.

Eis, porém, que, a 3 de agosto de 1901, “Gazeta de Petrópolis” publicava em sua primeira página o seguinte soneto:

BEIJOS DO CÉU

Sonhei-te assim, oh minha amante, um dia:
Vi-te no céu; e, enamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia ...

Santos e anjos beijam-te ... Eu bem via!
Beijaram todos o teu lábio ardente:
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!

Nisto, o ciúme – fera que eu não domo ...
Despertou-me do sono, repentino ...
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado

E beijei-te também, beijei-te e ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino,
Tantas vezes assim no céu beijado!

Raimundo Correia

No dia seguinte, os versos andavam de mão em mão no Ginásio, provocando zombaria entre alunos e estupefação entre professores ...

- Então, santarrão de pau oco! ...

- Façam o que eu digo e não o que eu faço! ...

Eram estas as frases irônicas ouvidas no seio da rapaziada.

Entretanto, o dr. Raimundo Correia dirigira carta ao redator da “Gazeta de Petrópolis”, manifestando sua contrariedade pela publicação do soneto feito sem ciência prévia do autor. Reclamava uma declaração a respeito, enquanto que o redator alegava não ter agido com segundas intenções, tendo-se limitado a fazer a transcrição de um jornal da Bahia.

O caso foi que o diretor do Ginásio e o redator da “Gazeta” ficaram de relações estremecidas. Mas, cá entre nós: a publicação do tal soneto, não está na cara? Só pode ter sido obra de um daqueles anjinhos sem asas do Ginásio Fluminense ...

Mas, afinal, quem foram aquelas endiabradas criaturas que arrastaram nossos avós pela rua da amargura?

Ei-los, alguns, e não desmaiem: Abelardo Marques Batista Leão, Alcindo Figueiredo Baena, Ataide Parreiras, Aires Maia Monteiro, Bartlett James, Leopoldo e Roberto Duque Estrada, Manuel Joaquim Moreira da Fonseca, Raul David Sansom, João e Frederico Teixeira Soares, Carlos Newlands, Edmundo Miranda Jordão, Fernando Barros Franco, Tarquinio de Souza Junior, Alvaro Martinho Morais, Armando Palhares Aguinaga, Gastão Cruls, Jorge e Paulo Franco, Salvador e Antônio Fróes, Jorge Pereira de Andrade, Luís e Mário Tapajós, Maurício de Lacerda, Maurício e Eugênio Gudin, Luciano Gualberto, Aniceto e Ulysses de Medeiros Corrêa, Itabaiana de Oliveira, etc, etc.

Entre êles ...

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