digitação utilizada para inclusão no site:
27/07/2000
de
www.earp.arthur.nom.br

Texto acima atualizado a 12/07/2003, quanto ao endereço do Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes.

Texto básico de palestra no IHP a
15/03/1958

Jornal de Petrópolis:
04/03 e 08/05/1958

digitação incompleta para Tribuna de Petrópolis a
10/09/1996

O CARÁTER PETROPOLITANO

Parte 4

Gabriel Kopke Fróes

4 - Hospitalidade –

Rio Branco, Ruí Barbosa e Santos Dumont

Vimos, até aqui, manifestações de várias espécies do povo petropolitano, ora bem, ora mal humoradas, mas, na maioria das vezes, inspiradas pelo insopitável bairrismo que o caracteriza.

Mas será que a êsse povo só interessam as causas ligadas diretamente à cidade? Como se terá êle portado, por exemplo, ante as causas sagradas da mãe-pátria?

Nos casos do dr. Fort e dos quebra-quebras das duas grandes guerras, episódios já descritos, tivemos, com a vibração da multidão em face dos insultos recebidos, expressivas mostras do civismo petropolitano. Mas verifiquemos, em outras ocasiões, quando de cabeça fresca, como tem êle procedido. Apreciemos, por exemplo, sua atitude ante os grandes vultos da nacionalidade, já que é, comumente, acusado de indiferença para com os visitantes, acostumado que está a vê-los, rotineiramente, chegarem e sairem da cidade.

Santos Dumont, Rio Branco e Rui Barbosa foram, talvez, os brasileiros de maior projeção, até hoje, no país. E Petrópolis recepcionou os três, quando nos pináculos das respectivas glórias.

Vejamos como, ante êles, se portou o povo petropolitano.

A morrinhenta chuva de verão, tão nossa conhecida, que caía desde as primeiras horas da tarde, não impedira que a estação da Estrada de Ferro Leopoldina se apresentasse, na noite de 1º de dezembro de 1902, repleta de povo.

Membros da mais alta administração e magistratura estaduais; presidente e vereadores à Câmara Municipal; oficiais da Fôrça Pública e da Guarda Nacional; funcionários federais, estaduais e municipais; comissões representativas de clubes e associações, pessoas, enfim, de todas as classes sociais, compondo uma grande massa popular, lotavam complètamente a plataforma e o saguão da estação transbordando ainda pelas imediações.

O local achava-se decorado com bandeiras e folhagens, estando o trajeto da estação à Pensão Central com o solo atapetado de flores.

Uma feérica iluminação elétrica completava a ornamentação.

Era assim que Petrópolis se tinha preparado para receber naquela noite, o Barão do Rio Branco.

Rio Branco voltava à pátria após estrondosa vitória brasileira nas questões de Missões e Amapá, e o país inteiro exultava, manifestando sua gratidão ao excelso brasileiro pela extraordinária atividade por êle desenvolvida em defesa da causa do Brasil.

Não era à tôa, portanto, que o povo petropolitano enfrentava a chuva para permanecer em massa na estação.

A ansiedade pela chegada do comboio que devia trazer à nossa cidade o eminente brasileiro era geral. E, às 7,30 horas, ao anunciar o apito estridente da locomotiva a entrada do trem na estação, o povo prorrompeu em aplausos entusiásticos, que redobraram quando a figura imponente do Barão assomou à porta do vagão. O desembarque foi feito sob uma chuva de pétalas de rosas atiradas por senhoras, senhoritas e crianças.

No carro em que viajou o Barão, chegou também o general Quintino Bocaiuva, presidente do Estado, que fôra à estação do Alto da Serra esperar o ilustre visitante.

Foi com dificuldade que o Barão pôde chegar ao saguão da Estação, rompendo a massa popular que o aclamava incessantemente. Ali, representando a família petropolitana, haviam se reunido, em número extraordinário, senhoras e crianças que prorromperam, então, em aclamações entusiásticas como poucas se terão ouvido até hoje. O menino Gumercindo Loreti saúda o Barão, em nome da infância, sendo abraçado e beijado pelo homenageado. A seguir, são as autoridades estaduais e municipais que apresentam boas-vindas. E, por fim, o Barão, visivelmente comovido, primeiro pelo entusiamo do nosso povo, e depois pela delicadeza da homenagem de senhoras e crianças, faz questão de falar. Agradece a recepção do povo brasileiro em geral, tendo palavras de carinho para com o povo petropolitano. Atravessando a rua, que, conforme já foi dito, estava atapetada de flores, o Barão se dirigiu para a Pensão Central, fronteira à Estação, onde se hospedou.

No dia seguinte, dar-se-ia, no Rio de Janeiro, posse a Rio Branco, o maior Ministro das Relações Exteriores que o Brasil já teve.

A estação da Leopoldina, tôda ornamentada de folhagens, galhardetes, bandeiras e flores em profusão, abrigava, na tarde de 28 de janeiro de 1908, uma pequena multidão que ali aguardava a chegada de Rui Barbosa, a Águia de Haya.

A famosa banda do Clube Leopoldo Miguez, tocando excelente música, alegrava o ambiente.

Às 6 horas em ponto (naquele tempo havia horárias ...) dava entrada na estação o trem conduzindo o grande brasileiro. A locomotiva – homenagem clássica da Leopoldina aos seus passageiros mais ilustres – estava enfeitada com bandeiras do Brasil e da Inglaterra.

Logo que o trem parou, de um dos morros vizinhos estrondeou uma salva de 21 tiros.

A banda de música executa o Hino Nacional e o povo prorrompe em vibrantíssimas aclamações.

Rui desce do carro especial e recebe os primeiros cumprimentos: do dr. Hermogênio Silva em nome da Câmara Municipal e do comte. Pedro Veloso Rabelo, em nome do Presidente da República, dr. Afonso Pena. E caminha-se, depois, com as senhoras formando alas, para o saguão da “gare”, onde entra sob uma chuva de pétalas de rosas.

O dr. Arthur de Sá Earp pronuncia eloquente discurso e Rui agradece, chamando nossa cidade de “rainha das serras”. Um “Viva Petrópolis” foram as palavras derradeiras do homenageado.

Às seis horas e meia, forma-se, enfim, o cortêjo que levaria o ilustre hóspede da cidade à sua residência, na praça da Liberdade.

Nas ruas centrais, o povo postado nas calçadas e às portas e janelas de suas casas brasileiro, para aclamá-lo co aguardava a chegada do grande todo o entusiasmo.

Petrópolis, felizmente, tinha sabido receber condignamente seu ilustre hóspede, o formidável heroi de Haya.

O nosso genial patrício Alberto Santos Dumont estivera no Brasil em 1903, logo após o sucesso do seu dirigível em tôrno da Torre Eifel, vôo com o qual conquistou o prêmio “Deutsch re la Meurthe”. Não veio, porém, a Petrópolis.

A seguir, só voltaria à pátria em 1914, onze anos depois da visita anterior e sete anos após o vôo, em aeroplano, em Bagatele. Desembarcou no Rio de Janeiro a 2 de janeiro de 1914 e, dois dias depois, subia para a nossa cidade.

À “gare” da Leopoldina Railway, tôda ornamentada, afluira, na bela manhã de 4 de janeiro, uma multidão calculada em cêrca de mil pessoas. O povo de Petrópolis e os veranistas em vilegiatura lá estavam, irmanados pelo mesmo sentimento cívico, para aplaudir o patrício que, dominando o espaço, assombrara o mundo.

O bom gôsto da ornamentação, a presença predominante do elemento feminino e a música do 55º Batalhão de Caçadores emprestavam ao local um aspecto realmente muito alegre e festivo.

O trem das 10,20 horas, trazendo Santos Dumont em carro reservado, entrou na “gare” sob estrepitosa salva de palmas, logo seguida por entusiásticos vivas e aclamações. Senhoras e senhoritas formam alas, e o nosso glorioso patrício desde do vagão entre elas, sob a clássica chuva de pétalas de rosas.

O entusiasmo do povo, em tal momento, atinge às ráias do delírio.

O sr. Artur Barbosa, Presidente da Câmara Municipal, da ao visitante as boas-vindas em nome da cidade, e o dr. Mário Pimentel Brandão apresenta-lhe os cumprimentos do Presidente da República. Uma comissão presidida por Paulo de Frontin e constituida por Joaquim de Gomensoro, João Teixeira Soares, Alberto de Faria, Barão de Mendes Tota, Manuel Augusto Teixeira, Vilela dos Santos e Joaquim Moreira, faz as honras da casa.

Andando, a pé, entre o povo que o aclamava sem cessar Santos Dumont dirige-se para a rua Paulo Barbosa, onde toma o automóvel da Presidência da República, posto à sua disposição. Vai para a residência de Paulo de Frontin, que lhe oferece o almôço.

À tarde, em companhia de membros da comissão de recepção, o Pai da Aviação comparece ao Palácio Rio Negro, onde é recebido, em audiência especial, pelo Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca.

Após a audiência do Rio Negro, é oferecido ao visitante ilustre um elegantíssimo “five o’clock-tea”, no Palacete Mauá do sr. Alberto de Faria, ao qual comparece, em pêso, a nossa melhor sociedade.

E, finalmente, pelo trem das 8,20 da noite, ainda sob entusiásticas aclamações populares, Santos Dumont regressou ao Rio de Janeiro.

Falando aos jornalistas, na casa de Alberto de Faria, Santos Dumont manifestou sua surprêsa ante a massa de povo que o recepcionara, com tanto calor na estação da Leopoldina, pela manhã. Lembrou, com muita simpatia, que aqui residira, quinze anos atrás, e elogiou o clima, as belezas naturais e, principalmente, as flores da nossa cidade.

Era, então, visível a satisfação do grande brasileiro pela recepção que Petrópolis lhe proporcionara.

5 - Altruísmo –

Interessante característico do petropolitano é sua solidariedade permanente a tôdas as atividades humanitárias da cidade.

Povo que sustenta do próprio bolso as casas de caridade locais – inclusive o hospital de indigentes, instituição mantida em tôda parte pelo poder público – ainda sobra ao petropolitano ânimo para promover ou apoiar, amiude, movimentos filantrópicos visando coisas e pessoas de Petrópolis e de fôra.

Apreciemos, pois, alguns episódios reveladores do altruismo do nosso povo.

O Prédio da Tribuna de Petrópolis

O ano de 1928 começara mal, muito mal mesmo, para “Tribuna de Petrópolis”, o veterano órgão da imprensa petropolitana.

A Companhia Telefônica Brasileira, em vésperas da reorganização dos seus serviços, para neles introduzir, entre outros melhoramentos, o telefone automático, havia comprado o velho casarão da Avenida Mal. Deodoro nº 39, onde, desde muitos anos, se achava instalada “Tribuna de Petrópolis”. E havia solicitado a entrega urgente do imóvel para, no local, construir um grande edifício.

Bem que os donos do jornal tentaram arranjar outro prédio; em vão, porém, porque, já naquele tempo, prédio com aluguel acessível aos pobres jornais locais, era coisa deveras difícil.

Foi, então, que Artur Barbosa – sabe Deus com que sacrificio – comprou, em fim de março do referido ano de 1928 – um pequeno terreno resultante do loteamento do local onde existira o Hotel Bragança.

Restava, no entanto, o principal e mais difícil: a construção do prédio. Artur Barbosa, dono do jornal, era a criatura pobre que sempre conhecemos; “Tribuna de Petrópolis” era, como ainda hoje acontece com a imprensa petropolitana, uma fonte permanente de dificuldades financeiras; e o crédito era, na época, muito custoso.

Mas “Tribuna de Petrópolis” se encontrava no dilema de construir prédio próprio ou fechar suas portas.

Premido pelas circunstâncias e animado por alguns poucos amigos, Artur Barbosa resolveu, enfim, construir o prédio, anunciando, medrosamente, sua intenção em “Tribuna de Petrópolis”.

E, então, o que parecia impossível aconteceu. Choveram oferecimentos e facilidades e pouca coisa deve ter ficado faltando para o levantamento total do prédio. O escrivão Cruz Coutinho, deixando de cobrar os emolumentos da escritura de compra do terreno, iniciou a série. O Banco de Petrópolis com Osório Sales à frente, propõe o financiamento da obra; o engenheiro Luiz Morais Junior oferece o projeto do prédio e tôdas as plantas necessárias; pessoas de tôdas as classes sociais doam tijolos, telhas, cimento, madeira, azulejos, ladrilhos, cal, chumbo, material elétrico, pedra, caixa d’água, prégos, escadas, soleira, torneiras, etc.; outros contribuem com a mão de obra para a instalação elétrica e com todo o trabalho de fundição; alguns outros fazem presentes de plafonier, anúncio luminoso e relógio de parede; ainda outros prometem a secretária, a cadeira, o tinteiro e a caneta para o diretor do jornal; e, finalmente, há quem faça promessa do Hino da Tribuna e dos foguetes para a festa de inauguração.

De tal maneira, foi rápida a edificação do prédio, cuja inauguração se fêz a 1º de janeiro de 1929.

O coração generoso do povo petropolitano ainda não falhara daquela feita!

- Remissão dos Últimos Escravos Petropolitanos –

“Está escrita, finalmente, a mais bela página da história da nossa cidade” - foi como abriu Tomás Cameron seu artigo de fundo no “Mercantil” de 4 de abril de 1888. É que, três dias antes, isto é a 1º de abril de 1888, em solenidade realizada no Palácio de Cristal e na presença de Suas Altezas Imperiais, tinham sido entregues os títulos de remissão aos últimos escravos existentes em território petropolitano.

Era a muito a contragosto que Petrópolis, a filha do trabalho livre, vinha tolerando o trabalho escravo em seu seio. Por isso, desde muito, lutava para libertar seus escravos.

Uma comissão constituida pelo povo e composta do Barão de Ipanema, dr. José da Silva Costa, chefe de esquadra João Mendes Salgado, comºr. José Joaquim Bernardes, Pandia Calogeras, Cláudio José da Silva e Barão da Penha, concluia seus trabalhos naquele memorável dia.

Os populares se haviam reunido, prèviamente, no Salão Floresta, à rua do Imperador, para dali seguirem, pouco depois da uma hora da tarde, para o Palácio de Cristal. Abria o cortêjo a banda de música alemã, logo seguida daqueles que iam receber seus títulos de libertação e por inúmeras outras pessoas de tôdas as classes sociais. Os noventa e oito escravos presentes empunhavam, alegremente, pequenas bandeiras nacionais.

No Palácio de Cristal, uma grande multidão aguardava o cortêjo. O gracioso pavilhão, inteiramente de cristal, em que funcionava a Associação Hortícula e Agrícola de Petrópolis, achava-se ornamentado de sedas e flôres e ocupado pelas mais distintas famílias da sociedade brasileira, membros do Ministério do Império e do Corpo Diplomático e representantes da imprensa. Entre êstes últimos, encontrava-se o denodado José do Patrocínio.

A banda de música da Casa Imperial faz-se ouvir e o povo ovaciona prolongadamente.

Imediatamente, chegam Suas Altezas Imperiais e seus augustos filhos, todos entusiàsticamente recebidos.

Começou, então, a entrega dos títulos de libertação. Eram êles trazidos, um a um, pelos jovens príncipes petropolitanos D. Pedro e D. Luiz para Sua Alteza Imperial, a Regente do Império, que os ia passando às mãos dos libertos.

A cerimônia, como é de calcular-se, a todos emocionou profundamente. Mas, terminada ela, outra, extra-protocolo, não menos emocionante, se registrou. Escravos de municípios vizinhos, em grande número, invadiram o recinto e foram ajoelhar-se ante a Regente do Império, implorando-lhe a graça de também serem liberados.

Foram, é inegável, a magnanimidade da Família Imperial, e o trabalho da incansável comissão encarregada de obter os recursos pró-libertação, que facilitaram a Petrópolis, a glória de antecipar-se à Lei Áurea. Mas acima de tudo, foi o espírito do povo adverso ao trabalho escravo que permitiu aos petropolitanos gritarem bem alto naquela memoràvel tarde de 1º de abril de 1888: O suor do cativo não mais orvalhará o solo de Petrópolis!

Destruição da Oficina do Mercantil

Na madrugada de 2 de março de 1880, o morro situado aos fundos do prédio nº 2-A da rua Aureliano desabou sôbre as oficinas do “Mercantil”, soterrando-a e inutilizando completamente todo o material do estabelecimento. Um empregado que lá dormia – Claudino Luiz do Nascimento – também foi soterrado, tendo morte horrível.

O prejuízo do velho Bartolomeu Sudré foi total e só lhe restava, na emergência, encerrar a atividade do jornal. Não possuia êle qualquer reserva financeira e seu abatimento moral era completo.

Parecia selada, portanto, a sorte do tradicional “Mercantil”.

Eis que, porém, se revela, novamente, o sentimento altruístico do povo petropolitano. Ouçamos o que nos conta o próprio Bartolomeu Sudré:

“Quando mais nos pungia a mágua da imensa perda que sofrêramos, quando em nossa imaginação turbilhonavam os mais sinistros pensamentos, quando nos conhecíamos atados ao poste do desespêro e lamentávamos a conservação da vida para assistir a tão horrenda catástrofe, um homem houve que murmurou-nos ao ouvido estas palavras: - Tranquiliza-te, que ainda tens amigos! Era êsse homem José Ferreira da Paixão.”

E o povo, convocado por José Ferreira da Paixão, reune-se e lança a seguinte proclamação:

À vista do desastroso acontecimento que aniquilou a tipografia do “Mercantil” reunem-se os moradores e visitantes de Petrópolis abaixo assinados e auxiliam a reconstrução de sua velha imprensa, oferecendo a Bartolomeu Pereira Sudré os meios de recompôr a sua tipografia.

Petrópolis, 3 de março de 1880.

A população de Petrópolis – é ainda o próprio “Mercantil” que nos conta – correu pressurosa a prestar-nos todos os socorros e incansável mostrou-se no seu afã, revelando, assim, tôda sua grandeza dalma. A proteção que nos foi dispensada ser-nos-á mais um incentivo para prosseguirmos na jornada do trabalho, dêsse trabalho que a todos aproveita, no apostolado do bem comum, da confraternização dos homens, da difusão da luz. E, concluindo, disse o “Mercantil”: a redação do “Mercantil”, à população residente e visitante de Petrópolis, será eternamente agradecida.

E, como resultado da ação popular, já a 24 do mesmo mês em que ocorrera a desgraça da rua Aureliano, reaparecia o “Mercantil”. O n. 15 do jornal, foi distribuido gratuitamente, dizendo o proprietário que assim agia para patentear sua gratidão ao povo de Petrópolis.

Em apenas três semanas, os petropolitanos se arregimentaram, adquiriram uma nova tipografia e puzeram novamente em circulação seu tradicional jornal.

Admirável, sem dúvida, o gesto de solidariedade do povo petropolitano.

O Entêrro de Jorge Kuhn

A 15 de abril de 1898, em meio à consternação geral, falecia e era sepultado nesta cidade Jorge Henrique Kuhn, enfermeiro aposentado do Hospital Sta. Terêsa.

“Herr Kuhn”, como era êle conhecido, morria aos 68 anos de idade, depois de haver exercido sua humanitária profissão durante quase meio século, primeiramente na Casa de Caridade, depois no Hospital Sta. Terêsa.

Mas o benquisto cidadão, durante todos aquêles anos, não limitara sua atividade à enfermagem pura e simples. Tendo assimilado, no contato diário com os médicos, os ensinamentos dêles recebidos, aperfeiçoou-os, na prática, de tal maneira que passou a fazer as vezes, com tôda a eficiência, dos próprios médicos.

E sua presença, por isso, passou a ser reclamada em tôda a parte, principalmente no seio da colônia alemã.

Era êle, ainda, um hábil dentista que atendia a tôda a pobreza da cidade.

Estranhar-se-á hoje, é possível, que o procedimento de Kuhn, não haja provocado a animosidade dos médicos da época. Mas a verdade é que êstes nunca criaram dificuldades à atividade do proveto enfermeiro, estimulando-a sempre muito a contrário. Isso, naturalmente, em atenção à habilidade e à honestidade jamais desmentidas de tão prestimoso cidadão.

Mas os médicos petropolitanos ainda fariam algo mais expressivo com Jorge Henrique Kuhn. Por ocasião do seu enterramento, como se fôra um próprio colega, fizeram questão de carregar o caixão, tanto do velório para o carro fúnebre, como dêste para a sepultura. E mais: foram êles, médicos, que levantaram o mausoléu na sepultura perpétua concedida pela Câmara Municipal a “Herr Kuhn”.

O Rocha-Código

José Antônio da Rocha, cidadão português vindo para Petrópolis ao tempo da colônia aqui se empregando inicialmente como entregador de pão, já em junho de 1848 era solicitador forense. E progredindo ràpidamente, exerceu os mais importantes cargos públicos, tais como delegado de polícia, vereador, presidente da Câmara Municipal e Juiz Municipal.

Foi, na verdade, um cidadão exemplar no exercício de tôdas essas funções.

Contudo, foi como solicitador que êle mais se destacou. Embora sem frequentar escola, adquiriu na prática tamanho cabedal jurídico, que ganhou o apelido de “Rocha Código”, pelo qual era e ainda é hoje mais conhecido.

Tal como aconteceu com o enfermeiro Kuhn que viveu e morreu em paz com os médicos, o solicitador Rocha Código mereceu sempre a amizade e a consideração dos advogados petropolitanos.

Haja vista para a inscrição existente na sepultura do cemitério municipal, de inspiração dos referidos advogados: “Aqui jazem os restos mortais do advogado José Antônio da Rocha, falecido a 6 de maio de 1880 – tributo de gratidão de seus amigos”.

Quiseram êles, como última homenagem, considerar como colega aquêle que, em vida, não passara de modesto rábula.

6 - Gratidão

O petropolitano tem coração sensível e, por isto, é, acima de tudo, um bem agradecido. Com o inimigo ou com o falso amigo, seu proceder tem sido vário; mas com o amigo, o procedimento tem sido só o da gratidão.

Relembremos, assim, algo do passado que ilustre tão belo predicado do nosso povo.

A chegada a Petrópolis da Família Imperial para o veraneio anual era sempre acontecimento festivo e emocionante.

Suas Majestades eram aguardadas no Alto da Serra pelo presidente e vereadores da Câmara Municipal e outras autoridades locais, sendo feita a entrega ao Imperador da chave simbólica da cidade. Formava-se, então, cortêjo até o Palácio Imperial.

O centro da cidade era ornamentado e o povo vinha todo para as ruas, afim de saudar Suas Majestades.

À noite, havia “Te-Deum” na Matriz e, nas ruas e praças iluminadas com lanternas multicôres, tocava a banda de música da Casa Imperial. Havia ainda, fogos de artifício.

Essas manifestações, tão sinceras, quão espontâneas do povo petropolitano, outra coisa não eram do que a gratidão que Petrópolis queria testemunhar a Pedro II pelo muito que êle sempre fez à cidade. Só a proclamação da República e o consequente banimento da Família Imperial, haveriam de interrompê-las.

Mas Pedro II e Tereza Cristina ainda voltariam a Petrópolis. Mortos e com os corpos embalsamados, aqui chegaram a 4 de dezembro de 1925 para dormir o sono eterno.

Não houve mais o vivório, nem as lanternas venezianas, nem o fogo de artifício. Mas houve – muito mais expressivas – as lágrimas sentidas daquele mesmo povo que amara e continuava amar seus grandes, seus maiores benfeitores!

Mais de três mil pessoas, conduzindo lanternas e bandeirolas, se encontravam na noite de 22 de dezembro de 1918 à rua Visc. de Souza Franco, nas imediações do prédio nº 481.

Era o povo petropolitano agradecido que ali se reunira para manifestar seu aprêço e sua simpatia ao dr. Oscar Weinschenck.

O engenheiro Oscar Weinschenck, nomeado prefeito municipal um ano e meio antes, elaborara um magnífico plano de obras para a cidade e, com inauditos esforços, conseguira, por meio de um empréstimo, reunir os recursos financeiros necessários ao empreendimento.

Mal fôra iniciada a execução do plano, eis que irrompe na cidade, de forma violenta, a célebre epidemia de gripe cognominada a “hespanhola”.

O prefeito poderia ter-se limitado a utilizar os recursos ordinários do orçamento municipal e apelar, tal como foi feito em quase tôda a parte, para a caridade pública.

Preferiu, no entanto, sacrificar seu tão acalentado plano de obras para proporcionar ao povo socorro urgente e eficiente.

E transformou, então, em alimentos, remédios e hospitalização o que estava destinado a obras públicas.

Tão admirável gesto de desprendimento poderia, no entanto, ter sacrificado o sucesso de tôda uma administração. É que as grandes obras que estavam projetadas ficariam para sempre, enquanto que os socorros aos doentes só seriam notados enquanto durasse a epidemia.

Mas, felizmente para todos nós, o tempo fez justiça completa ao dr. Oscar Weinschenck.

Passados quase quarenta anos, é êle tido, no consenso geral, como um dos dois melhores administradores que já passaram pela nossa edilidade, e jamais foi esquecida sua ação humanitária e benfazeja no socorro às vítimas da terrível epidemia de 1918.

E muitas dessas vítimas ainda hoje hão de lançar para o Além comovidas bençãos ao grande e humanitário prefeito.

D. Pedro II, ao receber em 13 de maio de 1888, na cidade de Milão, a notícia da abolição da escravatura no Brasil, exclamou:

“Grande povo, entre os demais do mundo, és o primeiro!”

Pois foi essa frase célebre que acorreu ao pensamento de Walter Bretz, quando chegou êle à Estação da Leopoldina na tarde de 23 de fevereiro de 1934 e deparou com a multidão radiante e compata que lá se encontrava.

Tôda a atividade comercial, industrial e profissional da cidade paralisara naquela tarde para que o povo petropolitano comparecesse à Estação e dissesse seu “muito obrigado” ao deputado federal por Pernambuco dr. Solano Carneiro da Cunha.

Que fizera, porém, êsse cidadão para merecer tamanha honraria?

O deputado, de iniciativa própria, apresentara à Constituinte de 1934, uma emenda constitucional, determinando que Petrópolis fosse anexada ao Distrito Federal para formação do Município Neutro, cuja séde seria a nossa cidade.

A espontaneidade do gesto mexeu com os nervos do petropolitano que passou logo a agir em favor da idéia. Uma comissão composta por Artur Barbosa, Plinio Leite, Newton Land, Antonio Noronha, Aristides Mascarenhas, Mário Passos, Carlos Magalhães Bastos e João Dias Carneiro foi logo constituida para tal fim.

Walter Bretz, o conservador austero, adere à idéia e lança veemente proclamação a seus conterrâneos.

Foi, portanto, em meio febril que o deputado Solano Carneiro da Cunha, convidado a visitar Petrópolis, desembarcou na Estação da Leopoldina, às quinze horas e quinze minutos do já referido dia 28 de fevereiro de 1934. Para bem avaliar-se o que foi a recepção proporcionada ao legislador pernambucano, será suficiente ler-se o que, sôbre ela, Walter Bretz, de ordinário tão comedido em suas expressões, escreveu: “Jamais assistiu-se aqui a um espetáculo dessa ordem. Milhares e milhares de pessoas de tôdas as classes sociais, desde as mais elevadas às mais modestas, solidárias no sentimento de renderem sua homenagem ao deputado Solano Carneiro da Cunha, representante egrégio da gloriosa terra pernambucana Y Constituinte.”

De fato, a opinião unânime era que nunca tinha havido, até então, uma manifestação como aquela.

E tudo porque um deputado, espontâneamente, se lembrara de Petrópolis para capital do país! ...

 “Em qualquer parte em que esteja, onde quer que vá trabalhar, jamais me esquecerei de que, se sou brasileiro, sou também petropolitano” - foram as palavras com que finalizou Yedo Fiuza seu discurso, ao agradecer, em 16 de novembro de 1934, o título petropolitano que acabara de lhe ser entregue.

O trabalho parara, naquele dia, em Petrópolis, para que a população, em praça pública, demonstrasse a Yedo Fiuza o quanto lhe era agradecida pelo muito que fizera, durante quatro anos, à testa da Prefeitura.

O comércio, a indústria, os sindicatos, as bandas de música, o Juiz de Direito, o Promotor Público, o comando do 1º B. C., o Delegado de Polícia, o Vigário, a Associação Petropolitana de Esportes, os clubes esportivos, os colégios, a Escola de Música Santa Cecília, as sociedades beneficentes, os motoristas de praça, as emprêsas de ônibus, enfim, tôda a comunidade petropolitana, numa unanimidade impressionante havia aderido à manifestação.

Em consequência, em frente à Prefeitura, onde se realizou a cerimônia da entrega do título de cidadão petropolitano, reuniu-se incalculável multidão, a maior que fôra vista na cidade.

O coração petropolitano bateu mais forte, naquele dia. E bateu de gratidão, pura gratidão!

7 - Conclusão

Aí tendes senhores e senhoras, o relato de alguns acontecimentos históricos ocorridos durante quase um século, capazes de revelarem, ao nosso ver, o verdadeiro feitio moral do nosso povo. Através dêles, pudemos ver como o petropolitano, de ordinário, tão calmo, é violento quando se exalta. Vimos seu bairrismo, seu civismo, seu patriotismo. Vimos suas alegrias, suas tristezas. Vimos, finalmente, sua grande, sua imensurável bondade.

Podeis fazer, vós mesmos, portanto, o julgamento do caráter do povo da nossa terra.

De nossa parte, estamos plenamente convencidos de que o petropolitano não é, em absoluto, o povo frio e triste que se quer fazer crer.

É um povo normal, com suas bondades e seus defeitos.

Um povo igualzinho ao de todo o Brasil!

Nossa peregrinação pelo passado foi longa e cansativa. Mas, para vosso sossêgo, está terminada.

Quiséramos que a nossa palavra fôsse fácil, a pena brilhante e a autoridade de historiador igual, pelo menos, á de tantos de nossos companheiros de Instituto, para que vos houvesse proporcionado uma palestra à altura da magnitude desta sessão.

Mas cada um dá o que tem, e isto que aí está foi tudo o que conseguimos reunir.

Poderá não ser, como acreditamos, grande coisa; valham-nos, no entanto, o esfôrço dispendido e a intenção de fazer coisa útil.

E concluindo, nada mais expressivo do nosso esfôrço, do que a pergunta que nos fez a espôsa, um dêstes últimos dias, quando, em meio a terrível papelada, após semanas e semanas de intensa atividade, ultimávamos nosso alentado trabalho:

- Mas foi você mesmo, por livre vontade, que quis fazer essa conferência?

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