digitação utilizada para inclusão no site:
27/07/2000
de
www.earp.arthur.nom.br

Texto acima atualizado a 12/07/2003, quanto ao endereço do Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes.

Texto básico de palestra no IHP a
15/03/1958

Jornal de Petrópolis:
04/03 e 08/05/1958

digitação incompleta para Tribuna de Petrópolis a
10/09/1996

O CARÁTER PETROPOLITANO

Parte 3

Gabriel Kopke Fróes

- Quebra-quebras

1917

A 27 de outubro de 1917, o Brasil, tendo em vista o torpedeamento do paquete nacional “Macau” por um submarino alemão, o quarto navio nosso sacrificado pelos teutos, reconheceu e proclamou o estado de guerra entre o Império Alemão e os Estados Unidos do Brasil.

Petrópolis, como todo o país, estava emocionada com o acontecimento, mas guardava absoluta calma.

Eis que, porém, uma simples briga entre dois italianos alterou bruscamente essa situação. Ao anoitecer de 2 de novembro dia de Finados, em plena Avenida Quinze, Onofre Matarazzo, a propósito da guerra européia, dizia, como de costume mal do Brasil e da sua própria pátria, a Itália. Um seu patricio, David Avelon, fez-lhe ver a inconveniência da linguagem, mòrmente no momento em que o Brasil entrava na guerra. Matarazzo não o atendeu e continuou a proferir os mesmos insultos e injúrias contra os dois países. David perdeu, então, a paciência e investiu contra o seu compatriota, aplicando-lhe severo corretivo. Mas, naquele justo momento, chegava a polícia, que levou os dois contendores para a delegacia, acompanhados, entretanto, de alguns populares que haviam presenciado a cena e que apoiavam a atitude de David. Enquanto a polícia procurava solucionar o caso, o grupo lá fora crescia muito, de maneira que, após haver a autoridade resolvido trancafiar Onofre e soltar David já havia defronte à delegacia uma pequena multidão. Os populares, entre os quais alguns empunhavam bandeiras brasileiras e das nações aliadas, depois de aclamarem a decisão policial, atravessaram a ponte e passaram a vaiar insistente e estripitosamente a Pensão Max Meyer, cujo proprietário é obrigado a retirar pessoalmente as taboletas com o nome do estabelecimento, as quais são jogadas ao rio.

O grupo, cada vez maior e mais exaltado, foi, a seguir, à casa Otto Loefler, também sita à Avenida Quinze, onde, além de vaiar o proprietário, cometeu algumas depredações nas instalações. Depois, rumou para a Av. 1º de Março, onde deu uma enorme vaia no proprietário da Confeitaria e Padaria Alemã.

A multidão – aí o grupo já se transformara em multidão constituida de pessoas de tôdas as classes sociais – dirigiu-se então, para a rua 7 de Abril, onde invadiu o prédio da tradicional “Deutscher Verein”, quebrando e inutilizando tudo o que lá encontrou, à exceção dos retratos de Floriano Peixoto e Barão do Rio Branco. Um grande retrato do kaizer Guilherme II e a bandeira alemã, foram queimados em plena rua.

A vítima seguinte da multidão enfurecida foi a “Sangerbund Eintracht”, à rua 13 de Maio, cujas instalações sofreram sérias depredações.

Voltando à Av. Quinze, os populares atacaram e empastelaram impiedosamente a tipografia do brasileiro Edmundo Hees, onde era impresso o “Nachriten”.

Chegou a vez, a seguir, do Armazem Finkennauer, tradicional estabelecimento pertencente a brasileiros, sito à rua 14 de Julho, cujas portas foram arrombadas, sendo depredadas as instalações. Das cocheiras são retiradas duas carroças que carregadas de mantimentos de toda a espécie, são conduzidas para o Dispensário Santa Isabel, a cujas portas a carga é despejada. As carroças foram por fim, jogadas dentro do rio.

De volta, novamente, à Av. Quinze, a multidão, já então superior a mil pessoas, invadiu de sopetão, a Pensão Max Meyer, onde, dessa feita, tudo foi destruido e atirado ao rio. Da popular casa, nada, absolutamente nada, sobrou.

Encaminhando-se para os lados da Estação da Leopoldina, a multidão atacou o prédio do alemão Alfredo Hansen, à Av. Paulo Barbosa, arrancando, logo na primeira investida, o gradil de ferro e só deixando de penetrar na casa porque as filhas do referido cidadão postaram-se de joelhos à entrada, implorando clemência. A cena a todos emocionou, sendo poupado o prédio.

De passagem pela rua Dr. Porciúncula, os populares invadiram a barbearia de outro brasileiro, o sr. Augusto Esch cujos móveis foram levados para o logradouro público e queimados.

Alguém dá ordem de ataque à Escola Evangélica e a multidão avança alucinada para a Av. Ipiranga. O prédio é assaltado e os bancos, mesas, cadeiras e tudo o mais que lá estava vôa pelas janelas, sendo queimado na rua.

A Padaria Alemã, à Av. 1º de Março, poupada na primeira visita, é a vítima seguinte. Tudo é quebrado e atirado ao rio com prejuízos totais.

Na rua 7 de Abril, é assaltado o açougue de Fritz Gayse que sofre grandes prejuízos.

Registra-se, então, o mais injustificado de todos os ataques da multidão: as oficinas gráficas dos beneméritos frades franciscanos, à rua Nunes Machado, são invadidas e empasteladas brutalmente.

O estabelecimento de André Lepsch, à rua Carlos Gomes, também pertencente a brasileiro, foi assaltado, sofrendo estragos de vulto.

Às 4.30 horas da madrugada, o povo ainda percorria as ruas da cidade empunhando a bandeira brasileira e as das nações aliadas e cantando hinos patrióticos. Mas, para terminar, ainda destruiu, na Avenida Quinze, um estabelecimento pertencente a cidadão alemão: a antiga Padaria Alemã, de João Klinkhamer, a qual, prudentemente, tivera mudado o nome para Padaria de Luxo. Mas isso nada adiantou, porque tudo foi destruído impiedosamente.

O balanço do movimento patriótico de 2 de novembro de 1918 foi trágico. Nada menos de quatorze estabelecimentos foram assaltados e, na quase totalidade, destruidos pela multidão em fúria: três sociedades civis, dez casas comerciais e industriais e uma residência. Dois dêles – o “Nachriten” e o “Deutscher Verein” – com o assalto, desapareceriam para sempre.

Os acontecimentos de Petrópolis tiveram larga repercussão, tanto que, no dia imediato, já pela manhã, estava na cidade o Chefe de Polícia do Estado acompanhado de forte contingente policial. E, o que é mais interessante, foram imitados pelos cariocas vinte e quatro horas após e, logo a seguir, por inúmeras outras localidades por esses “brasís” afóra ...

1918

Desde a manhã de 31 de agôsto de 1918, falava-se, à bôca pequena, no assalto às casas comerciais de sêcos e molhados da cidade.

A elevação ininterrupta dos preços dos gêneros de primeira necessidade e a falta ou insuficiência de alguns dêles na praça haviam agitado o povo, que ameaçava reagir com violência contra a exploração existente.

O dia corrêra, assim, agitado e cheio de boatos. O prefeito em exercício, sr. Artur Barbosa, havia se entendido, sôbre a situação, com as autoridades policiais locais e, em seguida, com o govêrno do Estado, mas êste não dera crédito ao temor do prefeito relativamente à exaltação popular.

Eram 7 horas da noite, quando a antiga praça D. Pedro de Alcântara se encheu de povo. Premeditava-se, às claras, o assalto à Casa Pestana que, à tarde, sob protesto geral, havia embarcado para o Rio, em três vagões da Leopoldina, grande partida de açúcar, artigo que faltava em nossa cidade. Intervindo na reunião, o dr. Alvaro de Oliveira, sub-delegado de polícia, autoridade zelosa, conseguiu dissuadir o povo de tal idéia, poupando, assim, momentâneamente, o grande estabelecimento.

Mas os populares, logo após, já constituindo, então, uma grande massa, voltaram a exaltar-se e investiram abruta e violentamente contra os grandes armazens, os maiores da cidade, da poderosa firma Souza Gomes & Cia. Mas lá estava, novamente, à frente dos referidos armazens, o dr. Alvaro de Oliveira, tentando evitar o assalto. Um facínora não identificado esfaqueia o valente sub-delegado, que tomba ao chão gravemente ferido, tendo igual sorte a ordenança da referida autoridade, atingida por um tiro de revólver.

O povo arromba as portas do estabelecimento e passa a saqueá-lo impiedosamente. Gêneros alimentícios de tôda a espécie são carregados por homen e mulheres, velhos e  moços, para todos os pontos da cidade. O aspecto era de um formigueiro em plena atividade.

À proporção que os saqueadores chegavam às suas casas com os gêneros furtados, outros populares vinham para o centro da cidade, ávidos de também abastecerem suas despensas de maneira fácil. Daí, haverem-se esvasiado ràpidamente os grandes armazens de Souza Gomes & Cia.

Passaram-se os assaltantes, então, para a Casa Pestana, possuidora, também, de grande estoque de gêneros alimentícios. É ela completamente saqueada, tal qual acontecera com a de Souza Gomes & Cia.

A êsse tempo, tinham passado alguns populares a carregar os artigos saqueados em carros, tilburis, carroças e carrinhos de mão, o que veiu dar ainda maior amplitude ao saque.

Foi em meio ao assalto à Casa Pestana que lá chegou a notícia de que uma fôrça de cavalaria estava desembarcando na estação da Leopoldina, pronta a entrar em ação. A debandada foi geral em meio a grande confusão. Mas a notícia não era verdadeira e a cidade continuava, inteiramente, entregue aos saqueadores. Voltaram êles pois, à Casa Pestana e completaram o serviço.

Todo o comércio da cidade inclusive bares e confeitarias desde o início dos acontecimentos, tinha fechado suas portas de maneira que o movimento das ruas se limitava, exclusivamente, ao vai-vem dos numerosos populares carregando mercadorias. Mas havia os que, no próprio logradouro, se banqueteavam, fazendo largo uso do champanhe roubado ...

Supunha-se que, com o saque às duas maiores casas comerciais da cidade, ficasse satisfeito o populacho. Tal coisa, porém, não aconteceu. Esvasiados os armazens das referidas casas, dirigiu-se a multidão, calculada, no momento, em cêrca de duas mil pessoas, para a rua Paulo Barbosa e lá invadiu e saqueou inteiramente o vasto armazem de Nicolau Gomes & Cia., nele não deixando senão as armações e os balcões, ainda assim em pedaços.

Dali, o povo foi às casas de Gomes Amorim & Cia., Bazar América, na Avenida Quinze, e Bernardo Meira, à Avenida Souza Franco, cujas portas foram abertas pelos respectivos proprietários, empunhando a bandeira nacional. O povo, respeitando o símbolo da nação, poupou essas casas. De volta à Avenida Quinze a massa popular assaltou, seguidamente, os armazens de sêcos e molhados de Lourenço Nogueira & Cia. e Costa Marins & Cia., despojando-os de tudo que continham.

Era cêrca de meia noite, quando o armazem de Ferdinando Finkennauer, à rua 14 de Julho, que, menos de um ano atrás, fôra depredado e pilhado, voltou a ser alvo da sanha popular, sendo inteiramente saqueado.

Dos bairros, o Valparaiso foi o único em que se registraram: assaltos. Mas lá, além do saque, houve cerrado tiroteio, quando os populares, ao arrombarem as portas do Armazem Varricchio, foram recebidos a bala pelo seu proprietário. Cinco pessôas foram, então, feridas, das quais duas, ambas mulheres, gravemente.

Às duas horas da madrugada de 1º de setembro, quando, pràticamente, estavam destruidos todos os principais armazens de gêneros alimentícios da cidade, é que chegou a Petrópolis o refôrço policial solicitado ao govêrno estadual desde o dia anterior, pela manhã.

Ficara a cidade, assim, durante cêrca de sete horas, inteiramente entregue a uma multidão desvairada. O destacamento policial, dada a sua mesquinhês, permanecêra, prudentemente, dentro do quartel, assistindo, de camarote, ao desenrolar dos acontecimentos.

Cogitára-se, de início, mobilizar os Tiros de Guerra ns. 12 e 302 para enfrentarem, juntos ao destacamento policial, os assaltantes; mas a iniciativa fracassou, dada a impropriedade do armamento dos tiros.

Com os trinta infantes e vinte cavalarianos chegados, a polícia assumiu, imediatamente, o controle da situação, apreendendo muita mercadoria e detendo alguns dos assaltantes que foram processados na fórma da lei.

Mas o prejuízo do comércio foi enorme: cêrca de mil contos de mercadorias saqueadas, quantia elevadíssima para a época.

Finalizando, registremos, à guisa de curiosidade, o custo de alguns gêneros alimentícios em 1918, cujo aumento de preço deu lugar aos gravíssimos acontecimentos ora descritos:

Arroz - 1$000
Açúcar - 1$060
Carne sêca – 2$300
Café – 1$100
Feijão - $460
Sabão – 1$200
Toucinho – 1$500

1942

O torpedeamento, em agôsto de 1942, de navios brasileiros em nossas próprias águas territoriais, causando numerosas vítimas, teve a maior repercussão em todo o Brasil. A alma nacional vibrou indignada ante o brutal atentado contra o país que não se achava em guerra e em face dos requintes de perversidade com que agiram os corsários alemães e italianos. A onda de revolta popular tomou extraordinárias proporções em todo o território nacional. E a inglória morte de tantos patrícios clamou vingança, exigiu represálias. Daí os brados de protesto e os ataques aos alemães e italianos e às suas propriedades verificadas em tôda a parte.

Como todo o Brasil, Petrópolis protestou contra a barbaridade. E fê-lo, a 18 de agôsto de 1942, com a costumeira veemência. À tarde, o comércio fechou as portas e o povo veiu para as ruas. Cidadãos de tôdas as classes sociais – políticos, administradores, médicos, engenheiros, advogados, bancários, comerciantes e, entre êles o prefeito e o delegado de polícia da cidade – achavam-se no logradouro público irmanados ante o golpe sofrido e davam expansão ao seu sentimento patriótico.

Os comícios começaram às 14 horas em frente a “Jornal de Petrópolis”, quando Cardoso de Miranda, Plínio Leite e o delegado regional dr. José Morais Rates, de maneira enérgica e brilhante, protestaram contra a traiçoeira agressão das nações totalitárias. Em seguida, o povo desfilou Avenida Quinze abaixo.

Na Praça D. Pedro II, novos oradores fizeram-se ouvir, entre êles Romão Junior, Aldo Gabiroboertz e Guilherme de Oliveira.

Um grande cortêjo formou-se então, após a parada na Bacia voltando o povo a subir a Avenida Quinze, até à rua João Pessoa. Aí apareceu um caixão fúnebre com o qual foi iniciado Avenida abaixo, o entêrro simbólico de Adolph Hitler. Os estudantes que conduziam cartazes alusivos ao sanguinário nazista e aos seus comparsas fascistas, faziam o cantochão sob hilaridade geral.

Cêrca de 20 horas, com a Praça D. Pedro II repleta, iniciou-se o comício-monstro convocado desde às primeiras horas da tarde. A banda do Clube Musical 1º de Setembro executa magistralmente o Hino Nacional Brasileiro, cujos acordes provocam “frisson” em todos os presentes. Mas ergue-se o primeiro orador que é o dr. Márcio Alves, simpático prefeito da cidade, cuja palavra fácil e ponderada causou excelente impressão. Seguem-no Plínio Leite, Carlos Cavaco, Nereu Rangel Pestana e Aldo Gabiroboertz, cujos discursos inflamados são delirantemente aplaudidos. Falam por fim o capitão Ferreira Franco, Romão Junior, Carlos Camacho, João Alberto Junior, Cesar Borralho, Rodolfo Pires, Alonso Campos Filho e Raul Veiga todos muito ovacionados.

Pouco depois das 21 horas tem lugar, finalmente, monumental desfile, o ponto alto das manifestações populares do dia. O cortêjo é aberto pela banda de música do Clube 1º de Setembro, de Cascatinha, nele tomando parte clero, povo e nobreza. Era impressionante o número de senhoras e senhoritas que formavam entre o povo. Sempre com o máximo entusiasmo e dentro da maior ordem, a multidão, durante mais de uma hora, desfilou entusiàsticamente pelas principais ruas da cidade sem que se registrasse qualquer incidente.

Mas estava escrito que, ainda de tal feita, uma manifestação patriótica de caráter popular não acabaria sem atos de violência. Pouco antes das 23 horas, grupos desmembrados sorrateiramente do cortêjo mudaram de direção e foram atacar estabelecimentos comerciais pertencentes a cidadãos alemães, italianos e quiçá brasileiros. Assim foi que a Sapataria Ideal, o Hotel Max Meyer, a Padaria Guaraní e o Hotel Majestic tiveram prejuízo total, enquanto que o Restaurante Falconi, a Casa Pelegrini, a Cervejaria Boêmia, A Ótica, o Restaurante e Bar Vienense, o Armazem Nastasi, a Casa D’Angelo, a Alfaiataria De Carolis e a Foto Nietzsch, entre outras, sofreram danos materiais de pequena monta, passando, porém, os respectivos proprietários por grande susto e vexames sem conta.

Entretanto, o pior foi o que se passou com Richard Lowder que acabara de construir para sua residência magnífico prédio no Alto do Quarteirão Suisso. A pretexto de pertencer a um germânico, foi a referida casa assaltada e, a seguir, completamente saqueada. Sem dúvida, foi essa a nota mais triste dos acontecimentos.

Afóra as depredações, só houve digno de registro a mudança de placas das ruas, sendo a Mosela, crismada de Baependi; o Bingen, de Araraquara; o Ingelheim, de Oswaldo Aranha; o Quissamã, de Cairú; o Morin, de Itagipe; a Itália, de Olinda; e o Woerstadt, de Arabutã. Mas êsses nomes não pegaram e foram logo esquecidos.

A Expulsão do Doutor Fort

Durante o dia 20 de julho de 1896, fôra distribuido profusamente em nossa cidade o seguinte boletim:

CONVITE

Convida-se o petropolitano a comparecer hoje, segunda-feira, 20 de julho, às 7 ½ horas da noite, no Salão do Teatro Fluminense, a fim de deliberar-se sôbre o modo pelo qual se deve protestar em desagravo dos insultos atirados à família brasileira por um tal sr. Fort.

A comissão.

Êsse “tal sr. Fort” mencionado no boletim era – nada mais, nem menos – do que o notável cirurgião francês dr. J. A. Fort que já estivera no Brasil em 1881, quando fôra recebido, com toda a deferência, pelo govêrno imperial, pela classe médica e pela sociedade brasileira. Tal tratamento, entretanto, não impediu que, de volta à Europa, o cientista francês dissesse, como era moda na época, cobras e lagartos do nosso país, através livro editado em Paris em 1882. Tudo que era brasileiro – costumes, família, caráter, ciência – sofreu injusta e impiedosa crítica do ingrato médico europeu. Passados 15 anos, julgando, provàvelmente, achar-se esquecido o que escrevera a respeito dos brasileiros, resolveu visitar de novo o Brasil. À sua chegada ao Rio de Janeiro, no entanto, os estudantes fizeram-lhe o entêrro simbólico e a imprensa, contra êle, abriu as baterias, apontando-o à execração pública.

Em tal situação, o dr. Fort resolveu logo regressar à sua Pátria, mas como só cinco dias após haveria navio, resolveu êle abrigar-se em Petrópolis, cidade pacata e hospitaleira, onde, pensava, poderia aguardar, calmamente, o dia do embarque.

Pois foi a notícia da presença em Petrópolis dêsse cidadão que provocou a reunião de 20 de julho de 1896 no Teatro Fluminense.

Às 8 horas daquela noite, era enorme o número de pessoas de todas as classes sociais reunidas no salão do teatro, muito embora a chuva torrencial que caia sôbre a cidade. Organizada a mesa diretora sob a presidência do engenheiro Henrique Paixão, teve comêço o comício popular. Inflamados oradores fizeram-se ouvir, profligando o feio procedimento do dr. Fort que, corrido da capital da República, viera refugiar-se em Petrópolis. A nossa cidade, diziam êles, não era, no entanto, valhacouto de inimigos da pátria brasileira, não podendo, assim, a população permanecer indiferente à presença de tão indesejável hóspede.

Após muita discussão, foi resolvido que o francês seria expulso de Petrópolis, dando-se-lhe o prazo de 12 horas para que se retirasse por bem. Uma comissão foi designada para levar ao conhecimento do interessado a deliberação do povo, sendo, então, suspensa a reunião.

Mas, encerrada a sessão do Teatro Fluminense, os populares não se dispersaram, e, agora mais excitados do que antes resolveram, ao contrário do que fôra deliberado, seguir, ninguém sabia com que intenção, para o Hotel da Europa, onde constava achar-se hospedado o dr. Fort. Na velha Praça D. Afonso, conseguiram, no entanto, os promotores do comício que a multidão ali aguardasse o resultado da apresentação do ultimato a ser feita por uma comissão. Partem, então, para o Hotel da Europa, como emissários do povo, o dr. Henrique Paixão e os srs. Artur e Ricardo Barbosa.

O dr. Fort, porém, não mais se encontrava no Hotel da Europa. Cientificado da atitude ameaçadora do povo petropolitano, de lá se escafedera, presumìvelmente, para refugiar-se na legação de seu país.

A última notícia que os petropolitanos tiveram do dr. J. A. Fort foi a do seu embarque para a Europa, no Rio de Janeiro, a 25 de julho de 1896.

Em Petrópolis, no entanto ficou assinalado para sempre o protesto viril do povo da cidade contra o cidadão estrangeiro que, embora todo o seu renome internacional de cientista ilustre, não soubera respeitar a pátria brasileira.

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