digitação utilizada para inclusão no site:
27/07/2000
de
www.earp.arthur.nom.br

Texto acima atualizado a 12/07/2003, quanto ao endereço do Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes.

Texto básico de palestra no IHP a
15/03/1958

Jornal de Petrópolis:
04/03 e 08/05/1958

digitação incompleta para Tribuna de Petrópolis a
10/09/1996

O CARÁTER PETROPOLITANO

Parte 1

Gabriel Kopke Fróes

1 - Introdução

Quem, como nós, por dever de ofício, se vir obrigado, algum dia, a compulsar os velhos jornais petropolitanos, certamente se surpreenderá com muita coisa curiosa e pitoresca que irá encontrar à margem da procurada.

Foi o que aconteceu conosco, há algum tempo, quando, à cata de datas para “Efemérides Petropolitanas”, percorremos, página por página, todos os jornais de cêrca de cem anos da Biblioteca Municipal. Animados com a parceria que nos propuzera Alcindo Sodré, querido e sempre lembrado amigo, para continuação da obra por êle iniciada, não conseguimos fugir, então, ao diletantismo de relacionar fatos e coisas que nos despertaram a atenção, ainda que sem interêsse direto para “Efemérides Petropolitanas”.

Anotámos, assim, acontecimentos que, embora, como já foi dito, de relativo interêsse histórico, são, contudo, realmente curiosos, uns pela comicidade, outros pelo pitoresco e outros ainda pelo imprevisto ou violência que encerram.

Pois é de tais acontecimentos, uns já conhecidos dos estudiosos da nossa história, mas outros, ao que pensamos, inéditos, que vamos tratar.

Reunindo-os e divulgando-os, é nossa intenção facilitar, através dêles, a análise do feitio moral do povo petropolitano.

Mas, poderão servir também como contribuição ao folclore petropolitano que é pobre e desconhecido.

O petropolitano é tido, geralmente, por povo frio e triste, o que, na verdade, aparenta ser.

Mas, estranhamente, êsse mesmo povo tem repentes que, não raro, o hão levado a extremos não verificados alhures.

Décio Cesário Alvim, o saudoso cantor das coisas da cidade, em imagem feliz, comparou o povo de Petrópolis, nos seus arrebatamentos, ao rio Piabanha que, de hábito, tão pequenino e humilde, se transforma, quando irado, em avalanche que nada respeita e tudo destrói. E deu-nos, então, êstes magníficos versos:

A “ENCHENTE”

Deslisa o Piabanha em calmo leito,
Seguindo seu destino para mar ...
Contorna aqui, ali segue direito,
Sua eterna canção a descantar ...

Da verdura da serra, rasga o peito,
Para a sêde das matas aplacar ...
E as matas são, a um tempo, causa e efeito
Dessas águas que correm sem cessar! ...

Mas, de súbito, as águas se revoltam,
As barrancas mergulham e a cidade
Tôda pujança do seu rio sente ...

Cedem barreiras e comportas soltam ...
É o Piabanha indômito que invade,
É a força incontrastável de uma “enchente”

Petrópolis, 31 de dezembro de 1934.

2 - Humor

Já houve, nesta mui imperial cidade, um cavalheiro de nível intelectual inferior que, guindado por artes de berliques e berloques à curul prefeitural, nela não conseguiu manter-se devido à onda de ridículo que, sôbre êle, fez recair o povo.

E até hoje, passados cêrca de quarenta anos, é ainda lembrada a história do Prefeito que quis construir no morro do Cruzeiro um guarda-chuva monstro para proteger o centro urbano durante a temporada das chuvas e, no Alto da Serra, uma grande muralha para vedar a entrada do ruço na cidade ...

Daquele outro Prefeito, muito simpático e muito “kar”, que só no verão ficava em Petrópolis, vingou-se o povo também com largo anedotário, cuja insistência acabou por solapar-lhe o prestígio, afastando-o do cargo.

Recorda-se, entre o que, então, era contado, o caso da consulta que o referido Prefeito foi fazer a um médico do Rio de Janeiro, recebendo a recomendação de passar alguns dias em Petrópolis, como o melhor remédio para sua cura ...

Ainda recentemente, a propósito das obras que desfiguraram a antiga rua do Imperador e, principalmente, com relação ao obelisco plantado no meio da tradicional Bacia, as anedotas – umas mordazes e outras irreverentes, mas quase tôdas espirituosas – pulularam por aí fóra, mostrando, iniludìvelmente, o sentir do povo.

Pela amostra, forçoso e convir, portanto, que o petropolitano pode ser triste, mas não muito ...

3 - Advertência

No entretanto, ninguém se fie no bom humor, nem na mansidão do nosso povo – é nosso o conselho.

A história petropolitana – pasmai – registra a seguinte série de movimentos populares caracterizados, por violência inominável: três linchamentos, duas revoltas contra o poder constituido, um assalto à Câmara Municipal, três quebra-quebras e a expulsão, à fôrça de um estrangeiro indesejável.

Linchamentos

O linchamento, o método bárbaro de justiçar ou executar sumàriamente, foi praticado por petropolitanos nos anos de 1897, 1917 e 1920.

Em todos os casos, a multidão, repentinamente enfurecida transpôs com violência todos os óbices, inclusive a autoridade policial, para abater de maneira feroz, em pleno logradouro público, indigitados criminosos.

Custa crer, até, a quem conhece o nosso povo, ter sido aqui mesmo, nestas bucólicas plagas, que foram cometidas tais atrocidades.

Mas, a realidade é a que se verá.

Foi em Pedro do Rio, a 2 de fevereiro de 1897, que fuão Parreiras, armado de garrucha, assassinou bàrbaramente Euzébio Borges, criatura laboriosa muitíssimo estimada na localidade.

O homicídio causou tamanha indignação aos pedrorrienses que, para evitar novas violências, a polícia cuidou logo de adotar medidas especiais de proteção ao criminoso, inclusive fazendo seguir para o 4º distrito, no dia imediato pela manhã, um refôrço militar.

À tarde do dia 3 de fevereiro, no entretanto, a população de Pedro do Rio, grandemente exaltada, começou a reunir-se no centro da vila e, às tantas mais de duzentos homens, após haverem dominado a fôrça policial, assaltaram a cadeia local, dela retirando o assassino.

Parreiras foi levado, então para a praça pública e ali, impiedosamente, trucidado pela multidão.

Quando, horas mais tarde, a polícia de Petrópolis, avisada por telegrama, lá chegou em trem especial, de fuão Parreira, só havia o corpo inanimado e horrìvelmente mutilado estendido no logradouro público.

Na tarde de 11 de novembro de 1917, o viajante comercial Antenor Franco dos Santos, ao chegar de trem à estação de Águas Claras, no 5º distrito, foi alvejado a tiros de revólver, ainda dentro do vagão, por questões de família, pelo médico Alfeu Meirelles, morrendo quase instantaneamente.

Praticado o crime, o dr. Alfeu Meireles foi homiziar-se no armazem de José Bento Piai Garcia, situado nas proximidades da estação.

Horas após, quando o criminoso, ainda no interior do estabelecimento comercial, já se achava, no entanto, sob a guarda da autoridade policial, lá apareceu numeroso grupo de populares com um parente do morto à frente, exigindo a entrega do dr. Alfeu Meireles.

E ante a negativa, arrombaram os populares o prédio, retirando à força o médico-assassino que, levado para o logradouro público, passou a ser surrado a pau.

O dr. Alfeu Meireles, com o crânio horrìvelmente fraturado, dentro em pouco, morria em plena estrada.

Ai por volta de 1920, o pardavasco José Lemos, morador da Presidência, era o terror dos quarteirões da cidade. Lugar onde êle aparecesse, era desordem na certa.

Havia dois anos, porém, que Lemos não era visto na Rhenania, onde recebera, certa vez em uma de suas visitas, uma surra de mestre aplicada por populares da localidade.

A 14 de abril do referido ano, no entanto, reapareceu o terrível desordeiro no laborioso quarteirão e, bebericando de bar em bar, começou a provocar todos que ia encontrando pelo caminho. Como ninguém lhe desse atenção, resolveu entrar na barbearia de João Paulo Rossi, ao qual declarou ser, êle Rossi, a pessoa com quem queria brigar naquele dia. O barbeiro, surpreendido, bem que tentou evitar a briga, mas Lemos, contra êle, logo se atirou violentamente. Travou-se, então, desesperada luta corporal dentro do acanhado estabelecimento, até que o dono da casa, conseguindo desvencilhar-se, por momento, dos possantes braços do desordeiro, disparou contra êle um tiro de revólver para feri-lo apenas superficialmente.

Com o estampido, no entanto, foi grande o número de populares que acorreram à barbearia, no interior da qual permanecia acuado o fascinora. Êste, porém, deveras audaz, resolveu, em dado momento, sair à rua, enfrentando a multidão. Foi a sua última façanha, porque os populares logo o abateram.

O exame cadavérico revelaria que Lemos morreu de fratura do crânio proveniente das pauladas sem conta que recebera; mas fôra alvo, também, de vários tiros, facadas e até queimaduras.

Apenas ...

O Motim dos Colonos

Em meado do mês de março de 1856, chegara ao auge a exaltação dos colonos alemães católicos da povoação de Petrópolis.

Sem embargo de se tratar de homem probo que, havia cêrca de dois anos, realizava excelente administração, o Tenente Coronel Alexandre Manuel Albino de Carvalho, diretor da colônia, se indispusera com o padre dr. Teodoro Wiedmann, capelão católico. Êste, em revide, passara a açular os colonos contra aquela autoridade.

O desentendimento entre o Coronel Albino e o padre Wiedmann durava desde cêrca de dois anos atrás, quando o segundo, nomeado pelo primeiro para a função de cura dos colonos católicos, se negara a prestar o juramento regulamentar de bem servir, alegando não ser empregado da colônia e sim da província com categoria igual à do diretor.

Depois, foi o convite do diretor da colônia para que o padre Wiedmann devolvesse o título de nomeação para cura, visto que tal função fôra trocada pela de capelão de colonos, que agravara a situação.

E, finalmente, foi a intimação do vigário José Antônio de Melo, em visível entendimento com o diretor da colônia, para que o teimoso padre Wiedmann suspendesse diversas práticas contrárias às normas da paróquia, que fizera explodir a indignação do capelão.

Entre o que, com mais insistência, fôra recomendado ao padre Wiedmann, estava a suspensão da coleta que vinha êle realizando no fim das missas.

O sacerdote alemão, entretanto, fizera ouvidos moucos às recomendações recebidas e continuava a agir como muito bem entendia, prosseguindo, inclusive, na realização da coleta proibida.

A êsse tempo, diga-se de passagem, os colonos, não só estavam solidários com o seu capelão, como não escondiam mais a indignação de que se achavam possuídos contra o diretor da colônia, manifestada, aliás, pública e pessoalmente, ao próprio diretor, ao vigário, ao bispo, ao presidente da província e ao Imperador.

Foi a 26 de março do já referido ano de 1856, um domingo, que o Cel. Albino, fazendo valer sua autoridade, compareceu à igreja que se achava superlotada acompanhado de dois policiais e suspendeu a coleta que os colonos João Dupré e João Loos haviam iniciado. Como o primeiro se houvesse insurgido contra a medida, o diretor, ato-contínuo, mandou detê-lo.

A multidão, no entanto, saindo da igreja que era a matriz provisória da rua da Imperatriz, permaneceu, de início, estupefata em frente ao templo para logo se enfurecer e investir contra os policiais, desarmando-os e libertando Dupré. A seguir, tocou a vez ao Cel. Albino de ajustar contas com os colonos. Encurralado em um canto, foi êle insultado e ameaçado pelos homens, sendo-lhe respeitada, contudo, a integridade física.

Mas as mulheres, as nossas doces e suaves antepassadas de 1856, não se conformaram com a “moleza” de seus pais, irmãos e maridos, e investiram, imediatamente, contra o diretor da colônia, empurrando-o, rasgando-lhe as roupas e dando-lhe beliscões. E teria sido jogado dentro do rio, não fôra a providencial intervenção de João Meyer e alguns outros poucos colonos que, a muito custo, conseguiram salvá-lo e abrigando-o na sacristia.

Pobre cel. Albino! Tanta energia e valentia para acabar apanhando de mulher ...

Mas o exemplo de vigor e decisão da mulher petropolitana de 1856 passou à história. Que o aproveite a atual geração: há por aí tanta coisa que os homens não têm querido ou podido realizar ...

À noite, após a borrasca matutina, resolveu, então, o Coronel Albino tomar enérgicas providências contra a insubordinação dos colonos. Inicialmente, determinou que cinco policiais fôssem à Mosela prender, de novo, João Dupré, mas a casa dêste fôra, precavidamente, guardada pelos colonos do quarteirão, de maneira que as autoridades voltaram de mãos abanando. Reforçado o contingente policial, dirigiu-se êle ao local, mas aí nem logrou penetrar no quarteirão, que, como os demais, estava sob severa vigilância dos colonos.

Em face da atitude dos alemães, o Cel. Albino mandou mobilizar tôdas as fôrças disponíveis para a reação. Convocou, inicialmente, a fôrça imperial estacionada em Petrópolis; solicitou, a seguir, a remessa da fôrça militar do moinho de pólvora; pediu, também, a vinda da Guarda Nacional da Estrêla; armou, ainda, os paisanos não alemães da própria localidade; e chamou por fim, os escravos das fazendas vizinhas.

No dia seguinte, assim preparado, ordenou o diretor da colônia que fôssem efetuadas, entre outras, as prisões dos dez censores da igreja.

Sabedores de tais resoluções, os alemães de todos os quarteirões acorreram ao centro da colônia, dispostos a tudo. Ao meio-dia, Petrópolis estava repleta, mantendo-se calmos, porém, os colonos. Uma comissão é constituída para solicitar ao diretor o relaxamento das ordens de prisão, pedido que é, peremptòriamente, negado.

Às 2 horas da tarde, quando ainda era de calma a situação, a prisão do colono Wagner, determinada pelo diretor, foi o estopim que fez explodir a indignação popular. Não se registraram mortes, mas que o sangue correu, correu. E houve muita prisão. Sòmente às 6 horas os colonos concordaram em retornar aos quarteirões, atendendo aos apêlos, inclusive do padre Wiedmann, que lhes eram feitos. Voltou, então, a calma ao centro da povoação.

Por força de tais acontecimentos, achavam-se em Petrópolis, a 28 de março de 1856, além do Imperador, o presidente da Província, Luiz Antonio Barbosa, e o chefe de polícia José Ricardo Sá Rego. O Imperador ordenou a libertação dos colonos presos, enquanto que o presidente da Província determinava a abertura de inquérito para apuração das responsabilidades.

Entrementes, fôra aceito o pedido de demissão do Cel. Albino e o bispo mandara que o padre Wiedmann se afastasse de Petrópolis, o que acabou por desanuviar o ambiente.

O novo diretor da colônia, dr. José Maria Jacinto Rebelo, distinta personalidade da Côrte, não teve, assim, grande dificuldade para normalizar a vida da população.

Os acontecimentos de 26 e 27 de março de 1856, conhecidos por “Motim dos Colonos”, passaram, no entanto, à história, reveladores que foram êles do espírito forte e da determinação de alguns dos nossos antepassados.

Quanto ao Cel. Alexandre Manuel Albino de Carvalho, cidadão digno e excelente administrador, nada mais registra a história local, após sua saida da nossa cidade. Mas, do padre dr. Theodoro Wiedmann, houve o livro “A Colônia Alemã em Petrópolis”, editado pelo antigo capelão dos colonos alemães católicos, pelo qual extravasou êle toda sua bilis contra o Brasil.

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