digitação utilizada para inclusão no site:
17/08/2000

Acervo Histórico de Gabriel Kopke Fróes - Via Internet
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- em 17/05/2005
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Palestra na Associação dos Cronistas Esportivos de Petrópolis:
14/03/1957.
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Esporte em Petrópolis (1)

Gabriel Kopke Fróes

Honra-nos sobremodo a investidura que nos confere a Associação dos Cronistas Esportivos de Petrópolis de orador desta reunião. Somos, com certeza, dos menos credenciados a dirigir a palavra a uma assistência culta e seleta como esta que hoje aqui comparece. É que precárias são os nossos dotes oratórios e duvidosa é a nossa autoridade de historiador.

Valha-nos, contudo, nossa boa intenção de, estudiosos do assunto, proporcionarmos algo de util ou interessante àqueles que se dedicam à causa do esporte em nossa Terra.

Abrindo seu magnífico trabalho "Apontamentos para a História do Esporte em Petrópolis" publicado em 1943 no VI volume dos "Trabalhos da Comissão do Centenário de Petrópolis", sentenciou Luiz Afonso d'Escragnolle:

"Petrópolis, mercê de sua privilegiada situação topográfica e climatérica, elevada entre montanhas, plantada entre vales amenos, gozando de uma temperatura média de 18 graus, parece reunir todos os requisitos para ser o ambiente adequado à realização plena e propícia aos trabalhos do cérebro e ideal para a prática dos esportes".

Tem toda a razão o nosso conterrâneo. Petrópolis tudo possui para ser um grande centro esportivo - situação topográfica, clima, mocidade estudantil, espírito associativo - sem que, contudo, haja conseguido, até hoje, tornar-se, ao menos, um centro medíocre. Ainda recentemente, um largo e expressivo inquérito foi aberto em todo o país por um grande jornal carioca para apurar qual o município mais esportivo do Brasil e, no mesmo, o nome de Petrópolis não foi sequer citado.

Entretanto, não se incrimine as gerações passadas de responsáveis por este estado de coisas. Ver-se-á, no nosso modesto trabalho, que os antigos não se descuraram, em absoluto, do desenvolvimento esportivo de nossa terra, tomando, não raro, iniciativas que precederam de muitos anos às de outros centros mais importantes do que o nosso.

A primeira referência ao esporte que faz a história de nossa cidade - é ainda Luiz Afonso d'Escragnolle que consigna - está contida na noticia da morte do major Júlio Frederico Koeler, o fundador de Petrópolis. A 21 de novembro de 1847, quando em companhia de amigos, na chácara situada no local que hoje constitui o bairro da Terra Santa, praticava o major Koeler o tiro ao alvo, foi ele vítima do acidente fatal já por demais conhecido, dispensando-nos, por isto, de maiores detalhes.

Foi, portanto, uma grande desgraça que assinalou o tiro ao alvo como o primeiro esporte praticado em Petrópolis.

Depois do tiro ao alvo, presume-se que o bilhar e o boliche tenham sido outros esportes praticados pelos primeiros habitantes destas plagas. Do bilhar, há referências em publicações do ano de 1854 e do boliche, embora não haja menção alguma nos primeiros anos, julga-se como praticado pelos colonos, por se tratar de esporte tradicional dos alemães.

A 23 de agosto de 1857, o Jóquei Clube de Petrópolis, inaugurou suas atividades, realizando uma corrida de cavalos no Prado do Fragoso. O turfe foi, portanto, apreciado pelos petropolitanos desde priscas eras.

A seguir, vieram os demais esportes ora relacionados na ordem das respetivas introduções ou tentativas de introdução, já que alguns não vingaram em nossa cidade: a patinação, em 1877/1878, nos salões do Rougemount e do Hotel Bragança; as corridas a pé, em 1882, no Colégio Paixão; o futebol, em 1882, no Colégio Paixão, segundo uns, ou em 1894, no Colégio S. Vicente, segundo outros; a esgrima, em 1888, com a realização, no Teatro Fluminense, do torneio promovido pelo professor Cristini Orlando; o ciclismo, em 1893, com a inauguração do Velóce-Clube, no Palácio de Cristal; o tênis de campo, em 1896, no Alexandra Hotel; o automobilismo, em 1896, com a chegada do primeiro automóvel; o columbofilismo, em 1897, com a realização de corridas de pombos entre Petrópolis e Rio de Janeiro; a natação, em 1897, com a inauguração nas Duchas das aulas do professor Miguel Hoernhann; a ginástica, em 1899, com a fundação do Turnverein; o hipismo, em 1908, com a inauguração do Clube Hípico, à avenida Piabanha; a luta romana, em 1909, com a luta entre Schneider (alemão) e Smykal (húngaro); a corrida de trotadores atrelados, em 1909, com a vitória do veículo dirigido pelo C.el Pedro Neto Teixeira; a aviação, em 1912, com as evoluções feitas no Prado de Corrêas pelo aviador Ernesto Darioli; o water-polo, em 1920, com os treinos realizados pelo S. Sebastião, em Cascatinha, e pelo Petropolitano, no Morin; o atletismo, em 1923, com a competição interna promovida pelo Petropolitano; o volibol, em 1923, com o jogo Petropolitano X Associação Cristã de Moços realizado no Valparaiso; o boxe, em 1926 com as lutas realizadas no campo do Serrano; baseball, em 1927, com o jogo realizado no campo do Cascatinha; o basquete, em 1928, com jogos realizados pelo 1º Batalhão de Caçadores; o excursionismo, em 1931, com a fundação do Clube do Excursionista de Petrópolis; o futebol-celotex, em 1932, com a fundação da Liga de Celotex de Petrópolis; o aerofilismo, em 1934, com a fundação da Associação Petropolitana de Planadores Aéreos; o tênis de mesa, em 1944, com a realização do torneio interclubes promovido pelo E. C. Rio Branco; e finalmente, o iatismo, em 1948, com a fundação do Rio Preto Iate Clube.

Tomamos conhecimento, assim, de um modo geral, da época e da maneira por que os diversos esportes foram aqui introduzidos, ou, pelo menos, tornados conhecidos do petropolitano. Historiemos, agora, ligeiramente, de per si, alguns deles.

AUTOMOBILISMO

Data de 16 de maio de 1896, a primeira notícia sobre o automóvel em Petrópolis. Naquele dia, "Gazeta de Petrópolis" se referia ao carro automóvel para aqui trazido pelo dr. João Paulo de Carvalho, provocando sensação no seio do povo. Depois, outros estiveram em nossa cidade, sempre trazidos como objeto de curiosidade. Nós mesmos, ainda nos recordamos do tricicle-automóvel pertencente ao professor Antônio Noronha, guardado, aí por volta de 1908-1909, no hall do prédio dos Semanários, onde funcionava o Colégio Luso-Brasileiro, e que tanta admiração nos provocava ...

Foi somente a 9 de março de 1908, no entanto, que os petropolitanos tiveram a primeira grande sensação com o automobilismo. Gastão de Almeida e Braz da Nova Friburgo, dois ases do volante, tendo partido da avenida Central, no Rio, às 13:30 horas do dia 6, chegaram a Petrópolis no seu Dietrich, naquele dia, às 13 horas. O "raid" sensacional durara exatamente tres dias! O povo acorreu à rua para saudar os esportistas que, conduzidos pelos representantes da imprensa, após visitarem as autoridades, hospedaram-se no Hotel Bragança. "Tribuna de Petrópolis", saudando os visitantes, assim se expressou:

"Heróis! Sim heróis, porque sem conhecerem bem o caminho, aqui vieram arrojadamente, os srs. Braz da Nova Friburgo, Gastão de Almeida e o maquinista Jean Chocolat, após mil e uma peripécias, às quais soube briosamente resistir a temerária máquina Dietrich que não sofreu outro desarranjo a não ser nas borrachas das suas rodas".

Consigne-se que naquele tempo, mecânico era maquinista e pneu era borracha das rodas ... Os "raidmen" voltaram ao Rio, no dia imediato, de trem, sendo recebidos também festivamente pelos cariocas.

Em 1909, começou a trafegar na cidade o primeiro automovel de praça que pertencia a João Xavier e tinha Alexandre Olive, o popular Alex, como motorista.

A 8 de setembro de 1910, Gastão de Almeida, um dos heróis do "raid" Rio-Petrópolis de 1908, em companhia de Artur Bilbau e Sully de Souza, empreendeu nova excursão automobilística, partindo de Petrópolis rumo a Juiz de Fora. A viagem durou 8 horas e foi feita num Pic-Pic de 45 H. P.

A 12 de abril de 1911, foram Luiz Tavares Guerra, Luiz Prates e Honorato Pereira, esportistas locais que empreenderam arrojado "raid" a Terezópolis, onde chegaram após a bagatela de 39 horas de viagem.

Somente três anos após, houve novo "raid": a 4 de maio de 1914, às 10 horas, partiam com destino a Paraíba do Sul, os nossos conterrâneos José Tavares Guerra, Henrique Cunha e João Raeder, acompanhados dos mecânicos Waldemar Rocha e José Silva. A chegada à vizinha cidade deu-se às 15 horas do mesmo dia.

Daí em diante, o uso do automovel se vulgarizou, perdendo o caráter esportivo. Somente as competições propriamente ditas voltariam, então, a interessar ao esportista.

A 6 de setembro de 1920, os petropolitanos foram agradavelmente surpreendidos com a notícia de que, nos Estados Unidos, o nosso conterrâneo Irineu Corrêa havia ganho importante corrida de automóveis em Chester Fair. Foi o primeiro de uma série de grandes triunfos do volante petropolitano que teria, entretanto como se sabe, fim tão trágico.

A 22 de julho de 1927, coube a vez a Manuel de Teffé de dignificar a terra natal, vencendo na Itália a prova automobilística "Taça Gallenga".

As competições esportivas propriamente ditas só começaram a ser disputadas a 28 de fevereiro de 1932, quando o Automóvel Clube do Brasil promoveu, em combinação com a Prefeitura Municipal de Petrópolis, a prova "Subida da Montanha" disputada na estrada Rio-Petrópolis, no trecho compreendido entre Meriti e Quitandinha. Essa primeira disputa foi vencida pelo alemão barão von Stuck, seguido pelo brasileiro Crespi. De 1933 a 1946, voltou tal prova a ser disputada mais seis vezes, tendo como vencedores Júlio Morais, em 1933; Manuel de Tefé, em 1937 e 1943; Chico Landi, em 1944; Catarino Andreata, em 1945; e Gino Bianco, em 1946.

O maior feito do automobilismo petropolitano foi, sem dúvida, a sensacionalíssima vitória de Irineu Corrêa no Circuito da Gávea, a 3 de outubro de 1934. Prova de projeção internacional, o circuito da Gávea deu ao volante de Petrópolis fama e glória jamais conseguidas por outro petropolitano. E não fora a desgraça de 2 de junho do ano seguinte, quando Irineu Corrêa, tentando repetir o feito do ano anterior, sofreu acidente que lhe custou a vida, estaria sendo cantada até hoje em prosa e verso a vitória do grande ás, já que foi ela, indiscutivelmente, o maior feito de todos os tempos do esporte de nossa terra.

A 5 de julho de 1936, a Associação Esportiva Automobilística Brasileira promoveu em Petrópolis a realização de diversas provas automobilísticas, a principal das quais, uma corrida entre a praça Rui Barbosa e o Quartel da Presidência, foi vencida por Manuel Tefé, seguido por Rubens Abrunhosa.

Finalmente, em 1948 e 1949, já praticamente nos nossos dias, foi iniciada a disputa da prova "Circuito da Cidade de Petrópolis", sendo Benedito Lopes, seguido por Gino Bianco, o primeiro vencedor; e Gino Bianco, seguido por Jorge Aloisio Fontenelle, o segundo.

AVIAÇÃO

Petrópolis conheceu o aeroplano a 28 de janeiro de 1912, quando o aviador italiano Ernesto Darioli, com entrada paga, se exibiu no Prado de Corrêas, fazendo evoluções com seu aparelho "Bleriot" para aqui trazido pelo trem.

Naquele mesmo dia, Roland Garros, o aviador francês que se imortalizaria na grande guerra de 1814, vôou sobre o centro da cidade, vindo do Rio de Janeiro, fazendo conhecido o avião aos que não se haviam abalançado à excursão a Corrêas para ver o Darioli.

A 31 de dezembro de 1911, uma notícia interessante do "Diário de Petrópolis" da época: no dia imediato, subiriam a Petrópolis diversos aviadores para verificar se o campo do Petropolitano, na Terra Santa, se prestava às manobras de "vol" e "aterrage", a fim de, no caso afirmativo, tentarem alguns vôos do Rio a Petrópolis e vice-versa.

Petrópolis, como é notório, não se presta às manobras de descida e subida de aviões, de maneira que os nossos conterrâneos de 1911 tiveram de se contentar, em matéria de aviação, a ver passar ao alto, como ainda hoje acontece a todos nós, os aparelhos em trânsito para outras plagas.

Ou então a se emocionarem com as descidas forçadas feitas em nossas acidentadas terras, como aconteceu, entre outros, com o hoje brigadeiro Luiz Leal Neto dos Reis que, a 3 de agosto de 1926, devido a um defeito do motor de seu avião, desceu em um capinzal da Mosela.

A 9 de janeiro de 1919, o céu petropolitano foi palco de um acontecimento extraordinário: o aviador francês La Fère, pilotando um aparelho C. B. Dienport, bateu o recorde sul-americano de alturas. Naquele mesmo mês, no dia 23, outro aviador francês, o capitão Ed. Vernier, praticou nova façanha sensacional, ao lançar nas imediações da estação Leopoldina, onde se encontrava Santos Dumont, uma mensagem de saudação ao grande brasileiro.

A 15 de março de 1934, foi criada a Associação Petropolitana de Planadores Aéreos que teve vida curta, mas intensa; e a 4 de agosto de 1942 foi fundado o Aéreo Clube de Petrópolis que não passou da assembléia de fundação.

O helicóptero foi conhecido pelos petropolitanos a 19 de novembro de 1947, quando um aparelho, vindo do Rio em doze minutos, desceu no Hotel Quitandinha, depois de evoluir sobre a cidade.

A 4 de fevereiro de 1955, os petropolitanos assistiram o presidente Café Filho descer de um helicóptero no jardim do Palácio Rio Negro, para iniciar seu veraneio em nossa cidade. O feito esportivo do presidente agradou aos petropolitanos.

Santos Dumont, o pai da aviação e grande amigo de Petrópolis, tanto que foi aqui o único lugar em que construiu casa própria, mereceu dos petropolitanos a consagração do bronze, inaugurado que foi seu busto, a 19 de outubro de 1951, na rua do Encanto, em frente à "Encantada". Antes, o grande brasileiro já fora homenageado com seu nome dado à antiga rua Costa Gama e também a uma escola da Municipalidade.

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