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21/01/2008

Tribuna de Petrópolis:
13/04/2008

GÊNIO. QUEM É E QUEM NÃO PODE SER

Fernando M. Gomide

Há muitos anos atrás, meu pai e eu fomos a um concerto no Teatro Municipal do Rio a fim de assistirmos à apresentação da Descoberta do Brasil, peça coral sinfônica de Heitor Villa-Lobos. Meu pai, diplomata muito patriota ficou empolgado com a obra e exclamou: ele é um gênio! Fiquei pensativo e conclui mais tarde: sim, Villa-Lobos é um gênio da música clássica. Ele pode figurar entre os gênios da música do século XX, como Gustav Mahler, Ian Sibelius, Richard Strauss, Otorino Respiphi, Gustav Holst. Mas quem é um gênio? Um artista de sensibilidade sutil, um escritor dotado de profundo senso psicológico, um filósofo de pensamentos profundos, um cientista possuidor de uma lógica rigorosa e abrangente e espírito criativo...?

Um escritor católico francês do século XIX Ernest Hello, prenhe de reflexões profundas e argumentação percuciente à semelhança com o grande matemático e pensador do século XVII, Blaise Pascal, procurou nos dar uma definição distintiva do gênio e do talento. Disse Hello que o número de talentos em comparação com o de gênios, deve ser da ordem de 10 mil para 1. Talentos pois há muitos, ao passo que é relativamente raro nos depararmos com um gênio. Assim por exemplo, Johann Sebastian Bach e Handel são dois gigantes em meio a uma multidão de compositores barrocos dotados de inconfundível talento. Vivaldi, creio eu, foi dos mais exímios autores da música barroca entre os italianos, mas não parece ter sido um gênio. Então quê distingue um talento de um gênio? Hello em sua análise penetrante da temática nos dá esta distinção definidora das excelências consideradas: o talento caracteriza uma excelência restrita a uma área do pensamento, da pintura, da filosofia, da ciência, etc, ao passo que o gênio possui o dom das visualizações universais e totalizantes (E.H. Le Siècle. Perrin et Cie. Lib., Ed. Paris, 1923). Um grande oboísta por exemplo, exímio intérprete de Mozart e Haydn, deve ser visto como um talento. Ele poderá vir a ser um grande compositor e realizar sinfonias como as de Anton Bruckner. Então poderei considerá-lo gênio. Hello nos diz a este propósito que o talento é uma especialidade enquanto que o gênio uma superioridade geral. O gênio possui visão intuitiva e por isso abarca a totalidade e isto tem a ver com o espírito altamente criativo. Isto que digo aqui pode ser visto na base da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein: ele foi inegavelmente um físico teórico com estatura de gênio. Há uma multidão de físicos talentosos, mas gênios são poucos. Um desses poucos foi o britânico Paul Dirac (Prêmio Nobel) que, com suas elucubrações filosóficas a propósito do belo nas estruturas da física matemática, conseguiu atingir a genialidade na Física Teórica. Tanto Einstein quanto Dirac tinham um espírito fortemente filosófico, o que significa uma consciência do universal, e, assim, do caráter total da ordem de ser. Isto, diz Hello, está na base de um homem de estatura genial. Sto. Tomás de Aquino nos diz que uma inteligência é tanto mais elevada quanto mais universal é a base de suas reflexões (T.A. Contra Gentes, I, Cap. 69).

Ernest Hello ainda nos informa que o gênio sempre está possuído pela consciência dos valores, vg: ele odeia o mal e ama o bem. A verdade, o bem e o belo animam a vida espiritual de um gênio. O gênio é o oposto do homem medíocre, que sistematicamente se omite quando se trata de tomar uma posição face aos valores absolutos. A consciência dos valores absolutos está impressa em nossa consciência intencional como viram pensadores de gênio como Platão, Sto. Agostinho e Blaise Pascal. Na interioridade de nossa consciência estão as leis do ser, os valores do ser: são a priori face a qualquer abstração dos sentidos. Contraditando esta verdade, os filósofos peripatéticos, em sua proverbial mediocridade, desposam uma gnosiologia sensualista segundo a qual a mente deve ser vista como um receptáculo vazio a priori, cujos conhecimentos iniciais têm origem exclusivamente de percepções sensoriais. Esses três pensadores de gênio a que me referi estão em perfeita sincronia com a Sagrada Escritura nestas passagens: "Este mandamento que te ordeno neste dia não está acima de ti, nem distante de ti... Mas a palavra está próxima de ti, na tua boca e no teu coração..." (Números 6, 25-26); "A luz de vossa face está impressa em nós" (Ps. 4, 7); "Vossas palavras eu as tenho escondidas no coração..." (Ps. 118, 11); "Ele criou neles (Adão e Eva) a ciência do espírito, ele encheu seu coração com sabedoria e mostrou a eles, ambos, o bem e o mal" (Ecli. 7, 6); "Os gentios mostram as obras da Lei inscritas em seus corações..." (Rom. 2, 15); "Eis a aliança que então farei com a casa de Israel, incutir-lhe-ei a minha lei, gravá-la-ei em seu coração..." (Jer. 31, 33).

Os Padres da Igreja, como Sto. Atanásio, S. Gregório de Nissa, Sto. Agostinho, de posse dessa doutrina bíblica da imanência dos princípios e idéias metafísicas supremas, desenvolveram uma prova da realidade de Deus, que mais tarde, com Kant, passou a se chamar prova ontológica na versão tardia de Sto. Anselmo. O paralogismo deste, foi criticado pelo monge Gaunilon, Sto. Tomás de Aquino, Duns Scot, Kant, Boole, e, no século XX, por Bertrand Russel. No fim do século XX, eu procurei resgatar a prova ontológica utilizando as idéias imanentes de relação, ente, ser e o princípio platônico de participação (F.M.G. Um Resgate da Prova Ontológica... Rev. Reflexão, PUCCAMP, N. 78, 2000). As críticas à prova ontológica tem, a meu ver, origem em certos pressupostos gnosiológicos empiristas, presentes em maior ou menor grau nos críticos citados, devido a alguma influência aristotélica (F.M.G. Empirismo, Racionalismo e Princípio de Participação. Anais de Filosofia. UFSJ, N. 5, 1998). Vou dar um exemplo da prova ontológica em ação:

O cientista americano Francis Collins, Diretor do Projeto Genoma, abandonou seu ateísmo aos 26 anos com um argumento que o deixara aturdido, i.e., o comando da Lei Moral dentro de nós manifestando a realidade de Deus (F.S. Collins. A Linguagem de Deus. Editora Gente, S. Paulo, 2007).

Qual o indivíduo que não pode ser gênio? É aquele que rejeita toda a ordem de valores imanente à sua consciência, e, com isto, o horror de ver a face de Deus impressa em seu coração conforme a palavra de David: "O néscio diz em seu coração: não há nenhum Deus" (Ps. 13, 1). As duas monstruosas ideologias do século XX., o nazismo e o comunismo, geraram multidões fanáticas possuídas por repulsa a toda a ordem religiosa e a todo respeito à lei moral. Um homem que muito bem encarna isto foi o filósofo Martin Heidegger, ex-católico que odiava o Cristianismo e o povo judeu. Ele formulou uma legislação para as universidades do III Reich, tal que católicos e judeus eram impedidos de fazer carreira universitária. O filósofo Heidegger tem seu mérito em apontar para um vício oriundo da filosofia na Renascença, que vem sistematicamente ignorando o ser na metafísica, substituindo-o pelo ente, freqüentemente tachado de ser, assim como outros horrores como a identificação do ser com a existência e a identificação do ente com a essência. Isto nos diz o Pe. Cornelio Fabro, filósofo tomista autêntico, em contradição com a maioria dos ditos tomistas, que na realidade são pseudotomistas, ou seja, aristotélicos requentados (C. Fabro C.P.S. Participation et Causalité selon S. Thomas, Louvain, 1961). Os pseudotomistas são a grande maioria dos seguidores da vexatória philosophia perennis criada na Renascença, responsável entre outras coisas, pela absurda condenação de Copérnico e Galileu. Sto. Tomás de Aquino não tem nada a ver com tal abominação. Sou físico teórico, sei o que digo.

Heidegger, em sua filosofia existencialista e nacional-socialista nos dá uma "definição metafísica" de Adolf Hitler, como nos relata o importante historiador alemão Hugo Ott, a seguinte: "O Führer ele mesmo e só ele, É a realidade germânica, presente e futura e sua lei" (Hugo Ott. Martin Heidegger. A Political Life. Harper Collins Pub., London, 1993). Com esta "definição", Heidegger atingiu o nadir da filosofia. Vejamos agora um exemplo de um escravo da ideologia marxista. O físico soviético Alexandre Alexandrov dizia em 1953 o seguinte: "... o tratamento profundo dos conceitos da Teoria da Relatividade foi muito mal compreendido desde o começo pela maioria dos físicos e em particular por Einstein, o principal fundador da teoria. Não possuindo as noções do materialismo dialético, o qual somente permite o entendimento da teoria, os físicos burgueses interpretaram e ainda interpretam os fundamentos e resultado da mesma de uma maneira idealista... (A.D. Alexandrov. Sur l'Essence de la Théorie de La Relativité. Recherches Internationales à le Lumière du Marxisme. Cahier, N. 4)". Então Albert Einstein, o fundador da Teoria da Relatividade (e não o "principal fundador"), não entendeu sua própria teoria porque ignorava a rútila filosofia do materialismo dialético! E, nós "físicos burgueses" discípulos de Albert Einstein, somos uns completos ignorantes como o mestre. Bem, um filósofo nazista e um físico comunista exibem a mesma putrefação do entendimento. Não nego que Heidegger tenha sido talentoso em análises históricas sobre filosofia grega, ou Alexandrov ter sido bem sucedido em suas pesquisas físicas, mas certamente os dois nunca poderiam ser agraciados com o nobre título de gênio. Um arquiteto famoso por suas realizações profissionais, mas fanático adepto da ignóbil ideologia marxista, está longe de figurar na respeitável lista de homens geniais. Onde Deus é alijado e/ou desprezado não pode existir genialidade. Oscar Niemeyer gênio?! Empulhação! O Prof. Denis Lerrer Rosenfield da UFRS explica a existência dessa impostura nos termos: "O Brasil apresenta um déficit de idéias, talvez o mais importante dos seus déficits, o que o impede de progredir, pois idéias anacrônicas continuam pautando boa parte de suas decisões... Comunistas como Niemeyer são louvados em suas idéias" (D.L. Rosenfield. Irmãos Gêmeos, O Globo, 21/01/08).

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