Tribuna de Petrópolis:
31/08/2007

JUÍZO TEMERÁRIO

Fernando de Mello Gomide

Recentemente assistindo sermão de sacerdote por ocasião da missa de 08-07-07, ouvi do mesmo, juízo temerário sobre a Igreja e em especial sobre o laicato de 50 anos atrás. Dizia o padre considerado, que, há cinqüenta anos quando ele ainda usava calças curtas, a Igreja era muito diferente: então os leigos católicos não faziam quase nada de apostolado, já que tudo era considerado como tarefa da hierarquia eclesiástica, ou seja, o laicato católico dormitava alheio à vida da Igreja e não se interessava pela missa porque não entendia latim. Bem, eu tive a graça de Deus de ter completado agora 80 anos de idade, e, há 50 anos atrás não usava calças curtas e conhecia muito bem a vida da Igreja. Meu conhecimento e vivência do catolicismo nos meus 30 anos de idade contraditavam o infeliz e equivocado juízo do atual padre.

Havia sim um laicato católico ativo, nada tendo a ver com a caricata visualização da Igreja que tive a infelicidade de ouvir. Esse julgamento temerário da Igreja formulado pelo sacerdote que há 50 anos ainda usava calças curtas, ele muito provavelmente ouviu de seus mestres no seminário, que já vinham sendo envenenados com uma falsa noção do catolicismo, oriunda do estiolamento do amor à verdade produzido pelo relativismo gnosiológico, praga que infesta a filosofia do século XX, a qual exerceu nefasta influência nos meios intelectuais da Igreja, especialmente eclesiásticos. Essa postura embasa as ridículas críticas ao papel do laicato de tempos passados não muito remotos. Até à década de 50 ou 60, houve associações de leigos católicos muito ativas onde se estudava a doutrina social da Igreja desenvolvida em especial nos documentos pontifícios que nós não ignorávamos. Quantas vezes eu e outros colegas fizemos palestras nas congregações marianas sobre temas doutrinários de diversos tipos, atividade essa freqüente no laicato? Que dizer de outras agremiações como as da ação católica, especialmente voltadas para o apostolado? E as conferências vicentinas voltadas para a ajuda aos pobres e à doutrinação religiosa? E a missa? Quero lembrar que o movimento litúrgico iniciado no século XIX pelo beneditino Dom Prosper Guéranger (L' Année Liturgique, 1887), que visava valorar as orações litúrgicas da missa e a restaurar entre os católicos a devoção ao sacrifício eucarístico, produziu salutares efeitos no laicato, tendo no Brasil resultado numa melhor consciência do valor transcendental do santo sacrifício. Nessa época em que eu tinha 30 anos de idade, era comum os membros do laicato assistirem à missa com um missal bilíngüe. Não éramos carolas ou sulpicianos babando durante as cerimônias litúrgicas porque não conhecíamos latim. Saber latim não era condição sine qua non para participarmos da missa, como não era condição sine qua non para os católicos de rito melquita conhecerem o árabe literário, língua litúrgica. Quero ainda lembrar que nessa época da infância do padre considerado, a divina liturgia (como dizem os católicos de rito bizantino) era celebrada pelos sacerdotes e participada pelos leigos com extremo respeito e veneração; muito diferente do freqüente deboche manifesto nessas missas sacrílegas que mais parecem show de horrorosos musicais americanos. Sim Sr. Padre, aquela época que o senhor ridiculariza era muito diferente: então não esbofeteavam Nosso Senhor Jesus Cristo em Seu sacrifício incruento. As missas dos padres da Canção Nova e de outros carismáticos ligados à renovação carismática católica são extraordinariamente parecidas com os cultos de $eitas milenaristas de inspiração e/ou origem estadunidense. Não é à toa que tais $eitas estão se inchando com católicos trânsfugas. Estes têm nessas celebrações hediondas promovidas por não poucos padres e bispos, um vestibular de ingresso nessas $eitas que se consideram igrejas cristãs.

Essa espantosa profanação da liturgia católica não é só vigente nesta ex-Terra de Santa Cruz, mas ela é planetária. Há pouco tempo o padre americano Paul Scaglia, vigário da Paróquia de St. Patrick em Fredricksburg na Virgínia, increpa leigos e eclesiásticos que profanam a missa e que esses católicos do not realize that the Mass makes present the victory of life over death, and gives us our inheritance as children of God (não são conscientes de que a Missa atualiza a vitória da vida sobre a morte e nos dá a herança de sermos filhos de Deus). Isto se encontra em HLI Reports (12-01). O Pe. Scaglia compara a seriedade de um julgamento numa corte judicial que está voltada para a ordem terrena, com a total falta de seriedade nas "celebrações" litúrgicas dentro da Igreja. O espanto do Pe. Scaglia é compartilhado por um número não pequeno de leigos e de crescente número de padres. A presente situação hedionda exprime um desmantelamento da Igreja Católica. Quem o disse? Foi o Papa Paulo VI em 1968 por ocasião de um pronunciamento seu ao Seminário de Turim. Suas palavras: A Igreja se encontra em processo de autodemolição e está próxima do ponto de naufrágio. Paulo VI fala de processo de autodemolição e proximidade de afundamento, de liqüidação. Mas tal naufrágio não se realizará porque o Logos de Deus inerrante disse: Eu de declaro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela (Mat. 16,18). Portanto a Igreja de Cristo está fundada sobre a rocha, Pedro, o Papado, e que por isso não pode ser destruída. E ainda: Eis que estou convosco até o fim do mundo (Mat. 28,20). Esta é a Igreja de Cristo: a que tem por alicerce a pessoa do Papa escolhida pessoalmente pelo Filho de Deus. Por conseguinte todas as tentativas para afundá-la correm para o fracasso, inclusive esta apontada por Paulo VI em 1968. No tempo presente em meio aos escândalos de profanação da liturgia e dos sacramentos e ainda às abominações de pedofilia no clero, existe gente séria no laicato e na hierarquia eclesiástica que cumprem a promessa de Cristo. Vamos a alguns exemplos.

Em 1985 o padre beneditino americano Paul Marx, fundou a Human Life International, instituição benemérita muito ativa com a finalidade de combater o aborto, defender a moral cristã, a família e a vida. Sua atuação planetária tem resultado em estupendos sucessos, desmascarando a cultura da morte promovida por instituições governamentais especialmente dos Estados Unidos, e outras sinistras entidades como a máfia russa. A HLI tem sucursais em diversos países inclusive o nosso, cujo nome é Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família (www.PROVIDAFAMILIA.org). Ainda no Brasil ressalto o trabalho apostólico desenvolvido pelo Prof. Frei Antônio Moser, OFM, especialista em bioética, que, com seus livros de alto nível e através suas palestras em todo o país, tem esclarecido pessoas no meio político e universitário sobre os erros muito difundidos a propósito de moral sexual, assim como defendido os princípios da moralidade e da família cristã.

Essas realizações benéficas como outras dentro da Igreja Católica, não nasceram abruptamente. Os movimentos na História obedecem ao princípio ontológico de causalidade histórica, pelo qual tais movimentos são gradativamente produzidos ao longo de curtas gerações como também em extensas durações envolvendo várias gerações de pessoas. Vg: o movimento litúrgico iniciado por Dom Guéranger nos anos 70 do século XIX, produziu conseqüências no Brasil há 50 anos. Podemos dizer que foi no glorioso pontificado de Pio XII que flores sobrenaturais, como que anticorpos, estão atualmente impedindo o naufrágio da Igreja. A Igreja na época de Pio XII foi uma fortaleza que suportou os ataques brutais dos poderes satânicos do III Reich e da União Soviética. Quem o diz em especial foi o maior físico teórico do século XX, o judeu alemão Albert Einstein. Suas palavras: A Igreja Católica foi a única que levantou a voz contra o assalto conduzido por Hitler contra a liberdade. Até então, a Igreja nunca tinha atraído a minha atenção, mas hoje expresso minha grande admiração e a minha profunda ligação para com esta Igreja, que sozinha, teve a irremovível coragem de lutar pelas liberdades morais e espirituais. Ainda pela mesma época o ex-rabino Zolli fez este elogio de Pio XII: Nenhum herói da História jamais comandou um exército mais corajoso, mais atacado, mais heróico, do que Pio XII em nome da caridade cristã.

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