Instituto Histórico de Petrópolis
 24/09/1938
www.ihp.org.br
31/07/2000
c782271E80027021

Digitação utilizada para inclusão no site:
15/06/2012

Tribuna de Petrópolis
28/06/2012

Texto revisto segundo Princípios de Edição, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

 

Resgates petropolitanos

Francisco de Vasconcellos

Quintino Bocaiúva foi o tema da palestra que entretive no Instituto Histórico de Petrópolis, na noite de 11 de junho do corrente, no ensejo do transcurso do primeiro centenário do falecimento do último Presidente do Estado do Rio de Janeiro a governar desde Petrópolis.

Contei na altura com a grata presença de uma neta do homenageado, a Sra. Ana Maria Bocaiúva de Miranda Jordão, que enriqueceu a palestra com uma série de dados oportunos e interessantes.

Lá estava também o veterano associado do I.H.P. Arthur Leonardo Sá Earp, com a sua fleugma habitual, ele que é bisneto de Hermogênio Pereira da Silva e de Arthur de Sá Earp, dois desafetos declarados de Quintino Bocaiúva e que lhe fizeram dura oposição durante seu triênio à frente dos destinos do Estado (1901/1903).

E uma vez mais ficou claro e evidente que o tempo é um santo remédio para aplacar as paixões, para permitir a reflexão isenta e serena dos fatos, para colocar as coisas nos seus devidos termos, permitindo que a História refulja na sua inteireza e veracidade.

E ali estavam dois descendentes de polos completamente opostos, de forças que se repeliam no passado, em perfeita harmonia, irmanados numa justa celebração de uma das figuras mais proeminentes da vida pública brasileira, tentando melhorar o seu perfil e recuperar a sua imagem na moldura petropolitana.

Não esteve na minha cogitação falar da vida civil do homenageado, nascido no Rio de Janeiro em 4 de dezembro de 1836, batizado na Igreja da Lampadosa e falecido na mesma cidade aos 11 de julho de 1912; também não esteve na minha alça de mira o macro Quintino Bocaiúva, pois a sua atuação a nível nacional já está suficientemente bem documentada nos dois grossos volumes que o Senado Federal vem de publicar.

O que me levou à tribuna foi o Quintino no âmbito fluminense e mais especificamente em Petrópolis, como jornalista, nos anos cinquenta dos oitocentos, depois como Presidente do Estado no início do século XX. Quintino Bocaiúva chegou a Petrópolis aos 21 anos de idade e aqui empregou-se no jornal “O Parahyba” de Augusto Emilio Zaluar, periódico infelizmente, de vida efêmera, já que circulou de 1857 a 1859.

Talento inato para o jornalismo tornou-se redator da folha e nela publicou diversas matérias com seu nome por baixo. Tinham esses artigos imensa substância e são de uma atualidade impressionante. Sobre serem carregados de espírito crítico demonstravam profundo conhecimento de causa.

Falando da educação na província fluminense, mostrou Quintino as suas deficiências e mazelas, não estando os seus conceitos nada distantes do discurso do eminente Senador Cristóvão Buarque; abordando a questão das cadeias públicas provinciais, mostrou os intestinos do sistema prisional de sua época que, como hoje, longe de regenerar o delinquente, aprimora o seu currículo no submundo do crime; no artigo de 18 de abril de 1858, enfocando a polícia de Petrópolis, frisou que a certeza de impunidade e a fraqueza da autoridade incentivavam a conduta delituosa.

De volta ao Rio de Janeiro, Quintino Bocaiúva participou da fundação do jornal “A República” e foi um dos principais redatores e signatários do Manifesto Republicano de 1870.

Pertencia ao grupo dos que desejavam a república pela evolução e não pela revolução. Era o princípio conteano de conservar melhorando.

Em 1883 tornou-se redator de “O Pais” de que foi depois diretor presidente. Aí o encontrou o golpe de 15 de novembro de 1889.

Foi Ministro do Exterior do Governo Provisório, Senador da República e Presidente do Estado do Rio de Janeiro, candidato de coalizão, proposto por Campos Sales depois do racha no Partido Republicano Fluminense.

Que a sua gestão do ponto de vista político-administrativo e econômico-financeiro foi um desastre, disso não resta a menor dúvida e o fato era reconhecido até mesmo pelos seus aliados. Mas não seria justo dizer que ele foi o único responsável por levar daqui, de volta para Niterói, a capital do Estado do Rio de Janeiro.

Quintino Bocaiúva fez parte de uma terrível conjuntura política que não fora criada por ele e que uma ilusão de ótica o fizera bode expiatório, malhado até hoje como Judas nestes ressentidos desvãos da Serra da Estrela. Repensemos todo esse quadro para que definitivamente possamos fazer JUSTIÇA!.

 

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