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26/10/2011

Tribuna de Petrópolis:
26/10/2011

Resgates petropolitanos

Francisco de Vasconcellos

Maria Elvira Macedo Soares nasceu em Paris aos 2 de novembro de 1911. Está pois a transcorrer o primeiro centenário de seu nascimento.

Filha do político e jornalista José Eduardo de Macedo Soares, fundador e diretor-presidente de “O Imparcial” e do “Diário Carioca”, e de Adélia Costallat de Macedo Soares, ligou o seu destino a Petrópolis desde tenra idade.

Seus pais adquiriram em 16 de dezembro de 1915 e 9 de fevereiro de 1918 a parte principal da Fazenda Samambaia que incluía a casa grande, vinda de meados do século XVIII  e demais benfeitorias.

Foram transmitentes Horacio Moreira Guimarães, filho do Barão de Guimarães e sua mulher Ana Maria Rocha Miranda Moreira Guimarães.

Maria Elvira, que atendia na intimidade por Marieta, chegou portanto a Samambaia com quatro anos de idade e ali passou gostosos verões durante sua meninice e adolescência.

De suas lembranças deu conta em interessante livro de 1977 que intitulou “Samambaia”, obra que tive o prazer de apresentar e anotar e que recebeu boa crítica de Luis da Câmara Cascudo em memoráveis cartas que dei à publicidade em “Camara Cascudo do Potengi ao Piabanha” Petrópolis, 1989.

Em “Samambaia” há um capítulo dedicado às visitas regulares que durante o verão fazia à fazenda o Bispo de Niterói D. Agostinho Benassi (1868/1927), onde o prelado era recebido com toda a pompa e circunstância por D. Adélia, senhora conhecida por sua radical religiosidade.

Mas aquelas férias de fim de ano na tranquilidade samambaiana sob o olhar compreensivo e simpático de D. Benassi, foram bruscamente interrompidas pela necessidade de mudar-se a família para a Europa por causa de perseguições políticas durante o governo de Artur Bernardes (1922/1926).

Marieta foi internada num colégio em Wetren na Bélgica. De volta à pátria, retomou os veraneios em Samambaia, que a separação dos pais em 1929 não conseguiu prejudicar.

Na partilha de bens do casal a fazenda tocou à D. Adélia, que no entanto já não pôde contar com as bênçãos regulares de D. Benassi, morto em 1927.

Ao iniciarem-se os anos trinta dos novecentos, Marieta mudou-se para São Paulo para viver na companhia da avó paterna. Mulher de imensa coragem pessoal, meteu-se na revolução de 1932 como enfermeira de campanha dos revolucionários paulistas. Participou da resistência em Itapetininga e ali conheceu o primeiro marido, com quem teria um único filho, já que perdera o companheiro prematuramente.

De volta ao Rio na virada dos anos trinta para os quarenta, Marieta viu a mãe vender a casa grande de Samambaia e as terras circunjacentes, reservando no entanto cerca de um milhão de metros quadrados da propriedade que foram transmitidos à ora biografada e à sua irmã Lota Macedo Soares, as quais implantaram ali um loteamento de alto nível, feito com enorme capricho, onde tiveram casas de veraneio a pintora Djanira, o historiador Otávio Tarquínio de Souza, os escritores Gustavo Corção, José Barreto Filho e Lúcia Miguel Pereira, o jornalista e político Carlos Lacerda, a própria Marieta e Lota, com sua companheira, a notável poeta norte-americana Elisabeth Bishop. Era esta uma bela vivenda projetada por Sergio Bernardes circundada pelos jardins de Burle Marx.

Tempos de glamour, de bom gosto, do ócio filosófico que estas serras gostosamente proporcionavam. Benditos e alcandorados anos cinquenta, divisor de águas entre a civilização e a barbárie.

O projeto Samambaia, depois do projeto Quitandinha, foi o canto de cisne da Petrópolis ninho da águia. Bem dizia aquele sucesso carnavalesco: “O galo é que está com a razão/poleiro de pato é no chão”.

Desfazendo-se de sua propriedade na Samambaia, Marieta foi, depois de uma temporada no Rio, abrigar-se na Mosela, num chalé colonial que o seu bom gosto e sua criatividade souberam valorizar.

Ali a conheci em meados dos anos setenta. Nossa aproximação decorreu dos interesses intelectuais convergentes. Uniu-nos o espírito numa autêntica relação mãe e filho.

Como eu, ela era totalmente desapegada de bens materiais. Gostava de escrever e deixou vários livros inéditos, entre eles “À Sombra das Revoluções” em que ela narra os embates que enfrentara seu pai ao longo da turbulenta vida de jornalista e político.

Tinha Marieta um temperamento explosivo que muita vez não permitia que ela medisse as consequências de seus atos. Mas sabia ser persuasiva quando percebia que somente com astúcia e inteligência poderia vencer certas batalhas. Sempre que se meteu com medalhões, levou a pior; jogando com simplicidade, ganhou todas.

Caráter acima de qualquer suspeita, verdadeira até a contundência, nunca fugiu do combate franco e direto e jamais se rebaixou à pecúnia. Em tudo isso sempre estivemos de acordo, daí porque não poderia deixar de homenageá-la na passagem desse seu primeiro centenário de nascimento.

Marieta faleceu aos 30 de setembro de 1994.

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