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06/09/2011

Tribuna de Petropólis
24/04/2011

Resgates petropolitanos

Francisco de Vasconcellos

JEAN BAPTISTE BINOT, nascido em 1810 na França, chegou ao Brasil em 1836. Em 1848 instalava-se em Petrópolis com a sua primeira chácara onde passou a cultivar flores e hortaliças. Como Saint-Hilaire, foi sobretudo amigo das plantas e da natureza.

Pode-se afirmar com segurança que Binot foi o primeiro ecólogo de Petrópolis, o pioneiro no combate à devastação indiscriminada das matas que, na sua exuberância tropical guarneciam as encostas da urbe nascente, protegendo os mananciais, evitando o assoreamento dos rios e ipso facto minimizando a força das enxurradas.

Foi também Binot um defensor intransigente do plano Koeler, inconformado com as primeiras agressões sofridas por ele e que se agravaram ao longo dos anos, da Monarquia à República.

Sobre Koeler disse Binot em vibrante artigo publicado em “O Parahyba”, edição de 23 de dezembro de 1858:

“De carater firme, de vontade inabalavel, bom para as famílias laboriosas, duro e severo para os preguiçosos, era preciso que, bom ou mau grado, tudo se submetesse às suas ordens que não tinham outro fim que o interesse geral da colônia.

Tomou-o a morte no começo de todos os grandes trabalhos, que foram esboçados por ele, mas que ficaram suspensos ou paralizados durante muitos anos. Depois de sua morte o progresso da colônia começou a diminuir em razão da má direção que tomou a sua administração.”

Adquirindo terrenos no Retiro de São Tomaz e São Luiz, Binot criou ali uma nova chácara que se tornara famosa já no decorrer dos anos sessenta dos oitocentos pelas hortaliças que produzia e pelas estufas onde eram cultivadas inúmeras variedades de flores, entre elas a orquídea.

São da lavra de Jean Baptiste Binot o projeto e a execução dos jardins do Palácio Imperial de Petrópolis, onde avultam até hoje inumeráveis essências tropicais. Um outro francês de nomeada no ramo da jardinagem, Auguste Glaziou foi suplantado por Binot nessa feliz concorrência.

Alcindo Sodré em artigo sobre Jean Baptiste Binot, publicado no vol. VI dos Trabalhos da Comissão do Centenário de Petrópolis, 1943, trouxe importante informação acerca da primeira chácara do horticultor francês nesta urbe. Ouçamo-lo:

“A sua primeira propriedade adquirida em 13 de fevereiro de 1848 foi no Quarteirão Nassau, terreno constituído por 2.428 braças e situado onde se encontra a residência do professor Afrânio Peixoto.”

A chácara tinha portanto testada para a Avenida Piabanha e confrontava com os terrenos que compunham a gleba pertencente ao Visconde de Mauá. Conheci nos anos cinquenta dos novecentos D. Chiquita, filha de Alberto de Faria e viúva de Afrânio Peixoto morando numa casa plantada no prazo de terras outrora base fundiária da primeira chácara Binot.

E Alcindo Sodré no mesmo artigo revelou os feitos do botânico francês no exterior, premiado que fora em exposições de plantas levadas a efeito em Paris e em Antuérpia, na Bélgica.

Na sua propriedade do Retiro Binot tentou fazer experiências com trigo, centeio e cevada, também com videiras. Koeler já havia ensaiado a cultura do chá na Terra Santa. Claro que tais experiências redundaram infrutíferas, porque tais culturas não dependem somente do clima. O mesmo coqueiro que dá maravilhosos frutos na Bahia, não frutifica em Vila Velha, no Espírito Santo, nem em Araruama, RJ, à margem da lagoa. Fiz pessoalmente essas averiguações nos anos cinquenta e sessenta do século XX.

Jean Baptiste Binot faleceu nesta cidade aos 17 de setembro de 1894, segundo seu registro de óbito, aos 86 anos de idade, o que faz recuar o seu nascimento para o ano de 1808.

Há homens que têm muito mais valor que outros que têm fama, dizia um velho estudioso da psicologia social. Tantos badamecos são promovidos aqui a heróis civilizadores, ao ponto de ostentarem seus nomes em placas de ruas. Samambaia está cheia desses exemplos.

Pois um homem da dimensão de Jean Baptiste Binot, que longe de ser um eco-chato, era profundo conhecedor das características geológicas, botânicas e ambientais de Petrópolis, sucumbiu na memória destas serras, confinado que ficara num desvão ignoto do Retiro.

Antonio Machado, na sua “Nomenclatura Urbana”, publicada no vol.1 dos Trabalhos da Comissão do Centenário de Petrópolis, 1938, escreveu o seguinte:

“Existe no Retiro uma comunicação entre as ruas Henrique Dias e Carneiro Leão, registrada no cadastro do 2° distrito em 1896 como travessa Guarani, mas a que o povo local dava, já então, o nome que vem sendo conservado de caminho do Binot.”

“Cum tacet, clamat”, diziam os latinos. Calado clamo por justiça.

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