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15/10/2002

Jornal de Petrópolis
7-13/12/2002
Ano 5 - n. 314

ATÉ QUE A MORTE OS LIBERTE

Francisco de Vasconcellos

Já os latinos falavam de dias fastos e nefastos; de coincidências venturosas e desafortunadas; de destinos que se cruzam para celebrar a harmonia ou para lamentar a discórdia, a controvérsia, a contradição.

Só a morte liberta de verdade os que, durante a vida, por longo ou curto espaço de tempo, experimentaram o cruzamento de seus caminhos para viverem o inferno na terra.

E, por isso mesmo, muita vez, só a morte é a coincidência feliz.

Prudente José de Moraes Barros, nasceu em Itu a 4 de outubro de 1841, dia consagrado a São Francisco de Assis. Portanto, veio ao mundo muito bem auspiciado. Perdeu o pai tragicamente. Um escravo o assassinou covardemente e pagou com a vida pelo crime que cometera.

Estudando na capital da então província de São Paulo, chegou à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1859. Colou grau em 1863. Radicou-se então em Piracicaba, montando ali banca de advogado. Filiado ao Partido Liberal, ingressou na política e foi, no antigo regime, várias vezes, presidente da Câmara piracicabana e deputado provincial.

Depois do histórico manifesto de 3 de dezembro de 1870, ingressou Prudente de Moares no Partido Republicano e tornou-se um dos principais organizadores da agremiação em São Paulo.

E quando a república raiou no horizonte brasileiro, Prudente José de Moraes Barros foi logo nomeado governador de seu Estado natal. Foram onze meses de profícuo trabalho, que contemplou algumas reformas importantes em diversos setores da administração paulista.

Presidente da assembléia nacional constituinte, encaminhou com sucesso a elaboração da primeira Carta republicana, afinal promulgada em 24 de fevereiro de 1891.

Em junho daquele ano, foi eleito Vice-Presidente do Senado Federal.

Em reunião de 25 de setembro de 1893, o Partido Republicano indicou-o, por unanimidade de votos, candidato à presidência da República, para cumprir o quatriênio a iniciar-se em 15 de novembro de 1894. Feriu-se o pleito a 1º de março desse ano e, apesar do desinteresse geral, as urnas consagraram os nomes do paulista Prudente de Moraes para Presidente da República e do baiano Manoel Victorino Pereira, para Vice.

O Congresso Nacional, na sessão de 22 de junho de 1894, reconheceu e proclamou os eleitos, que tomaram posse a 15 de novembro, em melancólica cerimônia.

Avultavam em Prudente de Moraes as características do republicano histórico: probidade, austeridade, simplicidade, despojamento, intransigência no cumprimento de metas pré-determinadas.

No desempenho da presidência da República, foi o ituano um estadista perfeito, graças ao seu equilíbrio, à sua paciência, à sua resignação, à sua coragem, à sua habilidade na articulação e sobretudo à sua percepção do momento delicado por que passava o país. Não foram poucas as crises que teve de enfrentar, interna e externamente e os golpes que teve que neutralizar, vindos alguns do próprio seio do governo. A todos os desafios deu resposta cabal, até mesmo ao atentado, que quase lhe causou a morte. Discreto, firme, inabalável, entregou o bastão ao seu sucessor e teve um bota-fora concorridíssimo, sob os aplausos de correligionários e do próprio povo da então Capital Federal.

Dele disseram os autores da obra "O Novo Governo da República", Imprensa Nacional, 1894:

"Sua palavra é cadenciada e doce e a frase lhe cai sempre fácil, insinuante, persuasiva e clara: não tem rodeios para exprimir o pensamento, que sempre traduz de um modo completo e franco.

Adora estremecidamente as idéias, por que tanto batalhou".

Manuel Victorino Pereira, baiano de Salvador, onde nasceu a 30 de janeiro de 1853, sendo filho de pai português, marceneiro de profissão e de mãe baiana, de família comum e corrente. Apesar da origem humilde, o menino, a exemplo de alguns de seus irmãos, estudou, obteve os preparatórios e logrou matricular-se na tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, onde colou grau em 1876.

Tornando-se professor de clínica cirúrgica, tomou posse a 5 de agosto de 1883.

No jornalismo político, dedicou-se à campanha abolicionista. Filiado ao Partido Liberal, contou sempre com a prestigiosa amizade e o apoio de Rui Barbosa. E foi certamente graças a esse prestígio, que Manuel Victorino foi nomeado primeiro governador da Bahia depois do 15 de novembro de 1889, mesmo a despeito de ser um aderente de última hora à República.

Não resistiu às inúmeras crises e foi forçado a deixar o governo de sua terra natal. Depois da constitucionalização do país e dos Estados, elegeu-se senador, para integrar o chamado Congresso baiano.

Indicado para Vice na chapa capitaneada por Prudente de Moares, foi com este conduzido ao quadro da suprema magistratura do Brasil.

Mas, Manuel Victorino Pereira foi um tormento na vida do Presidente. Ambicioso, mequetrefe, inoportuno, antiético, tramou o que pôde, para desestabilizar o governo legalmente constituído. Aliou-se aos florianistas, num plano diabólico para tomar o poder e só não logrou colimar seus objetivos, por causa do fracasso da missão Moreira Cesar em Canudos.

E no atentado sofrido por Prudente em fins de 1897 e que provocou a morte de seu Ministro da Guerra Marechal Machado Bittencourt, estaria, para muitos, o dedo de Victorino, o que aliás foi amplamente divulgado pela imprensa da época.

Quando, por motivo de doença, Prudente de Moraes teve que afastar-se do cargo em meados de 1896, para somente voltar a ele no segundo trimestre do ano seguinte, Victorino, no exercício da presidência, meteu os pés pelas mãos, somando, às já existentes, crises perfeitamente evitáveis. É que ele, integrante do governo, fazia a política dos adversários deste.

O caso mais lamentável nessa tormentosa quadra do início da República, foi a estapafúrdia intervenção federal, feita ao arrepio do bom senso e da legislação vigente, no norte fluminense, em fins de 1896, quando se travava no Estado da eleição para o preenchimento de uma vaga no Senado.

Manuel Victorino Pereira era tão hostil ao Presidente, que este não precisava ter outros inimigos. A situação era tão séria, que o Chefe de Polícia do Distrito federal, Dr. Edwiges de Queiroz, teve de infiltrar na casa de Victorino um estudante de medicina disfarçado de copeiro. Foi a forma encontrada para vigiar de perto os movimentos do irrequieto e trêfego conspirador.

Enfim, Manuel Victorino Pereira foi a provação maior de Prudente de Moares ao longo do tormentoso quatriênio 1894/1898.

A grande libertação veio com a morte de ambos, quase que concomitante. Foi a coincidência feliz, depois de tanto sofrimento. Manuel Victorino morreu no Rio de Janeiro a 9 de novembro de 1902 e Prudente de Moares, em Piracicaba, a 3 de dezembro do mesmo ano, coincidentemente no glorioso dia do manifesto republicano.

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