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28/04/2002

Jornal de Petrópolis
15/06-21/06/2002
Ano 5 – n. 289

HÁ CEM ANOS MORRIA JOSÉ CANDIDO MONTEIRO DE BARROS

Francisco de Vasconcellos

A justiça dos homens é em geral falha, falsa e frustrante.

Nas mais das vezes está condicionada a subjetividades inconfessáveis e a interesses circunstanciais.

Tive enorme decepção quando, ao abrir a Gazeta de Petrópolis do dia 14 de abril de 1902, encontrei já no fim da 5ª coluna da 1ª página a notícia lacônica da morte e do sepultamento do Coronel José Candido Monteiro de Barros.

Esperava, isto sim, necrológio de grosso calibre, encimado pelo retrato do falecido, que entregara a alma ao Criador, nesta ribeira do Piabanha aos 12 de abril de 1902.

O Coronel José Candido freqüentou as páginas dos jornais petropolitanos durante toda a segunda metade do século XIX e mesmo a "Gazeta", ao tempo da Revolta de 6 de setembro, dita da Armada, franqueou-lhe avultados espaços, para divulgar as colaborações do Coronel à causa da legalidade e do florianismo.

Tanto desprezo assim da imprensa local, votado ao Coronel no momento de sua morte só poderia ser explicado, ou por motivos políticos, ou por alguma incompatibilidade entre o recém falecido e a cúpula da Gazeta de Petrópolis.

Mas, como estamos bem distantes dessa lamentável omissão e já suficientemente estribados na perspectiva temporal, não temos por que deixar passar in albis a data centenária do falecimento dessa figura interessante e singular que enriqueceu a história desta urbe por mais de cinqüenta anos.

José Candido Monteiro de Barros foi o típico "grand seigneur" da periferia cortesã da Serra Acima. Fidalgo bonachão, tinha a nobreza do sangue e das maneiras.

Neto paterno de Lucas Antonio Monteiro de Barros, Visconde de Congonhas do Campo e materno de Brígida Maria da Assunção Fragoso, sobrinha do Padre Corrêa, de Agostinho Goulão e de D. Maria Brígida Gonçalves Dias, senhora de Samambaia, nasceu no Rio de Janeiro e, sendo órfão de pai e mãe muito cedo, veio viver em companhia da vovó Brígida na Fazenda da Arca de Noé e Benfica, no atual 3º distrito de Petrópolis.

Sob a responsabilidade do vovô Visconde, primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, equivalente ao nosso S. T. F. dos dias que correm, estudou no Colégio Pedro II e depois no Caraça, em Minas Gerais.

Voltando a Petrópolis, aqui radicou-se, casando-se com a prima Mariana Augusta Moreira Guimarães, irmã do Barão de Guimarães e tia de Horácio Moreira Guimarães, que tornou-se proprietário da Fazenda Samambaia a partir do início dos anos noventa do século XIX.

Com Mariana Augusta, teve José Candido dois filhos, mortos em tenra idade e ela mesma deixaria este mundo em 1860.

Foi através desse casamento que José Candido veio a ser proprietário da Fazenda da Olaria e, pela via sucessória, tornar-se-ia dono das fazendas da Arca de Noé e Benfica, da Engenhoca e do Retiro de São Tomás e São Luiz.

Enquanto seu trisavô materno, Manoel Corrêa da Silva, foi o maior latifundiário nestas paragens durante o século XVIII, José Candido fez jus a esse título na segunda metade dos oitocentos.

Nem por isso usou a terra como instrumento de opressão. Ao contrário, foram inúmeros os seus compadres que se tornaram comodatários em seus domínios e de muitas comissões de emancipação de escravos participou.

Viúvo, veio a unir-se a uma outra prima, Deolinda Amália Cardoso de Lemos, nascida em Samambaia e residente na Grota Funda, que era já desmembramento daquela herdade.

Desse consórcio nasceram e criaram-se três filhas: Adelaide, que se casou com o Dr. Gabriel José Pereira Bastos; Maria Teresa, que foi mulher do Dr. Manoel Edwiges de Queiroz Vieira e Laura, que por morte de sua irmã Adelaide viria a ser a segunda esposa do Dr. Gabriel.

José Candido foi homem público de destaque nesta urbe; teve enorme prestígio social e, como Coronel da Guarda Nacional, manteve aqui, de seu bolso, três batalhões bem treinados, postos à disposição do governo da República, por ocasião da Revolta da Armada.

Mas, há um lado humano no perfil do Coronel, que pouco tem sido explorado e que vale a pena ser posto em relevo, neste momento em que recordamos a sua passagem por este planeta.

José Candido Monteiro de Barros, foi mais que tudo um libertário, um homem que viveu e deixou viver.

Não tinha a índole repressora e distante dos pais de família de sua época. Ao contrário, mantinha excelentes relações com suas filhas e fazia-lhes todas as vontades.

Para Maria Teresa, Sinhazinha, na intimidade, quiçá o seu xodó, mandou construir uma casa, para que ela ali desse as suas festas. O prédio, bastante modificado, pertence hoje ao Seminário Diocesano de Corrêas.

E quando essa mesma filha se casou em 1897, com o Dr. Manoel Edwiges de Queiroz Vieira, o Coronel cedeu-lhe de bom grado a Fazenda da Engenhoca, onde ela montou sua residência nestas serras e onde faleceu-lhe o marido, em 1921.

Homem de gestos largos, de trato afável, conhecido por sua hospitalidade e pelo seu carinho com os mais necessitados, foi Presidente de Honra da banda de música e benemérito de algumas instituições de caridade.

De espírito ecumênico, nunca se deixou patrulhar pela estreiteza dos cânones eclesiásticos de sua época, nem se insulou em doutrinas radicais ou fechadas ideologias.

Recebia em sua casa da Olaria, com enorme agrado, não só o Imperador como diversos membros da família imperial. Mas o seu voto era sistematicamente dado ao republicano José Thomaz da Porciúncula, sendo o fato do conhecimento do próprio D. Pedro II.

E essa simpatia e confiança que devotava ao jovem político petropolitano, solidificou-se de tal forma que o Coronel, uma vez proclamada a República, nunca negou o seu apoio moral e material a Porciúncula, que foi inclusive padrinho de casamento de sua filha Maria Teresa, em janeiro de 1897.

Apesar de ter recebido da monarquia algumas honrarias, entre elas, a comenda da Ordem da Rosa e a nomeação de Moço Fidalgo da Casa Imperial, foi da república que obteve José Candido a confirmação de seu posto no comando superior da Guarda Nacional. Às provas de confiança que lhe deu Floriano Peixoto, retribuiu com sua invariável fidelidade, preparando aqui três corpos bem treinados, para guarnecerem as forças empenhadas em liquidar a revolta de 6 de setembro de 1893.

Tanta independência, tanta sobrançaria em relação aos governos e às suas formas, só seria possível nesse sistema quase feudal, em que o latifúndio, produtivo ou não, garantia o poder, o prestígio político, a posição social e a nobilitação do senhor, muita vez mais rico, soberano e ostentoso, que o próprio governo.

Na Petrópolis do último quartel da monarquia, costumava-se dizer que só havia aqui dois senhores verdadeiros: o snr. D. Pedro II e o snr. Coroné Zé Candido e que este possuía ainda mais terras que aquele!

Mas terra é terra até um certo ponto, pois como diz o povo, não há bem que nunca se acabe. As guerras, as crises, os desmandos, as brigas de famílias, as partilhas, as uniões mal sucedidas, tornam-nas voláteis, como o dinheiro vivo. E foi o que aconteceu. O lastro fundiário do velho José Candido foi para o espaço, não se cumprindo jamais a sentença que ele não se cansava de repetir:

"Os netos dos meus netos nunca precisarão trabalhar, porque as terras que eu deixarei serão suficientes para muitas gerações".

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