digitação original: 29/12/1999

RUI  BARBOSA  NA  VISÃO  DE  MARTIN  GARCIA  MEROU

Francisco  de  Vasconcellos

Com  o  advento  da  República,  o  Brasil  acercou-se  enormemente  das  nações  hispano-americanas,  tendo  havido  mesmo  uma  espécie  de  febre  americanista  entre  nós.

Mais  do  que  da  Europa,  recebemos  de  nossos  vizinhos  representantes  diplomáticos  com  enorme  bagagem  cultural  e  intensa  produção  intelectual.

Poder-se-ia  mesmo  dizer,  que  muitos  desses  homens,  acabavam  eventualmente  servindo  a  seus  países  no  exterior,  menos  pela  capacidade  de  fazer  diplomacia,  que  pelos  seus  méritos  de  escritores  ou  cientistas,  maxime  no  campo  das  ciências  humanas.

O  argentino  Martin  Garcia  Merou,  pode  ser  considerado  um  exemplo  bem  ilustrativo.

Nomeado  em  março  de  1894,  para  servir  no  Brasil  como  Enviado  Extraordinário  e  Ministro  Plenipotenciário  de  seu  governo,  apresentou  credenciais  no  Rio  de  Janeiro,  em  19  de  julho  de  1894,    depois  de  extinta  a  Revolta  da  Armada  e  quase  no  apagar  das  luzes  do  turbulento  e  sanguinário  governo  do  Marechal  Floriano  Peixoto.

Radicou-se  Garcia  Merou  em  Petrópolis,  como  era  comum  naquela  época  e,  por  quase  dois  anos  conviveu  entre  nós,  ilustrando  com  sua  presença  o  corpo  diplomático  aqui  sediado.

Nos  seus  momentos  de  lazer,  ao  invés  de  viver  a  vida  um  tanto  frívola  e  mundana  das  rodas  da  diplomacia,  preferiu  dedicar-se  ao  estudo  da  literatura  brasileira,  para  depois  divulgar  na  imprensa  de  seu  país  o  resultado  de  suas  investigações,  levando  ao  conhecimento  de  seus  patrícios,  figuras  de  primeira  linha  completamente  ignoradas  na  área  platense  e  de  resto  em  toda  a  América  de  fala  espanhola.  Na  verdade,  também  nós  aqui  vivíamos  a  ignorar  os  autores  hispano-americanas,  como  se  estivéssemos  em  pólos  completamente  distintos.

Os  artigos  de  Martin  Garcia  Merou  foram  publicados  em  Buenos  Ayres,  em  1897,  numa  revista  chamada  La  Biblioteca.  Depois,  foram  reunidos  em  livro,  no  ano  de  1900,  sob  o  título  "El  Brasil  Intelectual".  É    que  vamos  encontrar,  entre  outros,  o  longo  estudo  que  fez  da  personalidade  e  da  obra  de  Rui  Barbosa.

O  diplomata  argentino  conheceu  Rui  Barbosa,  quando  este  voltava  do  exílio  na  Inglaterra  durante  a  ditadura  de  Floriano.

Pela  mão  de  Tobias  Monteiro,  foi  levado  à  bela  chácara  da  rua  São  Clemente,  numa  tarde  de  primavera  de  1895.  E    teve  uma  longa  entrevista  com  o  intelectual  baiano.

Confirmando  as  judiciosas  observações  de  Humberto  de  Campos  exaradas  no  seu  livro  de  Crítica,    série,  Garcia  Merou,  viu  em  Rui  Barbosa,  muito  mais  o  literato,  o  homem  de  frases  candentes,  de  períodos  lapidares,  de  orações  escorreitas,  de  discursos  sonoros  e  ornamentados,  que  o  ativista  político,  o  estadista,  o  artífice  de  uma  nova  ordem  social  e  política.

Deteve-se  no  exame  de  uma  conferência  abolicionista  dada  num  dos  teatros  da  Côrte  nos  anos  80  do  século  XIX.  E  faz  esses  comentários:

    "Aquela  oração  em  seu  gênero  é  uma  peça  magistral,  pela  elegância  de  sua  linguagem,  a  profundidade  de  seus  conceitos,  o  tom  sucessivamente  irônico  e  majestoso  de  suas  palavras,  a  delicadeza  de  suas  insinuações,  os  golpes  de  estilo  de  sua  sátira  implacável,  os  arranques  soberbos  de  sua  patriótica  inteligência".

Percebe-se  nesta  análise,  que  estão  muito  mais  a  nu  os  dotes  de  estilo,  as  roupagens,  as  filigranas,  a  forma  enfim,  que  propriamente  o  conteúdo  do  discurso.

Mais  adiante  diz  o  preclaro  escritor  argentino:

    ". . .  o  discurso  de  Rui  Barbosa  ficará  como  um  modelo  da  grande  oratória,  a  mais  elevada  e  a  mais  dominadora,  a  que  fazia  vibrar  o  ágora  ateniense  ante  os  apostrofes  de  Demóstenes  e  estremecer  o  forum  romano  com  os  estalidos  impetuosos  das  Catilinárias  de  Cícero".  Exacerbação  da  forma  sobre  o  conteúdo.

É  incontestável  que  Martin  Garcia  Merou  prestou  um  enorme  serviço  à  cultura  brasileira,  quer  pela  erudição  com  que  tratou  os  vários  temas,  quer  pelo  retrato  fiel  que  traçou  de  seus  contemplados,  divulgando-os  em  sua  pátria  e  de  resto  em  toda  a  América  de  fala  espanhola,  na  possibilidade  de  sua  obra.

Rui  Barbosa  foi  um  dos  grandes  beneficiários  da  crítica  de  Merou,  que,  sempre  encantado  com  seu  talento  de  expositor  e  de  escritor,  sublinhou,  que  o  estilo  barboseano  era  preciso  e  amplo,  ao  mesmo  tempo,  com  sonoridades  de  bronze  e  com  algo  de  sacro,  sedoso  e  metálico,  simples  e  grandiloqüente  "em  que  se  mesclam,  sem  confundir-se,  a  perfeição  da  linha  de  Renan  e  a  intensidade  corrosiva  de  Fronde".

O  elegante  e  sobranceiro  diplomata  e  escritor  argentino,  foi  na  verdade  muito  hábil  e  conveniente  na  abordagem  do  tema  Rui  Barbosa.

Foi  ele  incontestavelmente  muito  generoso  e  mesmo  panegirista  ao  enfocar  a  figura  e  mais  que  tudo  a  obra  da  futura  Águia  de  Haia.

Não  quis,  quiçá  por  pruridos  inerentes  à  sua  carreira  ou  pelo  destaque  internacional  de  seu  enfocado,  descer  a  certas  críticas,  que  de  resto  poderiam  implicar  numa  tomada  de  posição  pouco  lisonjeira  em  relação  a  determinadas  políticas  brasileiras,  muita  vez  ditadas  pelas  circunstâncias.

Contaminado  pelo  talento  e  os  recursos  verbais  de  Rui,  Garcia  Merou,  ao  analisar,  por  exemplo,  o  que  aquele  escreveu  sobre  o  Estado  de  Sítio,  nos  tormentosos  tempos  de  Floriano,  deixou  de  destacar  a  falta  de  auto  crítica  do  eminente  baiano,  que  num  mesmo  período  de  suas  razões  declara  enfático:

Que  nada  representa  perigo  maior  para  um  povo  que  a  ausência  ou  degenerescência  do  sentimento  jurídico,  pois  os  povos  são  governados  ou  pela  força  ou  pelo  direito.  "Mas  o  que  somos  é  uma  nação  de  retóricos".  (  grifo  meu  )  "Nossos  governos  vivem  envolvendo  em  um  tecido  de  palavras  seus  abusos  . . .   A  arbitrariedade  palavrosa  é  o  regime  brasileiro".

Ora,  havia  no  passado  u'a  marchinha  carnavalesca  que  dizia: 

    "Macaco  olha  o  teu  rabo/  Senão  vai  haver  o  diabo ! ".

Rui  Barbosa  não  teve  esse  cuidado.  Quiçá  esqueceu-se  que  era  o  rei  dos  retóricos,  o  campeão  do  discurso  palavroso ?  E  a  arbitrariedade  que  cometeu,  completamente  injurídica,  ato  de  força  incontestável,  ao  mandar  queimar  os  arquivos  da  escravidão,  prevalecendo-se  de  sua  condição  de  Ministro  do  Governo  Provisório  da  nascente  República ?

Tão  pouco  Garcia  Merou  ousou  fazer  esses  reparos,  ante  as  verberações  barboseanas  por  causa  das  arbitrariedades  durante  o  estado  de  sítio  decretado  pelo  turbulento  governo  de  Floriano.

Realmente  pimenta  nos  olhos  dos  outros  é  refresco.

E  vale  lembrar,  que  trinta  anos  depois,  pouco  antes  de  morrer,  Rui  Barbosa  descia  de  Petrópolis,  para  dar  seu  voto  favorável  ao  estado  de  sítio  no  aurorecer  do  nefasto  quatriênio  Artur  Bernardes.

Numa  outra  altura,  Martin  Garcia  Merou,  examinando  o  volume  "Finanças  e  Política  da  República",  lançado  por  Rui  Barbosa,  em  1892,  esquiva-se  explicitamente  a  ferir  o  mérito,  dizendo  que  se  se  detivesse  no  aprofundamento  analítico  dos  temas  alí  tratados,  estaria  fugindo  do  escopo  de  suas  notas  literárias.  Mas  não  deixou  de  consignar,  que  conforme  o  parecer  de  inúmeros  especialistas  nacionais  e  o  de  Max  Leclerc,  nas  suas  "Lettres  du  Brésil",  a  gestão  de  Rui  Barbosa  à  frente  do  Ministério  da  Fazenda  do  governo  provisório  da  República,  havia  sido  prejudicial  aos  interesses  do  país.

Na  verdade,  nesse  particular,  Rui  foi  muito  mais  teórico  do  que  prático.  Era  profundo  conhecer  de  Economia  Política,  mas  desconhecia  o  Brasil,  suas  peculiaridades  regionais  e  talvez  mesmo  o  momento  que  o  Estado  brasileiro  atravessava  logo  após  a  emancipação  dos  escravos  e  ainda  nas  placentas  do  novo  regime.

E  sempre  mais  preocupado  com  o  cinzel  do  artista  do  que  com  o  cerne  de  sua  produção,  Merou  ainda  elaborando  sobre  os  arroubos  de  Rui  Barbosa  na  defesa  de  suas  posições  como  Ministro  das  Finanças,  afirma: 

    "De  qualquer  forma,  o  modelo  daqueles  discursos  deve  ter  desorientado  os  chamados  homens  de  negócios,  acostumados  a  tratar  e  a  ouvir  tratar  os  assuntos  financeiros  de  uma  forma  pedestre,  vulgar,  ante  o  poder  e  as  galas  daquele  estilo  deslumbrador,  daquelas  frases  polidas  e  adamascadas,  como  jóias  cinzeladas  por  um  artista  incomparável".

Ora,  essas  linhas  trazem  de  novo  à  tona  os  conceitos  oportunos  de  Humberto  de  Campos,  aplicados  ao  trato  da  prostituição,  quando  Rui  Barbosa,  na  abordagem  do  tema,  não  tinha  necessidade  de  usar  vinte  sinônimos  e  de  não  repetir  uma    vez  o  mesmo  epíteto.

Que  interessava  aos  homens  de  negócios,  além  do  sucesso  destes,  galas  de  estilo  deslumbrador  e  frases  adamascadas ?

Tudo  isso  ficaria  muito  bem  num  concurso  de  oratória  ou  numa  disputa  literária.

No  quarto  capítulo  desse  seu  estudo  sobre  Rui  Barbosa,  Martin  Garcia  Merou,  examinou  o  volume  das  "Cartas  de  Inglaterra",  sobre  o  qual  disse  que  não  conhecia  na  literatura  do  continente  americano,  livro  mais  bem  escrito  e  mais  bem  pensado,  no  qual  avultam  o  gênio  e  a  flexibilidade  do  talento  do  autor.

No  mesmo  capítulo,  e    tratando  de  assunto  eminentemente  literário,  onde  Merou  pode  examinar  equilibradamente  tanto  a  forma  como  o  conteúdo,  versou  este  sobre  o  ensaio  de  Rui  Barbosa  a  respeito  de  Swift,  valendo  a  investida  barboseana  como  reabilitação  do  renomado  escritor,  tão  "deformado  e  violentado"  pelas  críticas  de  Taine  e  de  Saint - Victor,  na  França  e  de  Thackeray,  na  Inglaterra.

Enfatiza  Merou:

    "No  estudo  da  personalidade  de  Deão  Swift,  traçado  pelo  publicista  brasileiro,  está  o  resumo  de  longas  leituras  e  o  que    de  substancial  nas  obras  de  Roscoe,  de  Foster  e  de  todos  quanto  têm  analisando  a  produção  copiosa  de  uma  das  individualidade  mais  interessantes  da  literatura  inglesa".

  vai  longe  este  terceiro  e  último  artigo  que  escrevo  na  oportunidade  das  comemorações  do  sesquicentenário  do  nascimento  do  polêmico  mas  sempre  extraordinário  Rui  Barbosa.

Ainda  estribado  nos  judiciosos  conceitos  de  Humberto  de  Campos,  ouso  afirmar,  que  se  Rui  Barbosa  tivesse  podido  viver  exclusivamente  da  literatura,  não  pretenderia  fazer  mais  nada  na  vida.  A  arte  literária  era  a  sua  paixão  maior,  por  isso  ela  tinha  que  estar  presente  em  qualquer  uma  de  suas  atividades  profissionais.

E    também  nessa  vocação  e  nessa  volúpia  da  beleza  da  forma,  da  arte  pela  arte,  algo  de  bastante  quixotesco  na  personalidade  de  Rui.

Um  dos  maiores  artífices  e  estetas  da  língua  luso - brasileira,  falava  e  escrevia  para  um  povo  ágrafo  e  ignorante,  em  sua  maioria.

Por  isso,  com  rara  felicidade  definiu-o  Oswald  de  Andrade,  como  uma  cartola  na  Senegâmbia.

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