digitação utilizada para inclusão no site:
27/02/1997

Caboclo Varela

Parte 4

Francisco de Vasconcellos

Foi no 1º dia de novembro de 1902 que se deu a inauguração do busto de Fagundes Varela na então praça Visconde do Rio Branco.

Petrópolis despedia-se do seu status de capital fluminense. O mundo burocrático do Estado já descia serra abaixo no rumo de Niteroi.

Não obstante a festa foi completa. Prestigiando o evento lá estava o Presidente Quintino Bocaiuva, já bastante impopular aqui, pelo esforço que dispendeu para que o eixo político estadual se deslocasse da serra para a baixada, fazendo com que o poder passasse a circular por Campos, Macaé, Niteroi e Resende.

Lá estava também o Major Land, representando a municipalidade de Petrópolis; e estavam deputados estaduais, membros do poder judiciário, jornalistas e homens de letras, todos enredados na formidavel teia da memória poética do imenso Fagundes Varela.

Como é fácil compreender, naquele tempo era um tanto complicado viajar-se de Rio Claro a Petrópolis. Por isso mesmo, a Câmara Municipal rioclarense fez-se representar na solenidade pelo dr. Arthur Sá Earp, deputado estadual.

O capitão Otto Hees, fotógrafo de fama na época, documentou o evento.

Na edição de 9 de novembro de 1902, da Tribuna de Petrópolis, o cronista G. de A. comentava:

“Frio, inerte e indiferente, embora, lá está erguida na Praça Rio Branco, o busto de Fagundes Varela. Não é poeta mimoso, de feições delicadas, de cutis fina, de cabelos sedosos, de olhos cheios de brilho que o cronista conheceu outrora, mas em todo o caso é a imagem do cantor do Evangelho nas Selvas.

Ainda bem que não o esqueceram os homens de letras desta terra, porque os homens de letras desta terra se fazem políticos e depressa esquecem as letras.

Enquanto sobem os degraus do poder, vão uma vez ou outra lançando olhares furtivos para o mundo de fantasias, doces ilusões, que a mocidade enche de brilho, que o amor cerca de perfume: quando porém chegam ao alto,  podendo dar ordens, fazer mal a vontade, encher-se de egoismo e de orgulho, amar as grandezas dentro de palácios alcatifados, já nem se lembram que viveram das letras e que os homens de letras são seus colegas.

É que as alturas causam vertigens, mesmo nos que nasceram de ânimo bom e com sentimentos delicados e simples.

Bem haja, pois, esse grupo de homens de letras que esquecendo por momentos o egoismo da vida, os tempos difícieis que atravessamos, de descrença e desamôr para tudo quanto é nobre, grande e patriótico, levaram a efeito a ereção do busto do belo e inolvidavel poeta que tanto sofreu e tanto amou.

Homens de valor, a lepra da política ainda não os contaminou, a ambição das alturas ainda não embotou o sentimento do belo. Eles lembraram-se de erguer numa praça pública, na bela cidade das montanhas, o busto ao poeta, porque não esqueceram um companheiro ido, e, se não o esqueceram, é porque abrem ainda os seus livros e se os abrem, é porque se ocupam de letras. Não são ingratos.”

Quase noventa anos depois dessa bela chamada, a lepra da política parecia ter consumido totalmente os velhos baluartes das letras e aqueles que deveriam ter pela História, ao menos, um mínimo de respeito.

O busto de Fagundes Varela iria completar oitenta e nove anos de existência na velha praça Visconde do Rio Branco, logradouro que ostentava esse nome desde priscas eras, denominação esta que resistira á xenofobia e ao jacobinismo dos primeiros tempos republicanos e que seguia impávido batizando aquele pequeno espaço público na confluência das ruas Paulo Barbosa e do Imperador.

A lei nº 4.834 de 10 de junho de 1991, rifou o nome tradicional, para dar à praça, o de Prefeito Alcindo Sodré, figura proeminente de nosso meio, que já havia merecido idêntica homenagem em 7 de novembro de 1952, quando a deliberação 368 batizou de Alcindo Sodré uma placeta  entre os nºs  451 e 487 da rua dr. Sá Earp.

Mas a fúria dos políticos não parou aí. Eles removeram do local o busto de Fagundes Varela, sob o silêncio absoluto de todas as entidades culturais da cidade e alí colocaram a cabeçorra de AlcindoSodré, réplica de uma outra já existente nos jardins do Museu Imperial  de que Dr. Alcindo fora o primeiro diretor.

E o pobrezinho do Fagundes Varela, desvalido na vida e muito depois da morte foi parar na longíqua e ignota praça dos Trovadores, (hoje, Wolney Aguiar) onde não há qualquer trovador, nem vivo, nem transformado em bronze, onde está a mercê dos vândalos de toda a ordem.

Por ironia do destino, a festa da inauguração do novo monumento a Alcindo Sodré, deu-se a 30 de novembro de 1991, último dia do mesmo mês em que a 1º, oitenta e nove anos antes, dera-se a jubilosa entrega ao povo desta urbe da herma com o busto do poeta do Evangelho nas Selvas.

Realmente, quem tem padrinho não morre pagão. O evangelho da política é outro. No frigir dos ovos, o eminente homen público Dr. Alcindo Sodré, tem duas praças com seu nome e dois monumentos semelhantes nesta cidade Imperial por outorga popular.  A Fagundes Varela, só restaram os desvãos dos trovadores inexistentes e um logradouro que começa antes do nº 45 da rua Kopke e vai até o morro. Essa denominação é de 23 de março de 1902, por isso vale a pena conferir, porque pelo andar da carruagem, é possivel que a placa indicativa hoje, ostente o nome de João Minhoca ou Zé dos Pinguelos.

topo da página

índice de trabalhos

índice de autores