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21/02/1997

Caboclo Varela

Parte 3

Francisco de Vasconcellos

Transcorria o ano de 1897 e Petrópolis era a capital do Estado.  Certamente por isso e com a agravante de já ser a cidade o refúgio dos diplomatas e da sociedade carioca, maxime nos meses de verão, aqui se passavam lances nada comuns na vida das inúmeras comunas brasileiras e mesmo nas capitais da maioria das unidades da Federação.

Em março de 97, por exemplo, surgiu aqui a Arcádia Fluminense, sociedade que tinha por fim congregar homens de letras e artistas em geral. Eram corriqueiras nestas serras as conferências literárias, que traziam aos salões da moda escolhida platéia composta de autóctones e de gente em vilegiatura nesta eterna sucursal de todas as côrtes .

Já no apagar das luzes do século, surgiu aqui o Grupo de Homens de Letras, que aglutinava escritores da pesada, entre eles Osório Duque Estrada, Alberto de Oliveira, o Conde Afonso Celso, Alcebíades Peçanha, Martins Júnior e outros mais.

Esse grupo imaginou fazer de Petrópolis uma espécie de bustolândia, para homenagear as figuras mais representativas da literatura nacional. O bronze tomaria conta de nossas praças, de nossos largos, de todos os espaços urbanos disponíveis.

O ponteiro dessa lista era justamente Fagundes Varela.

Para angariar fundos de modo a poder erigir o monumento ao autor d’O Evangelho nas Selvas, o Grupo imaginou, entre outras iniciativas, promover uma série de conferências tendo como tema a vida e a obra do poeta.

A 21 de julho de 1901, no Clube de Xadrez deu-se a primeira palestra, que contou com a participação de Afonso Celso de Assis Figueiredo, rebento de Ouro Preto, filho do Visconde do mesmo nome, último chefe de gabinete na monarquia.

Afonso Celso, elogiou o trabalho da comissão encarregada de prestar em praça pública a grande homenagem a que fazia jus o poeta rioclarense, que havia cultivado todas as formas de poesia, do lirismo à sátira, cuja obra estava eivada da mais legítima religiosidade.

A segunda conferência foi pronunciada por Martins Júnior, no domingo 11 de agosto de 1901, igualmente no Clube de Xadrez.

O palestrante resolveu rebater as críticas de José Veríssimo a Varela, dizendo, entre outras coisas, que: 

“... todo artista capaz da produção de uma obra quase sublime, afasta-se do comum de seus contemporâneos e entre eles consegue a saliência do seu mérito artístico, que a tradição leva à posteridade por dever de justiça.”

O orador fez o elogio do primado de essência dos versos sobre os rigores das formas destes.

Terminou salientando a importância de serem colocados nas praças da cidade pilares ou colunas com bustos dos poetas fluminenses e deixando a eleição do nome seguinte ao de Fagundes Varela a cargo das damas petropolitanas.

Finalmente, a 22 de setembro encarregou-se o ciclo de palestras sobre o autor de “Vagalume”, com uma sessão lítero-musical e dramática no Teatro Fluminense.

Abriu o programa o poeta Leoncio Corrêa, seguindo-se-lhe o diplomata boliviano Mejia e Osório Duque Estrada que recitou “O Cântico do Calvário”, das peças mais conhecidas de Varela. Fechou o programa a comédia “A Timidez” de Cornélio Pena.

Em janeiro de 1902, a Gazeta de Petrópolis anunciava para 26 de fevereiro a inauguração do busto de Fagundes Varela, na praça conhecida por Visconde do Rio Branco. O trabalho era de Bernadeli e o grande orador do evento seria Ruy Barbosa, que havia aceito prazerosamente o convite.

Mas nem tudo saiu como se esperava.

Talvez por razões de ordem técnica, a festa foi adiada. Passaram-se os meses. Num dos primeiros números da recém fundada Tribuna de Petrópolis, a 30 de outubro de 1902, aparecia esta notícia: 

“Já chegou a esta cidade a herma sobre a qual deve ser colocado o busto do poeta fluminense Fagundes Varela.

Em breve deverá portanto ser inaugurado na Praça Visconde do Rio Branco o busto do inolvidável poeta, realizando-se assim a idéia da ilustre comissão de Homens de Letras de Petrópolis.”

Ao iniciar-se novembro a população desta urbe seguia jubilosa no rumo da confluência das então avenidas 15 de Novembro e Washington (Imperador e Paulo Barbosa), para saudar o Caboclo Varela.

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