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13/02/1997

CABOCLO VARELA

Parte 2

Francisco de Vasconcellos

Carlos Ferraz, em artigo publicado na Tribuna de Petrópolis de 17 de agosto de 1930, escreveu:

“Conheci-o em Niterói, quando eu era criança, sempre perambulando no largo de São João, onde escrevia versos sentado num dos bancos próximos ao chafariz, que ali existia.  Era um rapaz delicado, de maneiras finas, claro e louro, de olhos de um azul celeste e acariciador.  O olhar forte e a sua magreza não fazia prever o seu rápido desaparecimento do mundo dos vivos, porque era dessas magrezas que chegam à longevidade.  Era de altura mediana.  Descuidado no trajar, lembrava uma tela preciosa guardada numa moldura sem arte, baratíssima.”

Tal o Fagundes Varela, já nos seus tempos niteroienses, portanto no apagar das luzes de sua curta existência neste planeta.

Luiz Guimarães, poeta dos melhores, entre tantos gigantes brasileiros, retratou seu inditoso colega num soneto magistral:

 Este era louro como a luz coada/Da manhã, pelas nuvens ondulantes;/Nos seus olhos azuis e fascinantes;/Boiava sempre a lágrima ignorada.

Alma por Deus dos anjos exilada;/ No mundo apenas rápidos instantes/Pousou - e abrindo as asas delirantes,/Volveu cantando, à paternal morada.

Mal  seu gentil e angélico instrumento/Modulou entre nós.  O firmamento/Cobiçoso esperava o albor dessa alma;

E ela fechando o calix de repente,/Foi gozar junto a Deus eternamente/A noite, o orvalho, a viração e a calma.

Tais as pinceladas em prosa e em verso a debuchar o homo vareliensis, o caboclo louro de olhos azuis, animado pela alma selvagem e arredia ao lugar comum do quotidiano burguês.

No exame de sua personalidade, poucos foram tão felizes como Edith Mendes da Gama e Abreu, no belo ensaio publicado em o nº 36 da Revista das Academias de Letras, referente a agosto de 1941.

Disse a ensaísta baiana:

“Se não houvesse nele uma luta interior, um paradoxo psicológico, sua obra literária iria forçosamente refletir-lhe as paixões.  Ao contrário, é clarão do que existia de sublime naquele pobre exemplar humano, em que os olhos azuis lembravam a pureza do céu e as correntes do instinto prendiam às misérias da terra.  Essas misérias, de que não se libertando nunca, senão tanger da lira, acabariam por deixá-lo combalido de fadiga e de tédio, martirizado e cético.”

A morte do filho Emiliano, havido com a primeira mulher, Alice Guilhermina Luande, desencadearia no poeta terrível processo de autodestruição. O Cântico do Calvário é fruto dessa desgraça e, Edith Mendes da Gama e Abreu, mais uma vez vai fundo na alma de Varela:

“Decidido a pervagar pelos campos, andou a esmo por desertos rumos, triste e só, com o velho capote que lhe dava uma aparência aventureira e o vidro de álcool, que lhe definia o pendor irresistível.

Se a dor tivesse o  apregoado condão de purificar ... mas a dor aguça a inteligência sem transfundir o caráter.

Por isso Fagundes Varela prosseguiu o penoso roteiro, inconsolável da saudade do filho e incorrigível da tendência para o vício.

Andarilho singular, a fugir e a volver ao turbilhão das cidades, a fugir e a volver à quietude dos campos, indeciso na renúncia  à poesia, porque por ela atraído até o extremo de uma existência de luz e treva, tombou por fim e tão cedo, ao golpe de insidiosa moléstia, ao látego de tempestade inclemente, numa sarjeta de rua, para findar sua desdita entre as carícias de duas mulheres que tanto tiveram a perdoar-lhe: sua mãe e sua esposa.”

Se a ensaísta baiana foi tão feliz nessa abordagem da alma vareliana, Murilo Araújo não ficaria atrás nessa magistral síntese do Fagundes poeta:

“Há nele os ritmos de Gonçalves Dias, a ingenuidade singela de Casimiro, os surtos condoreiros de Castro Alves, o bironismo de Álvares, o misticismo de Junqueira, a elegância de Porto Alegre e Magalhães e o sertanismo de Bernardo Guimarães.”

Mas o retrato de corpo inteiro fica por conta de Leonardo Froes, na sua recente obra “ Um Outro Varela”, Rio, 1989.

E diante de tanta forca, de tanta exuberância de tanto esbanjar de talento, meu espírito turbilhonante e insubmisso, grita a plenos pulmões:

Guerra aos medíocres, aos colecionadores de migalhas, de falsas grandezas, de qualidades improdutivas.

Alvíssaras aos loucos de todo o gênero, aos que discrepam do insosso, do vasqueiro, do trivial, aos que vivem nos desvãos do incomum, do insólito, do raro, aos que são capazes de chegar aos astros, depois de uma existência de rechaços, desprezos e incompreensões.

De tudo isso sabiam Lima Barreto, Agripino Grieco, Silvio Júlio, Silvio Romero, Max Vasconcellos, Bocage, Camilo Castelo Branco e o próprio Fagundes Varela.

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