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13/02/1997

CABOCLO VARELA

Parte 1

Francisco de Vasconcellos

Das entranhas da Serra do Mar, das vertentes dos tributários dextros da ribeira sul paraibana, por entre os cafezais e bananeiras, brotou a energia necessária que faria esturrar, aos 17 de agosto de 1841, o Cabloco Varella, força telúrica e cósmica ainda não captada pelos radares dos radares dos arraiais umbandistas.

Sim, porque ninguém foi mais cabloco do que ele, seja por sua índole libertária, seja por seu desapego da matéria, seja por seu devotamento à natureza, seja por seu romantismo tropicalista, seja por sua elaboração poética, que atinge o clímax com o Evangelho nas Selvas.

Cabloco total, encantador, meteoro neste planeta de balizamentos inexoráveis, eternidade no panteão do universo sideral.

Faltam-lhe as preces, os cantos e os ingredientes propiciatórios, que lhe permitam espargir um pouco mais de luz e de alento neste mundo barbarizado pelo materialismo mais abjeto e pernicioso. Luiz Nicoláo Fagundes Varella, rebento da Fazenda Santa Rita, em Rio Claro, Estado do Rio de Janeiro, é o Cabloco de quem falo, andarilho, física e mentalmente, em correrias pela vastidão brasileira, e pelos espaços cósmicos para onde o levavam o verso e a rima . Teria a genealogia explicação para esse duplo delírio ambulatório? Ou seria o poeta rioclarense, na forma e no conteúdo, sem ascendentes e descendentes, elos dessa mesma cadeia errante?

No centro da praça principal da pobre cidade sul fluminense de Rio Claro, há modesto monumento em memória da gigantesca fulguração espiritual. Enorme desproporção entre o continente e o conteúdo. O marco não tem imponência dos que foram erigidos em Salvador, em homenagem a Castro Alves, em São Luiz para comemorar Gonçalves Dias, em Delft, para recordar Hugo Grotius, em Orleans para perpetuar a lembrança de Joana D'Arc .

Apenas o busto do poeta/cabloco, sobre discreto pedestal, onde se lê, em uma de suas faces:

1841 - 1875

Embora o sopro ardente da calúnia /Crestasse os sonhos meus, / Nunca descri do bem e da justiça, /Nunca descri de Deus.

  (L.N. Fagundes Varella)

Trinta e quatro anos apenas viveu o poeta; trinta e quatro anos peripatéticos, Aasverus redivivo por Seca e Meca, ora em Rio Claro, ora em Angra dos Reis, ora em Petrópolis, ora em Catalão, ora em São Paulo, ora no Recife, ora sem destino, por léguas e léguas na busca quiçá do fim do mundo.

E neste insípido giro,/Neste viver sempre a esmo,/Vale a pena em seu retiro/ Cantar o poeta mesmo?

(O mesmo - Gazeta de Petrópolis, 10/ 05/1893)

Esbórnia, dissipação, mulheres, desencontros, desatinos ... enfim a morte em Niterói no aurorecer de 1875.

Passai, tristes fantasmas: O que é feito/ Das mulheres que amei, gentís e puras?/ Umas devoram negras amarguras,/Repousam outras em marmore leito!

Outras, no encalço de fatal proveito,/Buscam à noite as saturnais escuras,/Onde empenhando as murchas formosuras,/Ao devaneio do ouro rendem preito!

Todas sem mais amor, sem mais paixões!/ Mais uma fibra trêmula e sentida!/Mais um leve calor nos corações!

Pálidas sombras de ilusão perdida,/Minh’alma está deserta de emoções,/Passai, passai, não me poupeis a vida!

(Visões da Noite - Gazeta de Petrópolis 20/09/93)

A Gazeta de Petrópolis de 18 de fevereiro de 1897, recordava:

“Faz vinte e dois anos hoje que faleceu o extraordinário cantor de Lázaro.

O poeta genial do Evangelho nas Selvas, um dos maiores poetas da América do Sul, é cada vez mais admirado e querido.

Fluminense, morreu em seu Estado, guardando o cemitério de Maruí, verdadeiro escrínio de relíquias, os seus restos mortais.

Erige-se um monumento ao cantor dos Timbiras e no entanto, Varela não mereceu senão modesto mausoleo erigido pelos seus admiradores pessoais.

O Estado do Rio deve, em homenagem ao seu maior poeta, perpetuar em bronze a sua memória.”

É o que veremos no decorrer dessa resenha vareliana, que o I.H.P. publicará em capítulos.

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