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27/12/1996

Agendando as celebrações de 1997

Francisco de Vasconcellos

O ano da graça de 1997 vem com força total no campo das relembranças, das rememórias que levam fatalmente à reflexão e ao exercício saudável de sempre repensar a história ao embalo da efeméride.

No plano doméstico, isto é, no que concerne à ribeira do Piabanha, 1997 marca o transcurso do sesquicentenário da morte de Júlio Frederico Koeler, acontecimento que bem merecia um colóquio nos moldes daquele patrocinado pelo I.H.P., em julho de 1995, quando se comemoraram os 150 anos da colonização germânica em Petrópolis. Fica pois a sugestão, com quase um ano de antecedência, já que foi num 21 de novembro que se deu o trágico desaparecimento do responsável pelo plano urbanístico desta povoação, que receberia foros de cidade em 1857 dez anos após a morte de seu benfeitor.

Há cem anos, no mês de abril, a Câmara Municipal de Petrópolis entregava ao trânsito público a nova ponte que ela mandara construir sobre o rio Piabanha, deante do Matadouro (o velho) e, a Biblioteca Municipal, já possuidora de alentado acervo, ganhava seu regulamento.

Há noventa anos, fundava-se aqui o Tênis Clube, que haveria de ser o point da sociedade carioca em vilegiatura nestas serras, até o fim da segunda guerra mundial. Foi também em 1907 que o Automóvel Clube fez o primeiro ensaio rodoviário no eixo Rio-Petrópolis, ponto de partida do grande cometimento que marcaria o governo de Washington Luiz, duas décadas depois. E naquele já distante 1907, Julio Roca, duas vezes presidente da Argentina, faria sua segunda visita a esta cidade.

Há oitenta anos, ativavam-se aqui os movimentos operários, sucedendo-se as greves por melhores salários e conquistas sociais, enquanto morriam Oswaldo Cruz, primeiro Prefeito desta urbe e Alberto de Seixas Martins Torres, que de Petrópolis comandara os destinos fluminenses, entre 1898 e 1900, quando a capital do Estado do Rio de Janeiro esteve plantada neste pedaço de chão serrano.

Há setenta anos, o Dr. Paula Buarque chegava à Prefeitura, para fazer uma administração digna de todos os elogios; há sessenta, morriam Frei Luiz Reinke e o poeta Alberto de Oliveira, que viveu longos anos nesta urbe; há cinquenta, Petrópolis sediava monumental conferência que reuniu em Quitandinha a nata do poder nos estados americanos, ao tempo em que levava ao túmulo Arthur Alves Barbosa, jornalista aqui chegado por força da Revolta da Armada de 1893, que aqui fez brilhante carreira, conduzindo os destinos da Tribuna de Petrópolis, por quatro décadas.

No plano nacional, teremos pelo menos três grandes celebrações: os 180 anos da Confederação do Equador e os centenários da fundação da Academia Brasileira de Letras, agora sob a batuta da escritora Nélida Pinõn e da Guerra de Canudos, que já tem simpósio programado pelo Núcleo Sertão, da Universidade Federal da Bahia, em maio próximo.

Já na esfera internacional, há que se rememorar o quarto centenário da morte do Padre José de Anchieta, uma história de vida que começa em Santa Cruz de Tenerife, nas Canárias, passa por São Paulo e termina na bucólica Reritiba, que já foi Benevente e que hoje atende por Anchieta, no litoral sul capixaba.

Outro fato relevante e digno de profunda reflexão, no contexto iberoamericano, é a guerra de independência de Cuba, que teve lances impressionantemente épicos no transcurso do ano de 1897, reveladores da têmpera e do estoicismo de um povo, que tem uma das histórias mais ricas nesse chamado Novo Mundo.

E finalmente, the last, but not the least, Áustria e Brasil hão de comemorar a altura da personalidade, o bicentenário de nascimento da Imperatriz Leopoldina, mulher extraordinária que jovem ainda deixou o conforto da requintada côrte de Viena, para enfrentar a barbárie carioca da virada do Brasil Reino Unido para o Brasil Império e que não obstante deu provas incontestáveis de seu amor e respeito por sua nova pátria, onde deixou marcas indeléveis de sua forte personalidade e de seu espírito sensível às artes e às ciências.

Aí está pois a agenda para 1997. É pegar ou largar, é comemorar ou esquecer relaxadamente nos desvãos da já pobre memória nacional.

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